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No período que servi na Turquia, ao final da
IIª Guerra Mundial, tornei-me amigo da família
do embaixador da Iugoslávia, Choumenkovitch, e
no convívio fui instruído sobre as glórias passadas
de sua pátria e os conflitos que a atormentavam.
Na época, o problema era os croatas que apoiavam
o Eixo e cujos guerrilheiros, os ustachi,
massacravam a população sérvia, e a conjuntura
na própria Sérvia onde os partidários do general
Mihailovitch, monarquista e nacionalista sérvio,
enfrentavam os partidários de Tito, croata e comunista,
sendo acusados de pactuarem com o inimigo. Churchill
optou por Tito. Isso permitiu ao líder comunista
ocupar todo o país, em 1944, antes do Exército
Vermelho, evitando a transformação da Iugolávia
em mais um satélite da URSS. A forte personalidade
de Tito é o que permitiu a essa coletânea de nacionalidades
mutuamente hostís que os Aliados, em 1919, haviam
organizado, sobreviver aos choques da Guerra Fria.
Com a morte do ditador carismático, o país artificial
desintegrou-se. Os pormenores do que ocorreu são
relatados na obra Fall of the New Class,a
Queda da Nova Classe, cujo autor, Milovan Djilas,
fora um dos mais fieis companheiro de Tito. Djilas
é importante porque, tendo sido inicialmente estalinista,
tornou-se o principal crítico do regime e criou
a expressão “Nova Classe” que define a verdadeira
índole do sistema patrimonialista herdado pelo
atual ditador Slobodan Milosevich. O projeto utópico
de auto-gestão operária - pelo qual alguns padres,
tolos e ingênuos se entusiasmaram, transformou-se
na realidade de uma nova oligarquia de burocratas,
hoje donos das empresas num regime de pseudo-capitalismo
de Estado. O Senhor Milosevitch e sua família
integram hoje o mais rico empresariado do país
mas, para sustentar-se, a Nova Classe requer a
presença de uma ideologia coletivista que, na
falta do comunismo, o nacionalismo etnocêntrico
serviu para legitimar. A tragédia da Iugoslávia
assim se explica.
Por força de sua tardia inclusão histórica no
Ocidente europeu, os países balcânicos, independizados
do Império otomano no século passado, não conseguiram
integrar-se satisfatoriamente como Estados homogênicos,
obedientes ao Princípio das Nacinalidades. O resultado
foi a presença conflituosa de “minorias” rebeldes
que todo o esforço político deste século sanguinário,
inclusive em duas guerras mundiais, não conseguiu
superar: húngaros, croatas, romenos, sérvios,
búlgaros, gregos e todos estes contra encraves
de muçulmanos (bósnios e albaneses) isolados e
abandonados quando do recúo otomano. O termo “balcanização”
adquiriu, por isso, o sentido pejorativo de fragmentação
étnica e convivência problemática. O conflito
mais grave foi entre croatas e eslovenos, católicos
ocidentalizados, e os sérvios, ortodoxos orientalizados,
com mania de grandeza. As memórias históricas
são obstinadas. Na província de Kôssovo, vingam-se
os sérvios, sobre a população albanesa local,
da dupla derrota sofrida dos turcos em 1389 e
1448. A Macedônia deu mesmo à “macedônia de frutas”
um nome apropriado para a mistura. A intervenção
da OTAN explica-se pelo desejo de impor finalmente,
a esse recanto obsoleto do continente, um regime
democrático capaz de superar os ódios e ressentimentos
seculares e cntagiosos- ódios étnicos, linguísticos,
religiosos e sociais que se traduzem em genocídios,
“limpezas étnicas” e horrendas atrocidades. É
evidente que só um regime de mercado liberal poderá
amalgamar interesses tão esclerozados e estratificações
patrimonialistas tão tenazes Em que pesem as confusões
políticas e estratégicas da OTAN - cujos propósitos
nos enchem de perplexidade numa iniciativa inédita,
o ponto a meu ver fundamental é o seguinte: pela
primeira vez, sem interesse material imediato,
as 19 nações mais adiantadas do Ocidente se atrevem
a uma operação de polícia, de motivação moral
ambígua, confirmando a missão dos EUA de gendarme
do planeta e, com isso, despertando o anti-americanismo
larvado do resto do mundo. A pressão da opinião
pública é o que justificaria a aventura.
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