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Jornal da Tarde, 2 de outubro de 2000
A mistíca ideológica
A verdade historica deita por terra o pretensioso "Dicionário Crítico do Pensamento da Direita

 
 

Na tradição socrática tal como nos foi transmitida por Platão, a perturbação na República resulta dos tormentos que afetam a mente dos cidadãos, cindida em ideologias opostas. Inversamente, cada um de nós sofre os reflexos da desordem afligindo a sociedade. Se é o filósofo o médico da alma, devemos analisar os males da República e corrigi-los por uma therapeia apropriada que procura diagnosticar a enfermidade mental, eliminando-lhe as causas. Na China, uma evolução semelhante pode ser descoberta nos Clássicos de Confucius e seus discípulos. Kung Futzê ensinava a doutrina da “Retificação dos Nomes”, destacando que é a deterioração do significado dos termos políticos o que corrompe a sociedade. Na interpretação marxista dessa velha doutrina, sofre o homem de uma “falsa consciência” e cabe ao intelectual “conscientizado” alcançar à autenticidade de sua alma pela elucidação das verdadeiras motivações (econômicas) das classes sociais em conflito, impondo pela força seu diagnóstico e o tratamento apropriado.

Na obra Psychological Mystique, o professor Stewart Justman da Universidade de Montana defende a tese que o uso truncado da psicologia, na tentativa de alcançar os propósitos educacionais da escola socrática, foi inaugurado nos EEUU, no campo da publicidade, por Edward Bernays, sobrinho de Freud, e no campo do marketing político por pensadores de “esquerda” paradoxalmente inspirados em tão ilustres liberais quanto Milton, Locke e Bentham. Mas foi George Orwell, particularmente na famosa distopia 1984, quem mais profundamente desmistificou a corrupção da tese socrática. O Comunismo dominou a Rússia e a China, ameaçando a própria sobrevivência da tradição mencionada ao subverter-lhe o exato sentido, durante os 70 anos de sua hegemonia. Não obstante seu colapso e as “Quatro Modernizações” chinesas, a aberrante “transmogrificação” - a “transformação ideológica grotesca” (para traduzir o humorístico termo inglês) da doutrina socrática/confuciana prossegue em sua carreira tempestuosa, com borrascas aqui e acolá, em Seattle, Washington, Davos e agora Praga. Com seus conceitos de “novilíngua” e de “duplo-pensar”, Orwell exercitou seu escalpelo para dissecar as formas de linguagem defeituosa e falsos silogismos usados pelos marxistas para impor suas receitas terapêuticas sobre as sociedades (e são muitas) que tiveram a infelicidade de cair sob seus cuidados. Orwell sabia do que estava falando. Como “homem de esquerda”, ele combatera o colonialismo inglês na Birmânia e lutara do lado dos anarquistas na Guerra Civil espanhola. Ferido por uma bala que lhe atravessou a garganta, o hospital o salvou de ser fuzilado pelos comunistas quando estes eliminaram na Catalunha, numa espécie de “guerra civil dentro da guerra civil” (1937), os anarco-sindicalistas que resistiam a seu domínio totalitário do lado republicano.

Atentem para o recente debate (em O GLOBO, 23.9) entre Olavo de Carvalho e o Emir dos Crentes, vulgo Sader, a propósito do “Dicionário Crítico do Pensamento da Direita”. Um só exemplo das distorções. A Primeira Guerra Mundial é ali atribuída ao nefando “imperialismo” capitalista em seu “estágio tardio”, quando foi ela desencadeada sendo a Alemanha governada por um burocrata a serviço do Grande Estado Maior, a Rússia tzarista por uma nobreza interessada em manter seus interesses medievais, a França por dois Primeiros Ministros do Partido Socialista SFIO, René Viviani e Clemenceau, e a Grã-Bretanha pelo líder da ala esquerda, Lloyd George, do Partido Liberal que se opunha aos Tories conservadores. Em suma, exatamente o contrário do que pretendem os ilustres autores do “Dicionário Crítico”. Quanto à IIª Guerra Mundial, talvez por ignorância ou por má fé, o Emir e sua companhia de crentes comunas esquecem convenientemente que ela principiou, em agosto/setembro 1939, com o Pacto Molotov-Ribbentrop, aliando a Alemanha nazista, desejosa de derrubar o Império colonial britânico (aliás desintegrado naturalmente no pós-guerra) e a Rússia estalinista, interessada em conservar e, se possível, ampliar o maior Império do mundo, o russo, que Lênine havia reconstituído após a Revolução de 1917. A verdade histórica deita por terra o pretensioso Dicionário Crítico, se não fosse suficiente o arrazoado do Olavo. Mas o que importa a seus redatores é impor, por bem ou por mal, verdade ou mentira, sua interpretação fantasmagórica da therapeia socrática - sufocando sob o espesso manto de uma mística psicopatológica a população incauta.