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Ao apreciarmos o nível de envolvimento dos povos
no governo e, consequentemente, seu interesse
por temas políticos ao correr da história, notamos
que está relacionado com as graves crises que
os podem afetar. Na Antiguidade oriental a política
era a atividade exclusiva do Rei, de seus cortesãos
e associados. Entre gregos e romanos, a política
era não apenas a função dos cidadãos, mas dever
indeclinável sua participação nela, e é nessa
perspectiva que entendemos a obra de Platão, Aristóteles
ou Cícero. Na Europa feudal, com sua sociedade
dividida entre a nobreza, o clero e o “terceiro”
estado, os atores políticos se situavam exclusivamente
entre os membros da aristocracia, em permanente
tensão com os clérigos em grande parte recrutados
entre os membros da classe inferior, os quais
podiam alcançar as mais altas dignidades, inclusive
a de Sumo Pontífice. Foi só na época moderna que
a democracia pretendeu alistar a população na
política, de modo que, pelo menos teoricamente,
fosse toda ela reponsável pelo governo. Foi Rousseau
o grande propugnador moderno do que chamamos “democracia
participativa” e, em sua perspectiva, devemos,
todos os cidadãos nos ocupar com a conduta dos
negócios públicos. Se, no entanto, tomarmos como
exemplo máximo da democracia moderna os Estados
Unidos, verificamos que o comprometimento das
massas em ações políticas só se deu em ocasiões
excepcionais de crise nacional, revoluções ou
guerras estrangeiras. Os colonos dos treze estados
originais arregimentaram-se ativamente na luta
pela Independência e organização constitucional
da União, e ocorreu um envolvimento geral na Guerra
Civil, tanto de um lado quanto do outro. No período
da grande expansão porém, que vai de 1870 a 1930,
o governo foi reduzido ao mínimo, eis que a enorme
maioria dos estava envolvido em seu próprio enriquecimento
com a ocupação do “Oeste longínquo” e o progresso
industrial. O exercício atento dos deveres de
cidadania, com o concomitante aumento dos impostos
e do pessoal empregado pelo Estado, é resultado
da Grande Depressão e da IIª Guerra Mundial. Fora
dessas ocasiões excepcionais, o povo americano
pouco se tem interessado por política de modo
que, nas eleições, a metade do eleitorado não
vota.
Refletindo essas características, um país em
desenvolvimento como o Brasil regista um crescimento
constante do número de pessoas envolvidas com
os negócios do Estado e a conduta do governo,
o que se torna mais sensível a partir de 1930.
Dificilmente poderíamos, contudo, falar em “democracia
participativa” ou na conveniência de tal coisa
enquanto estiver a sociedade, de tipo patrimonialista
e paternalista, tão claramente dividida em termos
de obrigações e benefícios entre a maioria, no
setor privado, e a minoria privilegiada do setor
público, dominado pela Nomenklatura político-burocrática.
Como generalização sumária, poderíamos propor
a tese que, nas democracias estáveis e harmoniosas,
a política desempenha papel insignificante. Ela
só se torna um peso doloroso nos momentos críticos,
revolucionários ou bélicos, vulneráveis ao crescimento
de movimentos populistas de índole totalitária,
da esquerda ou direita. No Brasil foi Alberto
Torres (+ 1917) quem antecipou que, nas décadas
seguintes, movimentos ideológicos iam assoberbar
a opinião pública, provocando a intromissão violenta
da política nas preocupações da sociedade, Em
suas obras “O Problema Nacional Brasileiro”
e “A Organização Nacional”, acentuava Alberto
Torres que “a fase da evolução humana a que chegamos
tem sido caracterizada pelo predomínio do fator
político sobre os fatores cósmicos e sociais do
desenvolvimento”, acreditando que, em tal ocasião,
a vontade dos chefes temporais e espirituais da
comunidade mais iriam pesar sobre o destino dos
povos que seus interesses e necessidades. No período
que se seguiu à morte de Getúlio Vargas, as grandes
transformações sofridas pelo país, mergulhado
em plena revolução industrial, coincidiram com
novo envolvimento político, podendo notar-se,
contudo, uma tendência mais recente que aponta
para uma redução da motivação política à medida
que cresce o natural interesse da massa da população
por seu avanço econômico e social, o desenvolvimento
material e enriquecimento cultural.
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