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Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Gazeta Mercanti,l 4 novembro de 1999
A sedução das ditaduras
Um povo pode preferir um governante que use métodos não-constitucionais para adiantar reformas urgentes

 
 

Na GAZETA de 24/26 de setembro último, o Sr Gilson Monteiro, referindo-se a um artigo que publiquei no JORNAL DA TARDE há exatamente um ano (19.10.98), “Crise e Déficit Público”, se despenca em violenta diatribe contra minha pessoa e as idéias do Instituto Liberal, acoimado de “neo-nazista”. O motivo aparente de sua crise emocional foi um trecho em que escrevi o seguinte: “Que FHC dê uma de Fujimori! Mande interromper a construção da babilônica Procuradoria Geral da República em Brasília, cancelar submarinos atômicos, etc. ministérios, repartições, embaixadas supranumerárias, etc.”. Até aí, nada de mais. Todas as medidas que sugiro estão perfeitamente dentro das atribuições constitucionais de S.E. e, depois de um ano, posso reiterar o conselho, se ele, Presidente da República, desejar mesmo enfrentar a “Crise e déficit público” que é o tema do artigo. Nada disso justificaria o argumento histérico do eminente professor amazonino contra minhas idéias e as do Instituto Liberal, quando nos acusam de sermos neonazistas e a favor da ditadura.

Incidentalmente, Fujimori não é um ditador e, além do mais, várias vezes na época, me manifestei a favor da cadidatura de Vargas Llosa que, além de ser meu amigo a quem muito admiro, era o verdadeiro candidato liberal à Presidência do Peru. O próprio Sr Gilson Monteiro, em seu artigo, observa que um ditador é um ditador, “como se ditador se pudesse escolher”, esquecido ao que parece que o Presidente Fujimori foi duas vezes escolhido Presidente do Peru, sendo assim o que há de mais democrático em termos de democracia. É verdade, contudo, que um indivíduo pode ser escolhido chefe de estado pela imensa maioria do eleitorado e acabar ditador: foi exatamente o que aconteceu na Alemanha nazista. Por outro lado, é também verdade que, em certos casos excepcionais, um povo pode preferir ter, temporariamente, um governante que use de métodos extra-constitucionais para adiantar certas reformas de urgência fundamental ou atender a emergências sérias. Os romanos inventaram o termo “ditadura” nesse sentido, sob o lema salus populi suprema lex. Incidentalmente, quase todos os presidentes da República Velha, no Brasil, foram ditadores nesse sentido, pois governaram sob estado de sítio. É nesse contexto que escrevi a frase em que aconselho o Presidente Cardoso a "dar uma de Fujimori”. O Peru achava-se absolutamente contaminado pela desordem, a guerra civil, o terrorismo e a corrupção (inclusive no Congresso e no Judiciário), após a ditadura militar que sofrera e a presidência do demagogo ladrão, Alan Garcia, que ascendera à Presidência em 1985, como representante de um partido semi-totalitário, a APRA.