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No importante editorial de segunda-feira 4 do
corrente, sob o título “Do que nós vamos morrer”,
o JORNAL DA TARDE denunciou, em tom irônico mas
tanto mais contundente, a hipocrisia e desfaçatez
dos juízes do Supremo e particularmente um deles
que, num exibição de cinismo pouco comum, se queixou
de “ter que vender o automóvel novo recém comprado
a prazo”, se não fosse, “judicialmente”, desmontada
a iniciativa do Executivo de descontar uma parcela
dos vencimentos do funcionalismo público, na tentativa
de re-equilibrar as contas públicas, ameaçadas
pela crise da Previdência. A 13 do mesmo mês,
apreciei um outro editorial, do Sr. Alípio Severo,
que se refere em tom tragicômico à “mãe de todas
as crises” que estamos atravessando. O professor
universitário descreve como sempre temos vivido
“à beira do abismo”, comentando com toda pertinência
que essas crises são de natureza política e só
indiretamente afetam nossa existência como cidadãos
privados. Como aposentado, que se exprime hoje
nessa categoria de privacidade e vive há 62 anos
às custas do erário, inicialmente como diplomata,
depois como professor de universidade federal
e agora como beneficiário do sistema, quero juntar-me
aos perplexos com o presente estado de coisas.
Confesso mesmo que, observador engajado, em determinados
instantes tão fortemente irritado me sinto que
passa pela minha cabeça a frase ouvida de um colega
mais velho, lá por volta de 1938 quando por concurso
entrei na carreira: “o ideal é viver longe do
Brasil mas a custa dele”... Por que não me juntar
ao mais de um milhão de outros brasileiros que,
fartos de sofrerem com as mazelas relatadas, já
daqui se foram para praias mais civilizadas? Como
muitos outros, fico nauseado ao diariamente ler
nos jornais e assistir na TV a um noticiário quase
que exclusivamente dedicado à explosão de criminalidade,
à corrupção, inépcia, desordens nas ruas, manifestações
grotescas da burritzia tupiniquim e cenas
aberrantes como a do bispo católico, com um quepe
ridículo na cuca asinina, se juntando a uma multidão
de baderneiros na Praça dos Três Poderes, e a
de um ex-presidente da República, notório por
sua debilidade mental e falta de compostura, que
intenta por métodos grotescos torpedear o processo
de privatização de estatais.
Entretanto, vejam bem minha pergunta: o que os
editorialistas denunciam são atos do governo,
mas o que é o governo? O entranhado personalismo
brasileiro, o concretismo afetivo de nossa tradição
cultural - a que dedico 500 páginas de análise
psicológica no livro que acabo de publicar, “Em
Berço Esplândido” - definem o governo como
sendo Fulano ou Beltrano. O Sr. Parsifal Barroso,
velho político que conheci há anos, esclareceu-me
o problema ao relatar sua experiência quando chegou
a um lugarejo do sertão do Ceará e ouviu os caipiras
se apressarem aos gritos “Lá vem o governo! Lá
vem o governo”! Existe uma incapacidade inata
de nossa gente em compreender o Governo como uma
entidade abstrata, uma instituição de que somos
responsáveis e composta não só de Três Poderes,
Executivo, Legislativo e Judiciário, mas de doze
mil outras entidades estaduais e municipais autônomas,
todas elas igualmente divididas e em grande parte
anarquizadas. Vê-mo-lo como uma espécie de “pessoa”
trancendente. O Governo é um Papai-Mamãe que nos
vai garantir a subsistência, contanto que voluntariamente
a ele nos integremos como dependentes. O professor
Severo fala sarcasticamente nas eternas e deploráveis
vicissitudes de nossos governos, nossas presidências,
inúmeras “repúblicas”, regimes e constituições.
No entanto, não é a instabilidade o que caracteriza
nossa estrutura política propriamente dita, é
sua fantástica estabilidade. Há 62 anos que religiosamente
recebo meu contracheque no fim do mês e, sólido
como o Pão de Açucar, este, salvo episódios passageiros,
jamais cessou de crescer. O verdadeiro regime
do país é o Patrimonialismo. O Patrimonialismo
pode ser definido como a existência de uma classe
privilegiada de dez e doze milhões de pessoas,
com outros tantos dependentes, todos assegurados
em seus “direitos adquiridos”. Alguém então se
admira que o Ministro Presidente do Supremo pode
comprar automóvel novo e o Ministro da Fazenda
não pode alcançar o equilíbrio fiscal?
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