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Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde, 20 de setembro de 1999
O grito de um incluído

 
 
A CNB do B deu um “grito dos excluídos” dia sete passado. Entretanto, como a aludida entidade fala numa parceria ampla de “todas as forças vivas da sociedade”, incluindo portanto os incluídos, entre os quais me coloco por pertencer à classe privilegiada que vive à custa do Estado, valho-me da ocasião para atender à sugestão de refletir sobre o problema. Ora, encontrei no arrazoado da prelazia uma série considerável de falsidades, incoerências, exclamações românticas, apelos espúrios de quem direito algum possui de representar o país e, sobretudo, ignorância da palavra de seu superior hierárquico, João Paulo II. Para começar, tanto quanto posso imaginar, possuem os bispos casa, comida, serviçais, automóveis e, além de sua renda normal, recebem recursos consideráveis de entidades religiosas e leigas alemãs cujos membros assim pretendem abrandar os próprios sentimentos de culpa pelas barbaridades cometidas há pouco mais de meio século. Ao denunciarem os “erros e crimes do modelo excludente”, eles não esclarecem qual é o modelo que pretendem implantar. Sejamos específicos. Não é verdadeira, terminantemente, “a constatação (de) que grande parte da população brasileira e de todos os países do continente latino-americano vêm sendo cada vez excluída dos benefícios do desenvolvimento tecnológico e econômico”. Uma boa maneira de descobrir o erro em que incidem os prelados gritalhões nos é oferecida por uma recente proclamação dos seus colegas chilenos, reclamando pela “exclusão” dos pobres de seu país cuja percentagem era de 23%, em 1972, e subiu hoje para 28%. Acontece que o Chile é um dos países mais prósperos da América Latina e, provavelmente, encabeçará sua entrada no Primeiro Mundo. Isso, graças à ação benemérita do general Pinochet que preveniu a queda do Chile nas mãos dos comunistas; preparou-o para a democracia estável de que hoje desfruta; e adotou a receita liberal dos “Chicago boys”, graças à qual os índices de crescimento do PIB foram os mais altos da região. Ignorantes de economia, como de quase tudo aliás, salvo marxismo, alegam os bispos que aqueles dados provam que a população “empobreceu”, ou seja, mais 5% foram “excluídos” dos benefícios da prosperidade chilena. Acontece, porém, que nos últimos trinta anos o PIB chileno triplicou. Passou de pouco mais de 50 bilhões para quase US$150 bilhões, numa população de 15 milhões que pouco aumenta. Um simples cálculo levará à conclusão que, muito embora tenha crescido a percentagem da parte mais pobre da nação (de 23% para 28%), sua renda total subiu de aproximadamente 12 bilhões, em 1972, para cerca de 42 bilhões agora. Não houve, portanto, “empobrecimento” mas sensível crescimento de sua renda média. O tipo de raciocínio defeituoso que levou a intelectuária de Esquerda a alegar que “os pobres ficaram mais pobres e os ricos mais ricos” após o “milagre brasileiro” dos anos 70, os induz hoje a proclamar, aos gritos, que o número de “excluídos” cresce quando, na realidade, o contrário acontece. Uma lei muito simples de economia, já percebida por Alexis de Tocqueville em 1840, demonstra que, em toda economia próspera, as desigualdades inicialmente se destacam porque os setores mais ricos são os primeiros a se locupletar, carregando atrás de si os mais modestos, em benefício dos quais a riqueza, filtrando-se por toda parte, demora mais tempo a alcançar - embora, ao final, todas as classes saiam favorecidas. Em todo caso, como tem sido ampla e empiricamente demonstrado no Primeiro Mundo, é a democracia liberal e a economia de mercado capitalista que proporciona esse proveito. Foi João Paulo II que, no §46 da Centesimus Annus, condena “a usurpação do poder do Estado por grupos de interesses ideológicos”; previne contra “o fanatismo” desse “fundamentalismo ideológico” que nos quer impor “seu próprio conceito do que é verdadeiro e bom”- ao mesmo tempo do que, no §48, aconselha a economia de mercado, “a liberdade individual e propriedade privada”, assim como “uma moeda estável”. Por que nossos bispos, ao invés de gastarem suas cordas vocais com gritos inúteis, não lêm as Encíclicas de seu chefe máximo, o Papa?