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Considerações sobre a guerra civil espanhola


Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde, 10 de fevereiro de 1999
Morte pelos governos
O número de mortos por violência coletiva em nosso século atinge facilmente 200 milhões

 
 

As ciências sociais raramente se têm associado com a filosofia política e a historiografia para estudar o fenômeno do massacre coletivo, resultante de guerras, revoluções, regimes totalitários e tiranias personalistas. Há um número considerável de livros publicados sobre o Holocausto judaico da IIa Guerra Mundial; sobre a criminalidade no mundo; sobre os males do colonialismo e outros no gênero. O professor R.J. Rummel, cientista político da Universidade de Hawai, se distingue pelo trabalho gigantesco e obsessivo que tem realizado, com a publicação de já quatro livros, sobre os genocídios ou o que ele chama os "democídios" de nossa centúria. Esta, como se sabe, é notória por haver avançado a cultura humana no salto mais espantoso do conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico e econômico, mas também de ser responsável por um morticínio inédito na história da Humanidade. Rummel não está tanto interessado nas mortes em conflitos bélicos que qualificaríamos de "normais" - como os oito milhões de soldados mortos diretamente em combate na Ia Guerra Mundial. Sua pesquisa se dirige ao massacre puro e simples de civis, prisioneiros de guerra, refugiados em trânsito, mortos em campos de concentração e de outros modos eliminados, numa variedade de formas que deixa os diversos torturadores e inquisidores da Idade Média como suaves sadistas em comparação. O número de mortes por violência coletiva em nosso século atinge facilmente 200 milhões. Rummel calcula em 170 milhões apenas os mortos em democídios, excluindo os soldados na guerra. Ele estabelece uma lista dos mega-assassinos que é a seguinte, com as respectivas cifras de sua vítimas (em milhões): URSS (62); China comunista (35) com mais 3,5 no período da guerra civil e guerrilha; Alemanha nazista (21); China nacionalista e período de anarquias militar(11); Japão (6); Cambódia (2); Turquia (1,8); Vietnam (1,7); Polônia (1,6 no episódio da expulsão dos alemães); Paquistão (1,5); Iugoslávia (um milhão) tanto por parte dos Titoístas quanto Croatas e Sérvios; Coréia do Norte (1,6) e México (1,4) no período da Revolução mexicana. Alguns outros episódios foram, infelizmente, esquecidos pelo eminente historiador detetive: os milhões resultantes dos regimes comunistas da Etiópia (Menguistu) e Angola; assim como os milhões resultantes da partilha do sub-continente indiano, inclusive constantes conflitos comunais. Cifras de algumas centenas de milhares de vítimas poderiam também ser registadas em "la violência" na Colombia e nas guerras coloniais da Inglaterra e de Portugal. A tese que as democracias não fazem guerras, nem cometem "democídios" é desmentida pela Guerra da África do Sul (no princípio do século) em que, pela primeira vez, o sistema de campos de concentração foi inventado pelos ingleses. Episódios polêmicos que deixaram seqüelas, como a guerra de independência da Argélia e a atual revolta dos Fundamentalistas (que já causaram mais mortes do que a luta contra os franceses); a Guerra Civil espanhola e várias guerras tribais na África não possuem tampouco dados exatos de perdas e genocídios. Sempre em tais estudos é difícil evitar parcialidades, preconceitos ideológicos, silêncios deliberados e muita hipocrisia. É evidente que os Aliados cometeram democídios durante a 2ª Guerra Mundial, e também causaram perdas terríveis em sua tentativa de contenção do comunismo na Coréia e no Vietnam. Menciono esses últimos casos porque me parece uma escandalosa hipocrisia o governo inglês deter agora o general Pinochet, por haver eliminado três mil comunistas, quando foi responsável por centenas de milhares de mortes em seu próprio esforço de resistência ao totalitarismo no período da Guerra Fria.