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Jornal da Tarde, 09 de agosto de 1999
A crise moral da modernidade
Para Fukuyama, é a auto-reorganização dos indivíduos "descentralizados" que determinará o restabelecimento da ordem social

 
 

A “crise” americana, que coincide aliás com o mais longo e consistente período de crescimento da economia, tem provocado uma série de publicações entre as quais se destacam os livros “Active Faith” de Ralph Reed; a obra “Slouching throug Gomorrah” (Vadiando através de Gomorra) de Robert Bork; e “The Great Disruption” (a Grande Perturbação, Transtorno ou Crise), do conhecido sociólogo, metido a filósofo da história Francis Fukuyama. Os três livros coincidiram, evidentemente, com o escândalo Clinton-Mônica e representam de certo modo uma crítica, mais conservadora do que liberal, ao governo em Washington, aos meios de comunicação e círculos intelectuais de esquerda, assim como uma análise de episódios negativos que têm abalado a consciência moral da sociedade americana. Reed é presidente da chamada “Coalizão Cristã” que se transformou num poderoso grupo de pressão, com crescente influência no apoio às candidaturas republicanas. Ele acredita que “os Cristãos estão mudando a Alma da Política Americana”. e seu interesse se dirige a questões práticas imediatas como aborto, pretensões dos homossexuais e recuperação da instituição familiar. Bork é um jurista que não obteve a aprovação do Senado à sua candidatura à Côrte Suprema, ao tempo de Reagan. Associando o termo “liberal” com o “mundo onírico” dos programas da Esquerda (como é habitual nos EUA), ele denuncia o “individualismo radical”, “a redução drástica dos limites da satisfação pessoal”, juntamente com “o igualitarismo extremado” como causas do que lamenta como “declínio do Ocidente”.

Dedico minha principal atenção, contudo, para o livro de Fukuyama. O sociólogo nipo-americano que fez imenso sucesso com seus dois trabalhos anteriores, “O Fim da História e o Último Homem” (1992) e o inquérito sobre a virtude social de Confiança como decisiva na criação da prosperidade (“Trust: the Social Virtues and the Creation of Prosperity” 1995), insiste agora na tese de cunho algo materialista, do relacionamento entre a crise da cultura e as transformações que está sofrendo a economia global sob o impacto da Revolução da Informática. Ele parece acreditar que é a Internet o que está derrubando as velhas hierarquias políticas e corporativas, se demora nos índices que indicam uma ruptura da ordem social, tal como é salientada por William Bennett, o antigo ministro de Reagan, hoje guru da Direita.

A ruptura, acentua, não é apenas uma questão de nostalgia, fraca memória ou ignorância concernente à hipocrisia de idades passadas. Os dados estatísticos estão aí para confirmar o crescimento da criminalidade, drogas, ilegitimidade, divórcios e redução no número de casamentos. Entretanto, assinala Fukuyama que, se ao tempo de Weber se poderia falar na burocracia como essencial à organização da idade industrial, com o advento da Informática é a auto-organização por parte dos indivíduos “descentralizados” o que determinará o restabelecimento da ordem social. Retomando as teses da “Mão invisível” de Adam Smith e “Ordem espontânea” de Hayek, Fukuyama assinala que, do mesmo modo como em ocasiões históricas anteriores, as sociedades humanas em processo de modernização deverão utilizar os recursos do reordenamento natural para enfrentar os distúrbios. A precondição será a interiorização das regras e normas de comportamento - e ele sugere que essa transição para a Ordem espontânea individual, sustentada no Estado de Direito (Rule of Law), ocorrerá no próximo século. A essência da mudança nos Valores, observada no cerne da “Great Disruption”, é o surgimento da moral individualista, conquanto a miniaturização da comunidade solidária, com o retorno a relacionamentos pessoais restritos, do tipo da Gemeinschaft do sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1887), corrigirá o caráter abstrato, impessoal e frio de defesa de interesses materiais na Gesellschaft, ou sociedade industrial moderna. Com todas as incoerências e, especialmente, seu óbvio desconhecimento das origens de nossa cultura latino-americana, o livro de Fukuyama merece nosso interesse pela apreciação objetiva e otimista dos distúrbios que a Globalização está causando em todo o mundo.