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É conveniente repetir cem vezes, para que entre
no bestunto da Burritzia tupiniquim: a
dicotomia Esquerda X Direita é uma criação artificial
dos Jacobinos da Revolução francesa. Ela passou
a ser aceita por comodismo oportunista mas, no
fundo, não possui conteúdo algum. Ao inaugurar-se
a Convenção revolucionária de 1792, os deputados
mais radicais e apressados entraram no recinto
da assembléia pela porta esquerda e, encontrando
vagos os assentos desse lado, ali se sentaram.
Os Girondinos, mais displicentes, moderados e
partidários de um regime representativo de modelo
inglês, descobrindo então lugares vazios à direita
da mesa do Presidente, sentaram-se desse lado.
A Droite permaneceu composta de liberais,
que privilegiavam o primeiro termo do trinômio
revolucionário Liberté, Égalité, Fraternité,
ao passo que a Gauche, o lado dos assanhados
e violentos, ia logo desencadear o Grande Terror
de 93/94 sob a liderança de Robespierre, no empenho
exclusivo de fazer triunfar o segundo termo, igualitarista.
Foi assim imposta uma ditadura terrorística que
desequilibrou o regime, provocou a invasão estrangeira
e conduziu ao império bonapartista, tendo como
resultado a guerra civil, o genocídio da Vendéia
e a conflagração européia: em suma, um milhão
de mortos. Como só em termos de Igualdade perante
a lei e, a rigor, de Igualdade de oportunidade,
se pode pensar em Justiça social, qualquer tentativa
de assegurar artificialmente a uniformidade econômica
só pode conduzir ao comunismo. O controle da produção
pelo Estado gera, inevitavelmente, uma Nova Classe
de dirigentes, encarregados de impô-la através
de uma vasta burocracia que, automaticamente,
evolui uma Nomenklatura de índole atrabiliária,
destruidora e genocida. A fracassada “Conspiração
dos Iguais” de Babeuf, reprimida em 1796, foi
o primeiro exemplo de uma sequência marcada pela
Comuna de Paris, 1871; o Bolchevismo russo que
se desmilinguiu em 1989/91; o Maoísmo, substituído
pelo termo ambíguo “uma nação, dois sistemas”
de Deng Xiaoping na China; o genocídio indiscriminado
perpetrado por Pol-Pot na “Kampuchea Democrática”;
e os dois melancólicos remanescentes da ideologia,
a Coréia do Norte e a Cuba Fidelista. A primeira
nos lembra o 1984, de Orwell, e
a segunda a “Revolução dos Bichos”, em que “todos
são iguais, mas uns mais iguais do que outros”.
Aliás, nesse último caso, estamos realmente diante
de uma espécie de porco que se julga Napoleão.
Se, ao socialismo totalitário, acrescentarmos
o terceiro termo do trinômio mencionado, a Fraternidade
patriótica cuja ideologia específica é o Nacionalismo,
constatamos que duzentos milhões de pessoas foram
sacrificadas, no século XX, por esse sinistro
e derradeiro produto das idéias de Jean-Jacques
Rousseau, tal qual interpretadas pelos Jacobinos
franceses.
A tradição mais legítima, que devemos ao parlamentarismo
britânico, procura destacar três principais tendências
sócio-políticas: o conservadorismo tory;
o liberalismo dos whigs; e uma terceira,
igualitária, versão edulcorada do populismo, importado
da França mas envergonhado, que deu origem ao
Trabalhismo.
Ao estudarem a origem de nossas idéias políticas,
notaram Paim e Ricardo Vélez que, em Portugal,
no período semi-anárquico do século XIX, com a
guerra civil entre Pedro IV (nosso Pedro I°) e
seu irmão absolutista Dom Miguel, três partidos
se formaram, o liberal, o conservador e o que,
adequadamente, foi classificado como “democratismo”
- conceito totalitário elaborado em meados do
século XX pelos estudiosos do Comunismo e do Nazismo
(Hannah Arendt entre outros). Comunismo e nazismo
são os dois braços inimigos do mesmo monstro homicida.
O traslado para nosso país da velha dicotomia
jacobina me parece não somente falso, considerando
as origens autoritárias, jacobinas, positivistas
e marxistas da Ideologia brasileira, mas extremamente
perigoso. Desde a ditadura de Floriano Peixoto
(1891/94), vivemos sob as ameaças respectivas
do Bonapartismo e do Jacobinismo - os dois extremismos
de direita e esquerda implícitos no programa revolucionário
da “Ditadura Republicana” de Auguste Comte e na
“Ditadura do Proletariado” de Karl Marx, ambos
ideólogos discípulos de Rousseau. Devemos retornar
à tradição britânica do Império, que só admite
a tensão entre conservadores e liberais.
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