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A Humanidade ocidental possui um apreço especial
pela cifra de mil anos, provavelmente oriundo
das referências ao milênio no capítulo 20 do Apocalipse
ou Livro das Revelações, atribuído a São João
Evangelista. O Milenarismo ou Quiliasmo é um mito
ambivalente. O Apocaliptismo anuncia desastres
cósmicos e o domínio de Lúcifer, juntamente com
a esperança da vinda do reino de Cristo, o qual
reinará por mil anos antes do Fim do Mundo. No
século XII, o monge calabrês Joaquim de Fiore
ou Floris, místico, profeta e herege, elaborou
uma doutrina da Terceira Idade do Espírito (Santo)
que teve enorme influência sobre as ideologias
modernas, de Hegel ao Marxismo, Nazismo e Terceiro-mundismo,
conforme estudos profundos realizados por Karl
Löwith (Meaning in History) e Eric Voegelin
(“A Nova Ciência da Política”). Entre outra aberrações
milenaristas surgiram a Terceira Internacional,
o Terceiro Reich, a Terceira Roma, o Terceiro
Mundo e a atual Terceira Via. Acontece que tais
expectativas se limitam, claramente, ao mundo
cristão. A idéia de Milênio é essencialmente ocidental
e nada significa para os orientais. Se, por motivos
práticos, a era cristã foi adotada num mundo que
se globaliza, é evidente que, para um chinês (com
seu ano do coelho), um japonês da era Showá, um
muçulmano com seu ano 1420 da Hegira, um indiano
e mesmo um judeu ortodoxo (para o qual estamos
no ano 5760 a partir da Gênese), a próxima virada
de século e milênio representa apenas uma contagem
prática do calendário europeu, adotado no mesmo
estilo que o sistema decimal, o uso do alfabeto
latino ou a medição da temperatura em centígrados,
sem qualquer conteúdo místico ou utópico, positivo
ou negativo.
Os arquétipos cristão continuam, no entanto,
a agir nas profundezes do Inconsciente Coletivo
ocidental, o que explicaria a pletora de livros
e artigos de cunho milenarista que estão aparecendo
em número crescente, junto com vaticínios, oráculos,
profecias e previsões que nos vão inundar de tolices.
Aproveitado pelo marketing, o besteirol aliás
já começou. O apocalipse dos computadores vulgarmente
conhecido como Y2K só vai perturbar algumas contas
bancárias. Mas já li que os terremotos da Turquia
e Taiwan, as inundações na Europa e Américas,
e mesmo a extensão da violência criminal seriam
sinais precursores do Fim do Mundo que cartomantes,
haríolos e adivinhos à procura de clientela vão
promover, com abundante suporte da imprensa escandalosa.
De qualquer forma, pessoas de sólida formação
religiosa ou científica, sem que sejam necessariamente
discípulos de Sto Agostinho, saberão perfeitamente
condenar, em seus devidos termos, as superstições
idiotas que vão ser alimentadas e divulgadas a
partir do próximo 31 de dezembro. Menos sério,
porém igualmente tedioso, será o indefectível
debate que vai surgir, a respeito da data exata
em que começa o século XXI e o Terceiro Milênio.
Para quem desejar se enfronhar na questão, com
comentários críticos sábios e divertidos, recomendo
a leitura do livrinho “Questioning the Millenium”
(Nova York, Random House, 1997), do conhecido
biólogo de Harvard e divulgador científico Stephen
Jay Gould. A obra possui a vantagem adicional
de ser de autor judeu confessadamente racionalista.
Também notável por haver sugerido uma teoria que
modifica substancialmente o evolucionismo darwiniano
oficial, Gould explica o caráter meramente convencional
dos calendários e aponta para o fato que o monge
do século sexto Dionysius Exiguus, autor de nosso
calendário e também astrônomo e matemático porém
sustentado em conhecimentos relativamente exíguos,
determinou erradamente a data do nascimento de
Cristo na base do calendário romano então em vigor.
Pior ainda, o desconhecimento na sua época do
conceito do número 0, só introduzido posteriormente
pelos árabes, fez com que designasse o período
entre o suposto ano de nascimento de Jesus e A.D.
99 como século primeiro. A decalagem daí prosseguiu.
Nosso século vinte, que deveria logicamente ser
inaugurado no ano 2000, passou a designar a centúria
que agora termina. Tudo questão de convenção.
Não se afobem com o Fim do Mundo.
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