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Jornal da Tarde 13 de dezembro de 1999
Novo século, novo milênio
Pessoas de sólida formação religiosa ou científica saberão condenar as supertições idiotas que serão divulgadas a partir de 31 de dezembro

 
 

A Humanidade ocidental possui um apreço especial pela cifra de mil anos, provavelmente oriundo das referências ao milênio no capítulo 20 do Apocalipse ou Livro das Revelações, atribuído a São João Evangelista. O Milenarismo ou Quiliasmo é um mito ambivalente. O Apocaliptismo anuncia desastres cósmicos e o domínio de Lúcifer, juntamente com a esperança da vinda do reino de Cristo, o qual reinará por mil anos antes do Fim do Mundo. No século XII, o monge calabrês Joaquim de Fiore ou Floris, místico, profeta e herege, elaborou uma doutrina da Terceira Idade do Espírito (Santo) que teve enorme influência sobre as ideologias modernas, de Hegel ao Marxismo, Nazismo e Terceiro-mundismo, conforme estudos profundos realizados por Karl Löwith (Meaning in History) e Eric Voegelin (“A Nova Ciência da Política”). Entre outra aberrações milenaristas surgiram a Terceira Internacional, o Terceiro Reich, a Terceira Roma, o Terceiro Mundo e a atual Terceira Via. Acontece que tais expectativas se limitam, claramente, ao mundo cristão. A idéia de Milênio é essencialmente ocidental e nada significa para os orientais. Se, por motivos práticos, a era cristã foi adotada num mundo que se globaliza, é evidente que, para um chinês (com seu ano do coelho), um japonês da era Showá, um muçulmano com seu ano 1420 da Hegira, um indiano e mesmo um judeu ortodoxo (para o qual estamos no ano 5760 a partir da Gênese), a próxima virada de século e milênio representa apenas uma contagem prática do calendário europeu, adotado no mesmo estilo que o sistema decimal, o uso do alfabeto latino ou a medição da temperatura em centígrados, sem qualquer conteúdo místico ou utópico, positivo ou negativo.

Os arquétipos cristão continuam, no entanto, a agir nas profundezes do Inconsciente Coletivo ocidental, o que explicaria a pletora de livros e artigos de cunho milenarista que estão aparecendo em número crescente, junto com vaticínios, oráculos, profecias e previsões que nos vão inundar de tolices. Aproveitado pelo marketing, o besteirol aliás já começou. O apocalipse dos computadores vulgarmente conhecido como Y2K só vai perturbar algumas contas bancárias. Mas já li que os terremotos da Turquia e Taiwan, as inundações na Europa e Américas, e mesmo a extensão da violência criminal seriam sinais precursores do Fim do Mundo que cartomantes, haríolos e adivinhos à procura de clientela vão promover, com abundante suporte da imprensa escandalosa. De qualquer forma, pessoas de sólida formação religiosa ou científica, sem que sejam necessariamente discípulos de Sto Agostinho, saberão perfeitamente condenar, em seus devidos termos, as superstições idiotas que vão ser alimentadas e divulgadas a partir do próximo 31 de dezembro. Menos sério, porém igualmente tedioso, será o indefectível debate que vai surgir, a respeito da data exata em que começa o século XXI e o Terceiro Milênio. Para quem desejar se enfronhar na questão, com comentários críticos sábios e divertidos, recomendo a leitura do livrinho “Questioning the Millenium” (Nova York, Random House, 1997), do conhecido biólogo de Harvard e divulgador científico Stephen Jay Gould. A obra possui a vantagem adicional de ser de autor judeu confessadamente racionalista. Também notável por haver sugerido uma teoria que modifica substancialmente o evolucionismo darwiniano oficial, Gould explica o caráter meramente convencional dos calendários e aponta para o fato que o monge do século sexto Dionysius Exiguus, autor de nosso calendário e também astrônomo e matemático porém sustentado em conhecimentos relativamente exíguos, determinou erradamente a data do nascimento de Cristo na base do calendário romano então em vigor. Pior ainda, o desconhecimento na sua época do conceito do número 0, só introduzido posteriormente pelos árabes, fez com que designasse o período entre o suposto ano de nascimento de Jesus e A.D. 99 como século primeiro. A decalagem daí prosseguiu. Nosso século vinte, que deveria logicamente ser inaugurado no ano 2000, passou a designar a centúria que agora termina. Tudo questão de convenção. Não se afobem com o Fim do Mundo.