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Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde, 17 de maio de 1999
Reflexões sobre a guerra ioguslava
Só um regime de mercado liberal poderá amalgamar interesses tão esclerosados quanto os da Iugoslávia

 
 

No período que servi na Turquia, ao final da IIª Guerra Mundial, tornei-me amigo da família do embaixador da Iugoslávia, Choumenkovitch, e no convívio fui instruído sobre as glórias passadas de sua pátria e os conflitos que a atormentavam. Na época, o problema era os croatas que apoiavam o Eixo e cujos guerrilheiros, os ustachi, massacravam a população sérvia, e a conjuntura na própria Sérvia onde os partidários do general Mihailovitch, monarquista e nacionalista sérvio, enfrentavam os partidários de Tito, croata e comunista, sendo acusados de pactuarem com o inimigo. Churchill optou por Tito. Isso permitiu ao líder comunista ocupar todo o país, em 1944, antes do Exército Vermelho, evitando a transformação da Iugolávia em mais um satélite da URSS. A forte personalidade de Tito é o que permitiu a essa coletânea de nacionalidades mutuamente hostís que os Aliados, em 1919, haviam organizado, sobreviver aos choques da Guerra Fria. Com a morte do ditador carismático, o país artificial desintegrou-se. Os pormenores do que ocorreu são relatados na obra Fall of the New Class,a Queda da Nova Classe, cujo autor, Milovan Djilas, fora um dos mais fieis companheiro de Tito. Djilas é importante porque, tendo sido inicialmente estalinista, tornou-se o principal crítico do regime e criou a expressão “Nova Classe” que define a verdadeira índole do sistema patrimonialista herdado pelo atual ditador Slobodan Milosevich. O projeto utópico de auto-gestão operária - pelo qual alguns padres, tolos e ingênuos se entusiasmaram, transformou-se na realidade de uma nova oligarquia de burocratas, hoje donos das empresas num regime de pseudo-capitalismo de Estado. O Senhor Milosevitch e sua família integram hoje o mais rico empresariado do país mas, para sustentar-se, a Nova Classe requer a presença de uma ideologia coletivista que, na falta do comunismo, o nacionalismo etnocêntrico serviu para legitimar. A tragédia da Iugoslávia assim se explica.

Por força de sua tardia inclusão histórica no Ocidente europeu, os países balcânicos, independizados do Império otomano no século passado, não conseguiram integrar-se satisfatoriamente como Estados homogênicos, obedientes ao Princípio das Nacinalidades. O resultado foi a presença conflituosa de “minorias” rebeldes que todo o esforço político deste século sanguinário, inclusive em duas guerras mundiais, não conseguiu superar: húngaros, croatas, romenos, sérvios, búlgaros, gregos e todos estes contra encraves de muçulmanos (bósnios e albaneses) isolados e abandonados quando do recúo otomano. O termo “balcanização” adquiriu, por isso, o sentido pejorativo de fragmentação étnica e convivência problemática. O conflito mais grave foi entre croatas e eslovenos, católicos ocidentalizados, e os sérvios, ortodoxos orientalizados, com mania de grandeza. As memórias históricas são obstinadas. Na província de Kôssovo, vingam-se os sérvios, sobre a população albanesa local, da dupla derrota sofrida dos turcos em 1389 e 1448. A Macedônia deu mesmo à “macedônia de frutas” um nome apropriado para a mistura. A intervenção da OTAN explica-se pelo desejo de impor finalmente, a esse recanto obsoleto do continente, um regime democrático capaz de superar os ódios e ressentimentos seculares e cntagiosos- ódios étnicos, linguísticos, religiosos e sociais que se traduzem em genocídios, “limpezas étnicas” e horrendas atrocidades. É evidente que só um regime de mercado liberal poderá amalgamar interesses tão esclerozados e estratificações patrimonialistas tão tenazes Em que pesem as confusões políticas e estratégicas da OTAN - cujos propósitos nos enchem de perplexidade numa iniciativa inédita, o ponto a meu ver fundamental é o seguinte: pela primeira vez, sem interesse material imediato, as 19 nações mais adiantadas do Ocidente se atrevem a uma operação de polícia, de motivação moral ambígua, confirmando a missão dos EUA de gendarme do planeta e, com isso, despertando o anti-americanismo larvado do resto do mundo. A pressão da opinião pública é o que justificaria a aventura.