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A fecundidade de João de Scantimburgo é extraordinária.
Mais um livro de sua autoria nos é oferecido sob
o título de O Mal na História (Edit. LTR
São Paulo). Na base filosófica e teológica de
seu argumento, o autor se sustenta em Gênese 3:5
onde é dito que, tentados pela serpente, Adão
e Eva comeram da fruta proibida que lhes prometia:
“Sereis como Deus, conhecendo o Bem e o Mal”.
O mal é pois inerente à natureza humana e à liberdade
que possuímos de escolha ética - o que é confirmado
pelo próprio Sto Agostinho que nos lembra: “Deseja
Deus vos fazer Deus”. Certas correntes heréticas,
oriundas principalmente do Maniqueísmo pelo qual
foi Agostinho tentado na mocidade, têm pretendido
atribuir a uma entidade exterior ao homem a origem
do Mal mas, no outro extremo, Sto Agostinho e
Sto Tomás alegaram que o Mal deve ser definido
como uma simples ausência do Bem - privatio
boni. Conquanto Platão se abstenha de propor
exatamente essa hipótese, é da idéia do Mal como
simples produto da ignorância que ela transitou
para a Patrística. Scantimburgo cita o “Protágoras”
onde Sócrates afirma que “todos os sábios sabem
perfeitamente, que todos quanto fazem coisas horrendas
e más o fazem mal grado eles próprios”. Entretanto,
não me parece fácil aceitá-la. Um judeu sendo
conduzido à câmara de gás de Auschwitz certamente
não terá encontrado consolo se lhe disseram que
o carrasco nazista estava desprovido de bondade.
Nem outra pessoa, morrendo de câncer, terá alívio
com a tese que seu mal não passa de ausência de
saúde. Com todo o respeito e veneração que possuo
pelos autores citados, sinto enorme resistência
em me alinhar com essa espécie de lavagem metafísica
da perversidade. Ora, implícita na história está
a opinião pessimista de Edward Gibbon ao descrevê-la
como “na verdade, pouco mais do que o registro
dos crimes, loucuras e desgraças da humanidade”.
Das citações que faz o autor de “O Mal na História”
- de Kant, Kierkegaard, Dostoievsky e outras sumidades
do pensamento moderno - emerge a convicção que
Scantimburgo, como eles, admite a existência de
um mal absoluto, um mal metafísico, um mal essencial,
agarrado como um vampiro não só à História, mas
à própria existência humana - eis que é o preço
da liberdade que nos concedeu a divindade ao atribuir
a Eva e Adão uma consciência ética.
O precioso capítulo 3 da obra constitui uma longa
e bem documentada jornada no território daquilo
que os teólogos de antanho reconheciam como o
“mistério da iniquidade” - mistério precisamente
que o homem não pode explorar sem perigosamente
penetrar na problemática da Teodicéia - tentando
inutilmente reconciliar a presença do Mal no mundo
com a existência de um Deus que, simultaneamente,
é bom e onipotente. Além de Romano Guardini e
de Jean, cardeal Danielou, ilustres pensadores
católicos que se debruçaram sobre o “mistério
da história”, valeria também lembrar, entre nós,
Gustavo Corção. Este (também citado pelo Autor)
reconhece o mistério quando se pergunta, aparentemente
atônito, “Por que o Mal? Por que o consentimento
dos deuses? Por que é este castigado e aquele
não? Por que isto? Por que aquilo? A consciência
boquiaberta do homem desde sempre exprime seu
pasmo diante do espetáculo”...
Scantimburgo termina sua obra com um longo capítulo
sobre os Totalitarismos do século XX. Foram eles,
com efeito, que, ao carregarem à sua máxima expressão
o que Hannah Arendt chamou a “banalidade do mal”,
trouxeram de volta à consciência histórica o imperativo
de examinar a problemática das barbaridades que
o autor tão eloquentemente denúncia. Pois são
estas as eternas questões que dirigimos ao
Deus Absconditus. Recusamo-nos a reconhecer
que, conforme nos ensina o Evangelho de Marcos
(7:20 a 23), é de dentro do coração dos homens
que saem as intenções malignas... e são elas que
o tornam impuro”. O Mal está em nós e é de nós
que surgem todos os demônios.
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