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Jornal da Tarde, 29 de maio de 2000
A cultura cancerosa
Se mais de 50% das terras pertencem ao Estado, como é possível que estejam 66% das terras aráveis nas mãos de 3% de "latifundiários"

 
 

O dogmatismo seria um dos sintomas mais expressivos da “cultura cancerosa” a que se referiu Roberto Campos numa de suas crônicas. O dogmatismo ideológico se traduz por lugares-comuns, slogans, termos privilegiados que se transformam em verdadeiros shibboleth - o lema ou palavra mágica, usado na Bíblia hebraica, para servir de indicação ou secreta identificação aos iniciados. Na polêmica política o uso de tais sentenças é indicado, mesmo quando já tenham perdido todo sentido. O Marxismo foi seu principal criador, santificando-as ou satanizando-as conforme as necessidades da “dialética”. A “mais-valia” é um exemplo da “exploração capitalista”, empreendida pela “burguesia” como “classe dominante”. O que é mesmo mais valia? Quando Bill Gates, com seus seus associados da Microsoft, se torna o homem mais rico do mundo, estaria realmente explorando o trabalho das chinesinhas de Taiwan que manufaturam as disquetes, gravadas com os programas do Windows? Trabalhada em seis milhões de propriedades agrárias (o dobro, incidentalmente, das existentes nos Estados Unidos que não somente se alimenta a si-próprio mas é o maior exportador agrícola do mundo), estaria a agricultura brasileira verdadeiramente sendo explorada e prejudicada pelo “latifúndio”? Se mais de 50% das terras, nos 5,5 milhões de klms² de nosso território, pertencem ao Estado, como é possível ser correto o argumento, que leio em jornais brasileiros e estrangeiros, estejam 66% das terras aráveis do país nas mãos de 3% de “latifundiários”? Se a principal característica da problemática agrária no Sul é o minifúndio, criado pela constante subdivisão da terra de famílias numerosas, e se imensas áreas férteis no Norte e no Oeste (Amazônia e Mato-Grosso) ainda são devolutas, por que os “sem-terra” sulinos não as procuram? Há mesmo “fome” num país cuja população cresce à razão de dois milhões por ano, e a urbanização já alcança 80% da mesma? São essas perguntas que razoavelmente se pode fazer diante do dilúvio dos slogans da mendacidade ideológica que justificam as badernas e procuram desestabilizar o governo.

Mais estranho ainda é que, mesmo num documento do Instituto Teotônio Vilela, órgão do PSDB, o Senhor Gilberto Dupas, professor da USP, editorialista deste jornal e, segundo me dizem, amigo do Presidente da República, se derrame em críticas a um “Falso Dilema” que seria criado pelo governo desse mesmo PSDB. Usando ele próprio de um sem número de falsidades e dados mendazes para fortalecer sua tese, Dupas fala em “contradições do capitalismo”, resultantes da “dialética” de sua “acumulação” e seus “desequilíbrios estruturais”, citando Anthony Giddens, Alain Touraine e Jürgen Habermas, todos os três cripto-marxistas ou neomarxistas, como únicas autoridades válidas em economia. Estranho! Anuncia ainda a “crise” do capitalismo, denuncia o “quadro crítico de exclusão social” e levanta a ameaça apocalíptica do desemprego global, exatamente no momento em que a maior potência capitalista do mundo regista o período mais longo de crescimento, mais baixas taxas de desemprego com intensa imigração, enquanto as duas nações em desenvolvimento mais populosas do mundo, China e Índia, revelam igualmente os mais altos índices de crescimento de sua história. Estranhíssimo! Enfim, o que se verifica é que o professor do PSDB projeta os achaques de sua neurastenia, na contemplação da “dor de quem lamenta profundamente” (lamenta o que?), diante da situação de transição que assola o país e o mundo. Ora, tanto quanto posso perceber, o mundo vai muito bem, obrigado. Quem vai mal são justamente os governos que não se dão conta das novas condições das economias nacionais num mercado livre globalizado. Mal vão os governos “socialistas” da França, Alemanha e alguns escandinavos, arcando ao mesmo tempo com um Previdencialismo decrépito e a “invasão dos bárbaros” da Africa, Oriente Médio e Europa Oriental, à procura de empregos, justamente nesses países “socializados” por sua cultura cancerosa. Não deve o eminente economista uspiano, o qual não é certamente um “excluído que tem vergonha e está com fome na era da globalização”, se sentir solidário com o chefe de seu partido? Não deve apoiá-lo nas medidas, aliás tímidas, que toma como Presidente da República?