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Tenho em mãos um folheto que está sendo distribuído
aos milhares pelas Igrejas Católicas de Brasília
e, suponho, de outras cidades. Publicação da CNB
do B, é uma curiosa mistura de verdades, confusões,
omissões e distorções da realidade - sendo sua
leitura “catequética” para adolescentes perigosa
precisamente por isso. A idéia fundamental parece
estar contida numa peça, não do papa João Paulo
II, chefe da Igreja, mas numa pseudo “Declaração
Universal dos Direitos Humanos” de autoria de
um cavalheiro identificado como frei Beto (frei
de que congregação religiosa, por favor?), o qual
da aludida declaração nos oferece uma “versão”
dita “popular”. São 19 “direitos”, a maior parte
conhecida e universalmente respeitada nas democracias
liberais, e apenas dois itens são deveres. Um
destes é o de respeitar e proteger os direitos
da comunidade; e, o segundo, o de lutar pela conquista
e ampliação dos direitos propostos pelo autor
do texto, frei Beto. Há também um desenhinho curioso
em torno de um peixe, grande forte e mau, que
persegue uma porção de peixinhos. Um outro desenho
mostra os peixinhos que se revoltam e, todos juntos,
perseguem o peixão.
Lembrai-vos que a Igreja Católica é uma comunidade
e, no primeiro século de nossa era, seus membros
se identificavam como peixinhos, colhidos na rede
do grande pescador Simão, mais conhecido pelo
pseudônimo de Pedro (kephas, Petros, petra) -
o que justificou o trocadilho de Cristo (Mateus
16:18) “és Pedro e sobre essa pedra...”, etc.
A parábola dos peixinhos que são comidos por
um peixão é banal. Numa das menos conhecidas peças
atribuídas a Shakespeare, Péricles, um personagem
se espanta das injustiças da vida e pergunta:
Master, I marvel how the fishes live in the sea.
Responde o Mestre: Why, as men aland: the great
ones eat up the little ones. Se na terra os grandes
comem os pequenos, do mesmo modo como fazem os
peixes no mar, a vigência da lei da natureza é
comprovada em nossa sociedade humana. No desenho
da CNB do B se depreende, pelo texto explicativo,
que o peixe grande e mau é o capitalista. Mas,
em sua primeira versão, a origem da parábola encontra-se
no diálogo Gorgias de Platão. Nesta, que é uma
das obras mais consideráveis do filósofo grego,
destaca-se a figura de Cállicles, um indivíduo
muito mais inteligente e afetado do que os que
redigiram o folheto acima aludido, e muito mais
autêntico do que o pseudofrei Beto. Cállicles
não argumenta apenas como o retórico Thrasymacchus
que se destaca nos diálogos de A República ao
alegar que a Justiça é a lei do mais forte. Cállicles
medita mais profundamente: “A natureza revela,
penso eu, que o que é mais justo é que aquele
que possua valor maior domine quem menos valha,
e aquele que tenha capacidade superior subjugue
o de menor capacidade.” Em seu debate polêmico
com Sócrates, o sofista, com argumentos cada vez
mais sofisticados, defende a tese que os inferiores
mais numerosos, os “peixinhos”, quando unidos
são mais fortes do que os “superiores”, os quais,
como elite, constituem necessariamente uma minoria.
Foi assim, precisamente, que Marx antecipou a
eventual derrota da burguesia capitalista pelo
imenso proletariado. Acontece que, para se unirem,
os peixinhos têm de ser conduzidos. Eles o foram,
ao tempo do domínio político da Igreja Católica,
pelo clero. No passado recente, nos países que
surgiram da “Revolução” totalitária, os líderes
foram os Jacobinos de 1793, em França; a Vanguarda
do Proletariado (o PC), ao tempo de Lenin e Stalin
na Rússia; os nazistas na Alemanha; os maoístas
na China; Fidel Castro e sua turma em Cuba. O
que os padres da CNB do B pretendem em nosso país,
contrariando aliás as recomendações taxativas
de seu verdadeiro chefe, o papa, é ser os líderes
desses “peixinhos” adolescentes, na atual conjuntura
brasileira. O argumento de Sócrates contra Cállicles
é longo e complexo - e também é o nosso, nele
inspirado. Deixo portanto para um próximo artigo
a continuação do debate contra o malfadado folheto
de frei Beto e seus comparsas.
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