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Há alguns anos escrevi um artigo, sob este mesmo
tema, sugerindo uma maneira de se empreender um
tratamento sintomático do sub-desenvolvimento.
Há certos traços universais de comportamento popular
corriqueiro que nos permitem aquilatar imediatamente
se qualquer cidade ou país é do Primeiro ou do
Terceiro Mundo. Vejam sete exemplos:
1) Falta de respeito pelas passagens de pedestres
(zebras) nas ruas de grande movimento. Nos países
do 3º Mundo o automóvel é ainda um sinal de status,
como o cavalo da antiga nobreza. Na hierarquia
do subdesenvolvimento, o pedestre é um ser desprezível
que pode, impunemente, ser atropelado quando atravessa
a rua. 2) Correlato desse comportamento, surge
o alto índice de acidentes de tráfego. Temos a
triste honra de registrarmos um record mundial
nesse particular, não obstante o recente Código
de Trânsito. 3) Vandalismo nos bens públicos,
"orelhões", bancos de jardim, poltronas
de cinema, assentos de ônibus, sinais de trânsito
etc. O direito de propriedade é pouco respeitado,
quer seja público, quer privado. 4) Sujeira nos
lavatórios públicos. A limpeza vai melhorando
à medida que nos encaminhamos para o Sul do país.
A linha divisória, entre "os dois Brasís"
de que falava Jacques Lambert, passa por S. Paulo.
O triunfo do Sujismundo nas ruas e outras áreas
coletivas corresponde, nos trópicos, à limpeza
dos corpos, ao contrário do que ocorre na Europa
onde o hábito do banho foi, outrora, coibido pelo
puritanismo cristão. 5) A ausência comum de troco
nas pequenas transações é sinal de falta de previdência
ou, comumente, da presença de inflação. Ninguém
pensa a longo-prazo. Raros são os previdentes
e, por conseguinte, reduzida a poupança. A dificuldade
no câmbio é outro indicio de economia primitiva.
Nos países de moeda "séria" ou conversível,
o câmbio é uma operação banal de cambista, sem
qualquer intervenção burocrática. Em áreas atrasadas
que só produzem latifundiários, pobres, padres,
mafiosos, políticos e mães prolíficas, o câmbio
de moeda é acompanhado de muito palavreado, de
papelada, assinaturas, conversa fiada e cantoria.
6) A descortesia no atendimento em repartição
pública, vigorante nos países sub-desenvolvidos,
revela a burocracia como uma classe patrimonialista
arrogante, preguiçosa e inepta que considera os
cidadãos privados, contribuintes, como o proletariado
a ser explorado. As filas intermináveis diante
dos guichês são um indicador poderoso da existência
da antiquíssima Nova Classe patrimonialista...
7) A ausência de informação pública, como por
exemplo sinais de trânsito ou indicações de destinação
nas avenidas e estradas, é muito característico.
Quando viajamos na América do Norte e Europa ocidental,
só precisamos de um simples mapa, sem nos perder
ou indagar o caminho a nativos desconhecidos.
Ao sul dos Alpes, dos Pirineus ou do Rio Grande
do Texas, muda a situação: Você sempre corre o
risco de extraviar-se. Na Ilha da Fantasia que
é a capital do país e cidade de intensa imigração,
só se vislumbram endereços ou indicações precárias
ou herméticas sobre ruas, avenidas, bairros e
logradouros públicos importantes. O fenômeno é
um indício grave do pouco apreço que dedicamos
à Informação e ao conhecimento em geral
A democracia liberal moderna é aquela que distribui
igualmente pela população os serviços e informações
que todo cidadão tem o direito de obter e o dever
de respeitar. Ora, como se pode obedecer às leis
e regulamentos quando eles existem aos milhares,
podem “não pegar”, são confusos, contraditórios,
incoerentes e deliberadamente mal redigidos para
favorecer grupos corporativos interessado? Civismo
de parte da cidadania e eficiência de parte do
governo é o que se pede... A observação conclusiva
é que, nos países do Terceiro Mundo os indivíduos
podem ser muito espertos e inteligentes, a coletividade
é invariavelmente burra. Povo pobre é povo burro,
dizia o admirável aforismo de Gilberto Amado.
O que distingue o Terceiro Mundo do Primeiro é
que ele não passou pela Idade da Razão. Não foi
influenciado por Descartes que salientava a clareza
e a precisão como Métodos para Bem Conduzir o
Pensamento. No Terceiro Mundo a gente não gosta
de pensar. Menos ainda pensar racional e praticamente
sobre a relação de causa e efeito. O conhecimento
e a informação são deixados a uma pequena minoria
de "intelectuais" que o monopolizam
para, com isso, adquirir poder e prestígio.
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