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As ciências sociais raramente se têm associado
com a filosofia política e a historiografia para
estudar o fenômeno do massacre coletivo, resultante
de guerras, revoluções, regimes totalitários e
tiranias personalistas. Há um número considerável
de livros publicados sobre o Holocausto judaico
da IIa Guerra Mundial; sobre a criminalidade no
mundo; sobre os males do colonialismo e outros
no gênero. O professor R.J. Rummel, cientista
político da Universidade de Hawai, se distingue
pelo trabalho gigantesco e obsessivo que tem realizado,
com a publicação de já quatro livros, sobre os
genocídios ou o que ele chama os "democídios"
de nossa centúria. Esta, como se sabe, é notória
por haver avançado a cultura humana no salto mais
espantoso do conhecimento científico e desenvolvimento
tecnológico e econômico, mas também de ser responsável
por um morticínio inédito na história da Humanidade.
Rummel não está tanto interessado nas mortes em
conflitos bélicos que qualificaríamos de "normais"
- como os oito milhões de soldados mortos diretamente
em combate na Ia Guerra Mundial. Sua pesquisa
se dirige ao massacre puro e simples de civis,
prisioneiros de guerra, refugiados em trânsito,
mortos em campos de concentração e de outros modos
eliminados, numa variedade de formas que deixa
os diversos torturadores e inquisidores da Idade
Média como suaves sadistas em comparação. O número
de mortes por violência coletiva em nosso século
atinge facilmente 200 milhões. Rummel calcula
em 170 milhões apenas os mortos em democídios,
excluindo os soldados na guerra. Ele estabelece
uma lista dos mega-assassinos que é a seguinte,
com as respectivas cifras de sua vítimas (em milhões):
URSS (62); China comunista (35) com mais 3,5 no
período da guerra civil e guerrilha; Alemanha
nazista (21); China nacionalista e período de
anarquias militar(11); Japão (6); Cambódia (2);
Turquia (1,8); Vietnam (1,7); Polônia (1,6 no
episódio da expulsão dos alemães); Paquistão (1,5);
Iugoslávia (um milhão) tanto por parte dos Titoístas
quanto Croatas e Sérvios; Coréia do Norte (1,6)
e México (1,4) no período da Revolução mexicana.
Alguns outros episódios foram, infelizmente, esquecidos
pelo eminente historiador detetive: os milhões
resultantes dos regimes comunistas da Etiópia
(Menguistu) e Angola; assim como os milhões resultantes
da partilha do sub-continente indiano, inclusive
constantes conflitos comunais. Cifras de algumas
centenas de milhares de vítimas poderiam também
ser registadas em "la violência" na
Colombia e nas guerras coloniais da Inglaterra
e de Portugal. A tese que as democracias não fazem
guerras, nem cometem "democídios" é
desmentida pela Guerra da África do Sul (no princípio
do século) em que, pela primeira vez, o sistema
de campos de concentração foi inventado pelos
ingleses. Episódios polêmicos que deixaram seqüelas,
como a guerra de independência da Argélia e a
atual revolta dos Fundamentalistas (que já causaram
mais mortes do que a luta contra os franceses);
a Guerra Civil espanhola e várias guerras tribais
na África não possuem tampouco dados exatos de
perdas e genocídios. Sempre em tais estudos é
difícil evitar parcialidades, preconceitos ideológicos,
silêncios deliberados e muita hipocrisia. É evidente
que os Aliados cometeram democídios durante a
2ª Guerra Mundial, e também causaram perdas terríveis
em sua tentativa de contenção do comunismo na
Coréia e no Vietnam. Menciono esses últimos casos
porque me parece uma escandalosa hipocrisia o
governo inglês deter agora o general Pinochet,
por haver eliminado três mil comunistas, quando
foi responsável por centenas de milhares de mortes
em seu próprio esforço de resistência ao totalitarismo
no período da Guerra Fria.
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