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Na tradição socrática tal como nos foi transmitida
por Platão, a perturbação na República resulta
dos tormentos que afetam a mente dos cidadãos,
cindida em ideologias opostas. Inversamente, cada
um de nós sofre os reflexos da desordem afligindo
a sociedade. Se é o filósofo o médico da alma,
devemos analisar os males da República e corrigi-los
por uma therapeia apropriada que procura
diagnosticar a enfermidade mental, eliminando-lhe
as causas. Na China, uma evolução semelhante pode
ser descoberta nos Clássicos de Confucius e seus
discípulos. Kung Futzê ensinava a doutrina da
“Retificação dos Nomes”, destacando que é a deterioração
do significado dos termos políticos o que corrompe
a sociedade. Na interpretação marxista dessa velha
doutrina, sofre o homem de uma “falsa consciência”
e cabe ao intelectual “conscientizado” alcançar
à autenticidade de sua alma pela elucidação das
verdadeiras motivações (econômicas) das classes
sociais em conflito, impondo pela força seu diagnóstico
e o tratamento apropriado.
Na obra Psychological Mystique, o professor
Stewart Justman da Universidade de Montana defende
a tese que o uso truncado da psicologia, na tentativa
de alcançar os propósitos educacionais da escola
socrática, foi inaugurado nos EEUU, no campo da
publicidade, por Edward Bernays, sobrinho de Freud,
e no campo do marketing político por pensadores
de “esquerda” paradoxalmente inspirados em tão
ilustres liberais quanto Milton, Locke e Bentham.
Mas foi George Orwell, particularmente na famosa
distopia 1984, quem mais profundamente
desmistificou a corrupção da tese socrática. O
Comunismo dominou a Rússia e a China, ameaçando
a própria sobrevivência da tradição mencionada
ao subverter-lhe o exato sentido, durante os 70
anos de sua hegemonia. Não obstante seu colapso
e as “Quatro Modernizações” chinesas, a aberrante
“transmogrificação” - a “transformação ideológica
grotesca” (para traduzir o humorístico termo inglês)
da doutrina socrática/confuciana prossegue em
sua carreira tempestuosa, com borrascas aqui e
acolá, em Seattle, Washington, Davos e agora Praga.
Com seus conceitos de “novilíngua” e de “duplo-pensar”,
Orwell exercitou seu escalpelo para dissecar as
formas de linguagem defeituosa e falsos silogismos
usados pelos marxistas para impor suas receitas
terapêuticas sobre as sociedades (e são muitas)
que tiveram a infelicidade de cair sob seus cuidados.
Orwell sabia do que estava falando. Como “homem
de esquerda”, ele combatera o colonialismo inglês
na Birmânia e lutara do lado dos anarquistas na
Guerra Civil espanhola. Ferido por uma bala que
lhe atravessou a garganta, o hospital o salvou
de ser fuzilado pelos comunistas quando estes
eliminaram na Catalunha, numa espécie de “guerra
civil dentro da guerra civil” (1937), os anarco-sindicalistas
que resistiam a seu domínio totalitário do lado
republicano.
Atentem para o recente debate (em O GLOBO, 23.9)
entre Olavo de Carvalho e o Emir dos Crentes,
vulgo Sader, a propósito do “Dicionário Crítico
do Pensamento da Direita”. Um só exemplo das distorções.
A Primeira Guerra Mundial é ali atribuída ao nefando
“imperialismo” capitalista em seu “estágio tardio”,
quando foi ela desencadeada sendo a Alemanha governada
por um burocrata a serviço do Grande Estado Maior,
a Rússia tzarista por uma nobreza interessada
em manter seus interesses medievais, a França
por dois Primeiros Ministros do Partido Socialista
SFIO, René Viviani e Clemenceau, e a Grã-Bretanha
pelo líder da ala esquerda, Lloyd George, do Partido
Liberal que se opunha aos Tories conservadores.
Em suma, exatamente o contrário do que pretendem
os ilustres autores do “Dicionário Crítico”. Quanto
à IIª Guerra Mundial, talvez por ignorância ou
por má fé, o Emir e sua companhia de crentes comunas
esquecem convenientemente que ela principiou,
em agosto/setembro 1939, com o Pacto Molotov-Ribbentrop,
aliando a Alemanha nazista, desejosa de derrubar
o Império colonial britânico (aliás desintegrado
naturalmente no pós-guerra) e a Rússia estalinista,
interessada em conservar e, se possível, ampliar
o maior Império do mundo, o russo, que Lênine
havia reconstituído após a Revolução de 1917.
A verdade histórica deita por terra o pretensioso
Dicionário Crítico, se não fosse suficiente o
arrazoado do Olavo. Mas o que importa a seus redatores
é impor, por bem ou por mal, verdade ou mentira,
sua interpretação fantasmagórica da therapeia
socrática - sufocando sob o espesso manto
de uma mística psicopatológica a população incauta.
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