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Jornal da Tarde, 3 de maio de 1999
O mal da história
Os totalitarismos do século XX trouxeram de volta à consciência histórica o imperativo de examinar a problemática do Mal

 
 

A fecundidade de João de Scantimburgo é extraordinária. Mais um livro de sua autoria nos é oferecido sob o título de O Mal na História (Edit. LTR São Paulo). Na base filosófica e teológica de seu argumento, o autor se sustenta em Gênese 3:5 onde é dito que, tentados pela serpente, Adão e Eva comeram da fruta proibida que lhes prometia: “Sereis como Deus, conhecendo o Bem e o Mal”. O mal é pois inerente à natureza humana e à liberdade que possuímos de escolha ética - o que é confirmado pelo próprio Sto Agostinho que nos lembra: “Deseja Deus vos fazer Deus”. Certas correntes heréticas, oriundas principalmente do Maniqueísmo pelo qual foi Agostinho tentado na mocidade, têm pretendido atribuir a uma entidade exterior ao homem a origem do Mal mas, no outro extremo, Sto Agostinho e Sto Tomás alegaram que o Mal deve ser definido como uma simples ausência do Bem - privatio boni. Conquanto Platão se abstenha de propor exatamente essa hipótese, é da idéia do Mal como simples produto da ignorância que ela transitou para a Patrística. Scantimburgo cita o “Protágoras” onde Sócrates afirma que “todos os sábios sabem perfeitamente, que todos quanto fazem coisas horrendas e más o fazem mal grado eles próprios”. Entretanto, não me parece fácil aceitá-la. Um judeu sendo conduzido à câmara de gás de Auschwitz certamente não terá encontrado consolo se lhe disseram que o carrasco nazista estava desprovido de bondade. Nem outra pessoa, morrendo de câncer, terá alívio com a tese que seu mal não passa de ausência de saúde. Com todo o respeito e veneração que possuo pelos autores citados, sinto enorme resistência em me alinhar com essa espécie de lavagem metafísica da perversidade. Ora, implícita na história está a opinião pessimista de Edward Gibbon ao descrevê-la como “na verdade, pouco mais do que o registro dos crimes, loucuras e desgraças da humanidade”. Das citações que faz o autor de “O Mal na História” - de Kant, Kierkegaard, Dostoievsky e outras sumidades do pensamento moderno - emerge a convicção que Scantimburgo, como eles, admite a existência de um mal absoluto, um mal metafísico, um mal essencial, agarrado como um vampiro não só à História, mas à própria existência humana - eis que é o preço da liberdade que nos concedeu a divindade ao atribuir a Eva e Adão uma consciência ética.

O precioso capítulo 3 da obra constitui uma longa e bem documentada jornada no território daquilo que os teólogos de antanho reconheciam como o “mistério da iniquidade” - mistério precisamente que o homem não pode explorar sem perigosamente penetrar na problemática da Teodicéia - tentando inutilmente reconciliar a presença do Mal no mundo com a existência de um Deus que, simultaneamente, é bom e onipotente. Além de Romano Guardini e de Jean, cardeal Danielou, ilustres pensadores católicos que se debruçaram sobre o “mistério da história”, valeria também lembrar, entre nós, Gustavo Corção. Este (também citado pelo Autor) reconhece o mistério quando se pergunta, aparentemente atônito, “Por que o Mal? Por que o consentimento dos deuses? Por que é este castigado e aquele não? Por que isto? Por que aquilo? A consciência boquiaberta do homem desde sempre exprime seu pasmo diante do espetáculo”...

Scantimburgo termina sua obra com um longo capítulo sobre os Totalitarismos do século XX. Foram eles, com efeito, que, ao carregarem à sua máxima expressão o que Hannah Arendt chamou a “banalidade do mal”, trouxeram de volta à consciência histórica o imperativo de examinar a problemática das barbaridades que o autor tão eloquentemente denúncia. Pois são estas as eternas questões que dirigimos ao Deus Absconditus. Recusamo-nos a reconhecer que, conforme nos ensina o Evangelho de Marcos (7:20 a 23), é de dentro do coração dos homens que saem as intenções malignas... e são elas que o tornam impuro”. O Mal está em nós e é de nós que surgem todos os demônios.