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Jornal da Tarde, 31 de maio de 1999
Sobre Keyenes e os cadernos liberais
O liberalismo clássico, combinado com preocupações humanitaristas e religiosas na Inglaterra do século XX, estendeu as benesses do capitalismo à massa da população

 
 
O Instituto Tancredo Neves, do P.F.L., tem publicado uma série de pequenos livros (de aproximadamente 90 páginas) sob o título “Cadernos Liberais”, que oferecem uma perspectiva bastante completa e aberta das várias correntes do Liberalismo moderno. Seus autores são reconhecidamente competentes na matéria, bastando citar: João Melão N°, Antonio Paim, Selvino Malfatti, Og Leme (do Instituto Liberal do Rio) e do saudoso José Guilherme Merquior. O mais recente é um ensaio “Keynes. Doutrina e Crítica”, de autoria de Ricardo Vélez Rodriguez, professor de filosofia e ciência política no Rio e Juiz de Fora. O autor, como aliás também Paim, ambos amigos e colegas de coluna neste jornal, pertencem à vertente dita “social” do Liberalismo, o próprio termo “social-liberalismo” tendo sido introduzido por Merquior, ao tempo do Presidente Collor, e pelo Senador Marco Macial, hoje Vice-Presidente da República. Em que consiste exatamente a tendência, não saberei dizer. Mas como explica Paim, cuido que foi o Liberalismo clássico, em combinação com preocupações humanitaristas e religiosas na Inglaterra do século passado, quem proporcionou o milagre da extensão das benesses do desenvolvimento capitalista à massa da população. Sem que tal idéia tivesse sido “conscientizada” nos Estados Unidos, onde o capitalismo, selvagem ou não, medrou de modo estupendo do final da Guerra Civil à crise de 29 - o fato é que o espírito aventureiro e empreendedor de americanos e milhões de imigrantes rapidamente tornaram sua população a mais rica do mundo. Na Europa continental, ao socialismo democrático e ao Estado do Bem-Estar (paradoxalmente inaugurado na Alemanha por Bismarck) se atribui o mesmo, embora mais modesto resultado. Se é socialismo, a social-democracia, Keynes ou própria teoria clássica de Adam Smith, com seu conceito de “simpatia” como sustentáculo do mercado livre, que merecem os louros do sucesso é ponto de debates que, sem dúvida, continuará indefinidamente. Foi a crise da Grade Depressão e a IIª Guerra Mundial, juntamente com o desafio totalitário, o que modificou profundamente os dados do problema. Na linha do “social liberalismo”, Vélez argumenta que foi Keynes quem “salvou o capitalismo”. É uma tese com que não concordo. Acredito nas críticas devastadoras feitas por Mises e Hayek ao intervencionismo estatal. Não cabe aqui, no entanto,discutir este ponto. Uma coisa é certa. Todos estamos de acordo que a “crise” dos anos 75/80 interrompeu os “trinta anos gloriosos” do pós-guerra, com a “estagflação” e o desemprego, o que deitou por terra Keynes e sua doutrina. Reagan e lady Thatcher foram bem sucedidos ao voltar ao Liberalismo clássico e com isso derrubando, en passant, o comunismo e seu Império. O livrinho de Ricardo Vélez, em que pese seu vezo “keynesiano” evidente, descreve corretamente o que ocorreu. Sua leitura fácil e abalisada é aconselhável a todos que desejam melhor compreender as obscuras discussões de economia política em que se empenham os entendidos. Chamo especialmente a atenção para a citação de Milton Friedman (pg. 70), em que este guru do Liberalismo monetarista, contrariando os argumentos da Esquerda neo-burra, define com precisão e correção o papel indispensável do governo na manutenção e prosperidade de uma sociedade livre. O outro ponto relevante levantado pelo prof. Adroaldo Moura da Silva, na introdução da obra de Keynes, quando alega que o laissez-faire liberal clássico cristalizou-se na máxima o Homem está só. Não mais podendo contar com a Mão Invisível de Adam Smith, Keynes ensinaria que só a ação do Estado, através da política intervencionista, o salva do desastre. Em outras palavras: nessa aberração lógica só existe agora a Mão Visível dos políticos, burocratas, congressistas, juizes, policiais, etc. - cuja competência, honestidade, incorruptibilidasde e alto padrão moral estão aí, expostos às escâncaras para nosso sábio julgamento. Julguem Vocês mesmos o que é melhor!