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Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde, 29 novembro de 1999
A Sociedade do Mont Pèlerin (MPS)
Donald Stewart conduziu com inteligência a tarefa de divulgar no Brasil a doutrina da liberdade e da responsabilidade individual

 
 

Por alguns denunciado e injuriado com a alcunha de “neo-liberalismo”, o Liberalismo moderno pode ser datado de abril de 1947 quando, no Hotel du Mont Pèlerin, acima de Vevey na Suíça, e a convite de Friedrich Hayek se reuniram 38 intelectuais e economistas, europeus e americanos, para discutir o futuro do mundo, traumatizado pela guerra. Vários dos participantes se tornariam famosos e receberiam o Prêmio Nobel. Foram eles as cabeças do movimento de opinião que, nos anos 80, inspiraria os governos de Reagan e lady Thatcher, inaugurando a política da Nova Ordem Espontânea Global que hoje se estende sobre o mundo, após provocar a queda do Muro de Berlim e o colapso da URSS. Alguns nomes merecem ser citados porque influenciaram decisivamente suas respectivas nações. Hayek, Mises e Popper foram os gurus e representam a chamada Escola Austríaca. Jacques Rueff foi autor do Plano que orientaria De Gaulle e toda a Vª República, em que pese a teimosa resistência do velho estatismo centralizador francês. G. Haberler, Walter Eucken, Wilhelm Röpke e Ludwig Erhard, este último futuro Chanceler, elaboraram a chamada Economia de Mercado Social (Soziale Marktwirtschaft) que, adotada por Adenauer, é responsável pelo “milagre alemão” de pós-guerra. Da Itália, dominada pelo autoritarismo da Contra-Reforma, emanariam as vozes solitárias de Bruno Leoni e Antonio Martino. Da Inglaterra vieram os epígonos da London School of Economics que, através do Institute of Economic Affairs, reconduziriam os tories ao poder, refugando o marxismo do Labour e impondo ao Reino Unido a tendência liberal que o próprio Blair não consegue esconder em sua fraudulenta “Terceira Via” e no estratagema hipócrita de atirar Pinochet aos lobos. Lord Robbins, lord Bauer, lord Harris e Arthur Seldon são alguns nomes da epopéia. Da América faltou Walter Lippmann mas procederam outros, destinados a dominar a ciência econômica nas décadas seguintes, Frank Knight, George Stigler, Milton Friedman, Michael Polanyi, Henry Hazlitt, além de Michael Novak que ao Papa teria sugerido o vezo liberal de sua Centesimus Annus. Outros se juntaram posteriormente: James Buchanan, Gary Becker e R. H. Coase, hoje figuras de proa no pensamento político e econômico americano. Com o tempo, outras personalidades, eminentes ou não, aderiram à Sociedade. Hoje somos 500, de 70 países. Desprovida de sede e orçamento, a MPS funciona graças às contribuições de seus membros, sendo convocada, nos anos pares em conferências globais e, nos ímpares, em reuniões regionais. Em fins de outubro estive em Potsdam, na Alemanha, no próprio local em que (agosto de 1945) Truman, Churchill e Stáline não evitaram a divisão da Europa e a Guerra Fria. A Reunião regional celebrou e, ao mesmo tempo, analisou e criticou a forma por que a Europa de hoje se unifica.

Eugênio Gudin e Henri Maksoud foram seus primeiros membros brasileiros. Relevante no entanto é o nome de Donald Stewart, a quem presto aqui minha saudosa homenagem. Filho de canadenses, engenheiro e bem sucedido empresário (Presidente da ECISA), construtor de dúzias de super-mercados, possui Donald Stewart o mérito excepcional de haver fundado o primeiro Instituto Liberal no Rio de Janeiro, em 1983, alma mater de sete outros institutos associados. Acontece que, além de ativo e hábil angariador de fundos para a manutenção desses Think-tanks, foi Donald também amigo encantador, emérito tradutor de obras liberais e autor de alguns preciosos textos de exposição da doutrina em nosso país. “A Lógica da Vida” foi publicada em agosto, quando já sofria do mal que o levou. Como um dos membros do Conselho Diretor da MSP, foi também quem organizou a reunião da Sociedade no Rio, em 1993. Ele nos fará imensa falta e nos deixa ainda maiores recordações por seu temperamento cordial, o comportamento de verdadeiro gentleman e a inteligência com que sempre conduziu a ingrata tarefa de divulgar a doutrina da liberdade e da responsabilidade individual, num país tão profundamente escarmentado pelo Dinossauro burocrático, a economia mercantilista, uma estrutura patrimonialista e meio milênio de pesado e bom-moço paternalismo intervencionista.