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Jornal da Tarde 5 de abril de 1999
Encontro catequético
O que os padres da BNB do B pretendem em nosso país, contrariando as recomendações de seu verdadeiro chefe, o Papa, é ser líder desses "peixinhos" adolescentes

 
 

Tenho em mãos um folheto que está sendo distribuído aos milhares pelas Igrejas Católicas de Brasília e, suponho, de outras cidades. Publicação da CNB do B, é uma curiosa mistura de verdades, confusões, omissões e distorções da realidade - sendo sua leitura “catequética” para adolescentes perigosa precisamente por isso. A idéia fundamental parece estar contida numa peça, não do papa João Paulo II, chefe da Igreja, mas numa pseudo “Declaração Universal dos Direitos Humanos” de autoria de um cavalheiro identificado como frei Beto (frei de que congregação religiosa, por favor?), o qual da aludida declaração nos oferece uma “versão” dita “popular”. São 19 “direitos”, a maior parte conhecida e universalmente respeitada nas democracias liberais, e apenas dois itens são deveres. Um destes é o de respeitar e proteger os direitos da comunidade; e, o segundo, o de lutar pela conquista e ampliação dos direitos propostos pelo autor do texto, frei Beto. Há também um desenhinho curioso em torno de um peixe, grande forte e mau, que persegue uma porção de peixinhos. Um outro desenho mostra os peixinhos que se revoltam e, todos juntos, perseguem o peixão.

Lembrai-vos que a Igreja Católica é uma comunidade e, no primeiro século de nossa era, seus membros se identificavam como peixinhos, colhidos na rede do grande pescador Simão, mais conhecido pelo pseudônimo de Pedro (kephas, Petros, petra) - o que justificou o trocadilho de Cristo (Mateus 16:18) “és Pedro e sobre essa pedra...”, etc.

A parábola dos peixinhos que são comidos por um peixão é banal. Numa das menos conhecidas peças atribuídas a Shakespeare, Péricles, um personagem se espanta das injustiças da vida e pergunta: Master, I marvel how the fishes live in the sea. Responde o Mestre: Why, as men aland: the great ones eat up the little ones. Se na terra os grandes comem os pequenos, do mesmo modo como fazem os peixes no mar, a vigência da lei da natureza é comprovada em nossa sociedade humana. No desenho da CNB do B se depreende, pelo texto explicativo, que o peixe grande e mau é o capitalista. Mas, em sua primeira versão, a origem da parábola encontra-se no diálogo Gorgias de Platão. Nesta, que é uma das obras mais consideráveis do filósofo grego, destaca-se a figura de Cállicles, um indivíduo muito mais inteligente e afetado do que os que redigiram o folheto acima aludido, e muito mais autêntico do que o pseudofrei Beto. Cállicles não argumenta apenas como o retórico Thrasymacchus que se destaca nos diálogos de A República ao alegar que a Justiça é a lei do mais forte. Cállicles medita mais profundamente: “A natureza revela, penso eu, que o que é mais justo é que aquele que possua valor maior domine quem menos valha, e aquele que tenha capacidade superior subjugue o de menor capacidade.” Em seu debate polêmico com Sócrates, o sofista, com argumentos cada vez mais sofisticados, defende a tese que os inferiores mais numerosos, os “peixinhos”, quando unidos são mais fortes do que os “superiores”, os quais, como elite, constituem necessariamente uma minoria. Foi assim, precisamente, que Marx antecipou a eventual derrota da burguesia capitalista pelo imenso proletariado. Acontece que, para se unirem, os peixinhos têm de ser conduzidos. Eles o foram, ao tempo do domínio político da Igreja Católica, pelo clero. No passado recente, nos países que surgiram da “Revolução” totalitária, os líderes foram os Jacobinos de 1793, em França; a Vanguarda do Proletariado (o PC), ao tempo de Lenin e Stalin na Rússia; os nazistas na Alemanha; os maoístas na China; Fidel Castro e sua turma em Cuba. O que os padres da CNB do B pretendem em nosso país, contrariando aliás as recomendações taxativas de seu verdadeiro chefe, o papa, é ser os líderes desses “peixinhos” adolescentes, na atual conjuntura brasileira. O argumento de Sócrates contra Cállicles é longo e complexo - e também é o nosso, nele inspirado. Deixo portanto para um próximo artigo a continuação do debate contra o malfadado folheto de frei Beto e seus comparsas.