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Em meados do século XIX, Carlyle criticou os
“respeitáveis professores da ciência medonha”
(dismal science)”, a economia. Não é de
espantar que, através do período de maior desenvolvimento
que a humanidade tenha jamais registado em sua
história, a incompreensão, o ressentimento e a
compaixão dos fariseus tenham acompanhado o fenômeno,
mesmo em países como o Brasil onde, a pesar de
tudo, os dados de crescimento de 1950 até hoje
apresentem índices entre os mais altos da história?
Um dos principais cavalos de batalha dos que não
conseguem percorrer os meandros da deplorável
ciência é a tese de que o lucro de um se sustenta,
necessariamente, na pobreza ou prejuízo de outro
- a tese conhecida como zero-sum game. Isso
quer dizer que o crescimento da riqueza se daria
tirando o dinheiro dos pobres para dar aos ricos.
Há 300 anos, o ilustre Montaigne já falava nisso.
Rousseau repetiu a asneira. Embora entendesse
um pouco mais do que se passava, construiu Marx
seu pesado e catastrófico edifício ideológico
sobre a mesma premissa, a mais-valia. Encontro-a
diariamente em livros e artigos de jornais.
Perdôe-me o brilhante Dr. Paulo Anthero Barbosa
se o estou ofendendo, mas descubro a mesma falsidade
ideológica em seu artigo “As Agruras da Renda”,
no JT de 14 de outubro. E lamento antecipar a
próxima falência, sua e a dos empresários do PNBE,
se não levarem a sério a idéia dos “sacerdotes
do neoliberalismo” que o enriquecimento geral
de uma nação não comporta o alegado empobrecimento
de seu setor menos favorecido, mesmo se possa
inicialmente aumentar a desigualdade da distribuição.
“Há sempre uma filosofia para justificar qualquer
coisa”, postula Paulo Anthero. A minha é uma delas.
Há alguns anos que ando tentando convencer meus
amigos a lerem Alexis de Tocqueville. Em seu “Mémoire
sobre a Pobreza”, escrito após uma viagem à Espanha,
este que é um dos maiores sociólogos modernos
explica o paradoxo verificado entre a aparente
ausência de miseráveis no que era então a nação
mais carente da Europa Ocidental, e os chocantes
contrastes entre ricos e pobres na Inglaterra,
um país então em plena expansão na ponta de lança
da Revolução industrial. Tocqueville era favorecido
com a intuição da dismal science, sem nunca
havê-la estudado. Compreendia que riqueza e pobreza
são conceitos relativos. O pobre, num país em
crescimento, é apenas aquele que é ainda menos
rico do que um rico, e vice-versa num país sub-desenvolvido.
Razão de sobra tinha razão Jesus Cristo ao constatar,
há dois mil anos, “os pobres, sempre os tereis
convosco” (S.João 12:8).
A monumental incapacidade de compreender o que
está ocorrendo no mundo se destaca claramente
na frase em que, referindo-se ao período mais
longo de acelerado crescimento da economia americana
- de 1983 até hoje, após as sábias medidas tomadas
pelo Presidente Reagan - Paulo Anthero alega que
“a renda líquida do 1% mais rico aumentou 115%,
e a dos 40% mais pobres diminuiu 9%”. Sublinho
a frase, porque define o mal-entendido. Quando
o PIB de um país triplica (de US$2,8 trilhões
para $8,7 trilhões), a renda líquida dos mais
pobres aumenta mais lentamente, porém nunca
pode diminuir. Os dados alegados do website
(www.inequality.org), aliás suspeito,
menciona que a renda de 40% da população é de
9%. São os informais, os clandestinos, os menores,
inclusive os filhos de Bill Gates... Não se explicaria
a entrada maciça naquela “pátria do neo-liberalismo”
de um milhão e meio de imigrantes por ano, inclusive
de milhares de brasileiros, se 40% da população
se depauperasse. Ninguém é burro para emigrar
a um país em que a gente se empobrece - mormente,
fugindo da indigência endêmica de países mal governados
por elites ignorantes onde, certamente, ave raríssima
é o liberalismo. A “real dimensão da tragédia”,
referida pelo eminente Coordenador do Pensamento
dos empresários paulistas, é na verdade a incapacidade
de absorver princípios comezinhos de economia.
Dou outro exemplo, a alegação levantada pelos
bispos chilenos, semelhante à que constantemente
embala os da nossa CNB do B. Se o PIB do Chile
era de US$30 bilhões em 1972 (Allende), e é hoje
de cerca de $180 bilhões, com uma renda percapita
de US$12.000, o dobro da brasileira - não importa
tenha o número de “mais pobres” crescido de 21%
para 28%, pois 28% de US$30 bilhões, a serem distribuídos
pelo setor menos favorecido, é sensivelmente inferior
a 21% de 180 bilhões. “Elementary”, comentaria
Sherlock Holmes... Leia um pouco de economia,
Senhor Coordenador do PNBE, mesmo que seja uma
tarefa medonha. E Senhores empresários, cuidado
com o Coordenador de seu pensamento básico!
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