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A “crise” americana, que coincide aliás com o
mais longo e consistente período de crescimento
da economia, tem provocado uma série de publicações
entre as quais se destacam os livros “Active
Faith” de Ralph Reed; a obra “Slouching
throug Gomorrah” (Vadiando através
de Gomorra) de Robert Bork; e “The Great Disruption”
(a Grande Perturbação, Transtorno ou Crise), do
conhecido sociólogo, metido a filósofo da história
Francis Fukuyama. Os três livros coincidiram,
evidentemente, com o escândalo Clinton-Mônica
e representam de certo modo uma crítica, mais
conservadora do que liberal, ao governo em Washington,
aos meios de comunicação e círculos intelectuais
de esquerda, assim como uma análise de episódios
negativos que têm abalado a consciência moral
da sociedade americana. Reed é presidente da chamada
“Coalizão Cristã” que se transformou num poderoso
grupo de pressão, com crescente influência no
apoio às candidaturas republicanas. Ele acredita
que “os Cristãos estão mudando a Alma da Política
Americana”. e seu interesse se dirige a questões
práticas imediatas como aborto, pretensões dos
homossexuais e recuperação da instituição familiar.
Bork é um jurista que não obteve a aprovação do
Senado à sua candidatura à Côrte Suprema, ao tempo
de Reagan. Associando o termo “liberal” com o
“mundo onírico” dos programas da Esquerda (como
é habitual nos EUA), ele denuncia o “individualismo
radical”, “a redução drástica dos limites da satisfação
pessoal”, juntamente com “o igualitarismo extremado”
como causas do que lamenta como “declínio do Ocidente”.
Dedico minha principal atenção, contudo, para
o livro de Fukuyama. O sociólogo nipo-americano
que fez imenso sucesso com seus dois trabalhos
anteriores, “O Fim da História e o Último Homem”
(1992) e o inquérito sobre a virtude social de
Confiança como decisiva na criação da prosperidade
(“Trust: the Social Virtues and the Creation
of Prosperity” 1995), insiste agora na tese
de cunho algo materialista, do relacionamento
entre a crise da cultura e as transformações que
está sofrendo a economia global sob o impacto
da Revolução da Informática. Ele parece acreditar
que é a Internet o que está derrubando as velhas
hierarquias políticas e corporativas, se demora
nos índices que indicam uma ruptura da ordem social,
tal como é salientada por William Bennett, o antigo
ministro de Reagan, hoje guru da Direita.
A ruptura, acentua, não é apenas uma questão
de nostalgia, fraca memória ou ignorância concernente
à hipocrisia de idades passadas. Os dados estatísticos
estão aí para confirmar o crescimento da criminalidade,
drogas, ilegitimidade, divórcios e redução no
número de casamentos. Entretanto, assinala Fukuyama
que, se ao tempo de Weber se poderia falar na
burocracia como essencial à organização da idade
industrial, com o advento da Informática é a auto-organização
por parte dos indivíduos “descentralizados” o
que determinará o restabelecimento da ordem social.
Retomando as teses da “Mão invisível” de Adam
Smith e “Ordem espontânea” de Hayek, Fukuyama
assinala que, do mesmo modo como em ocasiões históricas
anteriores, as sociedades humanas em processo
de modernização deverão utilizar os recursos do
reordenamento natural para enfrentar os distúrbios.
A precondição será a interiorização das regras
e normas de comportamento - e ele sugere que essa
transição para a Ordem espontânea individual,
sustentada no Estado de Direito (Rule of Law),
ocorrerá no próximo século. A essência da mudança
nos Valores, observada no cerne da “Great Disruption”,
é o surgimento da moral individualista, conquanto
a miniaturização da comunidade solidária, com
o retorno a relacionamentos pessoais restritos,
do tipo da Gemeinschaft do sociólogo alemão
Ferdinand Tönnies (1887), corrigirá o caráter
abstrato, impessoal e frio de defesa de interesses
materiais na Gesellschaft, ou sociedade
industrial moderna. Com todas as incoerências
e, especialmente, seu óbvio desconhecimento das
origens de nossa cultura latino-americana, o livro
de Fukuyama merece nosso interesse pela apreciação
objetiva e otimista dos distúrbios que a Globalização
está causando em todo o mundo.
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