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O dogmatismo seria um dos sintomas mais expressivos
da “cultura cancerosa” a que se referiu Roberto
Campos numa de suas crônicas. O dogmatismo ideológico
se traduz por lugares-comuns, slogans, termos
privilegiados que se transformam em verdadeiros
shibboleth - o lema ou palavra mágica,
usado na Bíblia hebraica, para servir de indicação
ou secreta identificação aos iniciados. Na polêmica
política o uso de tais sentenças é indicado, mesmo
quando já tenham perdido todo sentido. O Marxismo
foi seu principal criador, santificando-as ou
satanizando-as conforme as necessidades da “dialética”.
A “mais-valia” é um exemplo da “exploração capitalista”,
empreendida pela “burguesia” como “classe dominante”.
O que é mesmo mais valia? Quando Bill Gates, com
seus seus associados da Microsoft, se torna o
homem mais rico do mundo, estaria realmente explorando
o trabalho das chinesinhas de Taiwan que manufaturam
as disquetes, gravadas com os programas do Windows?
Trabalhada em seis milhões de propriedades agrárias
(o dobro, incidentalmente, das existentes nos
Estados Unidos que não somente se alimenta a si-próprio
mas é o maior exportador agrícola do mundo), estaria
a agricultura brasileira verdadeiramente sendo
explorada e prejudicada pelo “latifúndio”? Se
mais de 50% das terras, nos 5,5 milhões de klms²
de nosso território, pertencem ao Estado, como
é possível ser correto o argumento, que leio em
jornais brasileiros e estrangeiros, estejam 66%
das terras aráveis do país nas mãos de 3% de “latifundiários”?
Se a principal característica da problemática
agrária no Sul é o minifúndio, criado pela constante
subdivisão da terra de famílias numerosas, e se
imensas áreas férteis no Norte e no Oeste (Amazônia
e Mato-Grosso) ainda são devolutas, por que os
“sem-terra” sulinos não as procuram? Há mesmo
“fome” num país cuja população cresce à razão
de dois milhões por ano, e a urbanização já alcança
80% da mesma? São essas perguntas que razoavelmente
se pode fazer diante do dilúvio dos slogans da
mendacidade ideológica que justificam as badernas
e procuram desestabilizar o governo.
Mais estranho ainda é que, mesmo num documento
do Instituto Teotônio Vilela, órgão do PSDB, o
Senhor Gilberto Dupas, professor da USP, editorialista
deste jornal e, segundo me dizem, amigo do Presidente
da República, se derrame em críticas a um “Falso
Dilema” que seria criado pelo governo desse mesmo
PSDB. Usando ele próprio de um sem número de falsidades
e dados mendazes para fortalecer sua tese, Dupas
fala em “contradições do capitalismo”, resultantes
da “dialética” de sua “acumulação” e seus “desequilíbrios
estruturais”, citando Anthony Giddens, Alain Touraine
e Jürgen Habermas, todos os três cripto-marxistas
ou neomarxistas, como únicas autoridades válidas
em economia. Estranho! Anuncia ainda a “crise”
do capitalismo, denuncia o “quadro crítico de
exclusão social” e levanta a ameaça apocalíptica
do desemprego global, exatamente no momento em
que a maior potência capitalista do mundo regista
o período mais longo de crescimento, mais baixas
taxas de desemprego com intensa imigração, enquanto
as duas nações em desenvolvimento mais populosas
do mundo, China e Índia, revelam igualmente os
mais altos índices de crescimento de sua história.
Estranhíssimo! Enfim, o que se verifica é que
o professor do PSDB projeta os achaques de sua
neurastenia, na contemplação da “dor de quem lamenta
profundamente” (lamenta o que?), diante da situação
de transição que assola o país e o mundo. Ora,
tanto quanto posso perceber, o mundo vai muito
bem, obrigado. Quem vai mal são justamente os
governos que não se dão conta das novas condições
das economias nacionais num mercado livre globalizado.
Mal vão os governos “socialistas” da França, Alemanha
e alguns escandinavos, arcando ao mesmo tempo
com um Previdencialismo decrépito e a “invasão
dos bárbaros” da Africa, Oriente Médio e Europa
Oriental, à procura de empregos, justamente nesses
países “socializados” por sua cultura cancerosa.
Não deve o eminente economista uspiano, o qual
não é certamente um “excluído que tem vergonha
e está com fome na era da globalização”, se sentir
solidário com o chefe de seu partido? Não deve
apoiá-lo nas medidas, aliás tímidas, que toma
como Presidente da República?
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