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Jornal da Tarde, 30 de outubro de 2000
As agruras da ciência medonha
O pobre, num país em crescimento, é apenas aquele que é ainda menos rico que um rico

 
 

Em meados do século XIX, Carlyle criticou os “respeitáveis professores da ciência medonha” (dismal science)”, a economia. Não é de espantar que, através do período de maior desenvolvimento que a humanidade tenha jamais registado em sua história, a incompreensão, o ressentimento e a compaixão dos fariseus tenham acompanhado o fenômeno, mesmo em países como o Brasil onde, a pesar de tudo, os dados de crescimento de 1950 até hoje apresentem índices entre os mais altos da história? Um dos principais cavalos de batalha dos que não conseguem percorrer os meandros da deplorável ciência é a tese de que o lucro de um se sustenta, necessariamente, na pobreza ou prejuízo de outro - a tese conhecida como zero-sum game. Isso quer dizer que o crescimento da riqueza se daria tirando o dinheiro dos pobres para dar aos ricos. Há 300 anos, o ilustre Montaigne já falava nisso. Rousseau repetiu a asneira. Embora entendesse um pouco mais do que se passava, construiu Marx seu pesado e catastrófico edifício ideológico sobre a mesma premissa, a mais-valia. Encontro-a diariamente em livros e artigos de jornais.

Perdôe-me o brilhante Dr. Paulo Anthero Barbosa se o estou ofendendo, mas descubro a mesma falsidade ideológica em seu artigo “As Agruras da Renda”, no JT de 14 de outubro. E lamento antecipar a próxima falência, sua e a dos empresários do PNBE, se não levarem a sério a idéia dos “sacerdotes do neoliberalismo” que o enriquecimento geral de uma nação não comporta o alegado empobrecimento de seu setor menos favorecido, mesmo se possa inicialmente aumentar a desigualdade da distribuição. “Há sempre uma filosofia para justificar qualquer coisa”, postula Paulo Anthero. A minha é uma delas. Há alguns anos que ando tentando convencer meus amigos a lerem Alexis de Tocqueville. Em seu “Mémoire sobre a Pobreza”, escrito após uma viagem à Espanha, este que é um dos maiores sociólogos modernos explica o paradoxo verificado entre a aparente ausência de miseráveis no que era então a nação mais carente da Europa Ocidental, e os chocantes contrastes entre ricos e pobres na Inglaterra, um país então em plena expansão na ponta de lança da Revolução industrial. Tocqueville era favorecido com a intuição da dismal science, sem nunca havê-la estudado. Compreendia que riqueza e pobreza são conceitos relativos. O pobre, num país em crescimento, é apenas aquele que é ainda menos rico do que um rico, e vice-versa num país sub-desenvolvido. Razão de sobra tinha razão Jesus Cristo ao constatar, há dois mil anos, “os pobres, sempre os tereis convosco” (S.João 12:8).

A monumental incapacidade de compreender o que está ocorrendo no mundo se destaca claramente na frase em que, referindo-se ao período mais longo de acelerado crescimento da economia americana - de 1983 até hoje, após as sábias medidas tomadas pelo Presidente Reagan - Paulo Anthero alega que “a renda líquida do 1% mais rico aumentou 115%, e a dos 40% mais pobres diminuiu 9%”. Sublinho a frase, porque define o mal-entendido. Quando o PIB de um país triplica (de US$2,8 trilhões para $8,7 trilhões), a renda líquida dos mais pobres aumenta mais lentamente, porém nunca pode diminuir. Os dados alegados do website (www.inequality.org), aliás suspeito, menciona que a renda de 40% da população é de 9%. São os informais, os clandestinos, os menores, inclusive os filhos de Bill Gates... Não se explicaria a entrada maciça naquela “pátria do neo-liberalismo” de um milhão e meio de imigrantes por ano, inclusive de milhares de brasileiros, se 40% da população se depauperasse. Ninguém é burro para emigrar a um país em que a gente se empobrece - mormente, fugindo da indigência endêmica de países mal governados por elites ignorantes onde, certamente, ave raríssima é o liberalismo. A “real dimensão da tragédia”, referida pelo eminente Coordenador do Pensamento dos empresários paulistas, é na verdade a incapacidade de absorver princípios comezinhos de economia.

Dou outro exemplo, a alegação levantada pelos bispos chilenos, semelhante à que constantemente embala os da nossa CNB do B. Se o PIB do Chile era de US$30 bilhões em 1972 (Allende), e é hoje de cerca de $180 bilhões, com uma renda percapita de US$12.000, o dobro da brasileira - não importa tenha o número de “mais pobres” crescido de 21% para 28%, pois 28% de US$30 bilhões, a serem distribuídos pelo setor menos favorecido, é sensivelmente inferior a 21% de 180 bilhões. “Elementary”, comentaria Sherlock Holmes... Leia um pouco de economia, Senhor Coordenador do PNBE, mesmo que seja uma tarefa medonha. E Senhores empresários, cuidado com o Coordenador de seu pensamento básico!