home
 

Considerações sobre Chávez, Fidel e El Che


Considerações sobre a guerra civil espanhola


Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde 16 outubro 2000
Considerações algo cínicas
O problema brasileiro não é o de falta de liberdade, porém de impunidade e semi-anarquia, particularmente na área de segurança pública

 
 

Na América existe uma admirável cópia de Think-tanks e NGOs dedicados a analisar o que se passa no mundo, nação por nação, observando seus índices de liberdade, democracia e avanço na economia de mercado, e produzindo Relatórios anuais bastante úteis para a avaliação comparativa de como se comportam segundo esses critérios. Dois desses Surveys são, a meu ver, preciosos: o do Fraser Institute canadense, organizado por J. Gwartney e R. Lawson, que coloca o Brasil em 85º lugar em matéria de liberdade econômica. Na primeira fila estão Hong-Kong, seguido de Singapura, Nova Zelândia, Estados Unidos, Grã-Bretanha e Suiça. Argentina e Chile estão bem colocados na escala, o que prova, sobejamente, a inanidade dos “néo-burros” que qualificam nosso país de capitalista e flagelado pelo “néo-liberalismo”. O outro “Índice de Liberdade Econômica” é patrocinado pela Heritage Foundation, de Washington, com o Wall Street Journal, a mais prestigiosa folha americana. Nele estamos na rabadilha, o 90° lugar, depois da Mongólia, Argélia e Nova-Guiné. Um terceiro levantamento é efetuado pela Freedom House, que arruma os países na base de serem “livres”, “parcialmente livres” e “não livres”. O critério aí não é econômico, é político. Seu Índice reconhece, naturalmente, o caráter ditatorial de nações como Cuba, Coréia do Norte e muitos árabes e africanos. O Brasil está ali classificado como “parcialmente livre”. Estranhando esse julgamento, entabulei um debate com a Freedom House, protestando contra nossa classificação. Como tudo que diz respeito à política, uma forte dose de cinismo, ingenuidade e preconceito coloriu nossa discussão, de que vou dar conta pois atinge países que muito prezo.

Fiz objeções, inicialmente, à classificação da Grã-Bretanha e da Espanha como “livres”, considerando a violência que se manifesta na Irlanda do Norte e no País Basco, provocado pelo terrorismo, respectivamente, do IRA e da ETA. Critiquei igualmente os pesquisadores do Survey, considerando que, por mais que admiremos Israel e a obra excepcional realizada pelo Sionismo, não se pode considerar Israel inteiramente livre e democrático, segundo seus próprios critérios, enquanto dois milhões de árabes estiverem ali privados dos direitos de auto-determinação. Os atuais conflitos na área testemunham que algo carece em termos de liberdade e democracia, independentemente de atribuições de responsabilidade. Mais grave é o caso da Índia. Acho uma aberração chamá-la de “maior democracia do mundo”, tendo em vista a violência entre comunidades, o tratamento desigual dos párias, a privação da população muçulmana do Kashmir do direito de auto-determinação e as cinco guerras que desencadeou desde 1948 (contra Portugal, contra a China e três contra o Paquistão, sem falar na invasão do Hyderabad). Estranhei igualmente seja a Rússia considerada “parcialmente livre” por motivo dos acontecimentos na Chéch´nya, quando as causas do conflito nessa província são exatamente paralelas às que provocaram o ataque da OTAN contra a Sérvia, em virtude do ocorrido em Kôssovo. Teci então algumas considerações resultantes de minha experiência na ONU onde imaginei a seguinte definição, de aplicação universal e incontestável: “A democracia é o sistema de governo existente em meu país”. Todo mundo, de qualquer nacionalidade, raça, religião ou ideologia aceitaria como válida essa definição, até mesmo um saudita, um fidelista ou um congolês... A Freedom House contestou-me o arrazoado. Alegou ser o Brasil “parcialmente livre” porque o critério de performance adotado comporta restrições à “violência originada em fontes não-estatais e que o Estado é incapaz de controlar”. Achei ridículo o raciocínio. A violência na Grã-Bretanha (IRA), na Espanha (ETA), em Israel (Hamas e Hezbollah) e no próprio USA (explosão em Oklahoma e escândalos de violência nas escolas e de policiais por motivos raciais), tem causas e origens semelhantes às que desclassificaram nosso país. Acresce, repito, que a violência policial no Brasil procede, precisamente, da incompetência legislativa e dos órgãos encarregados de combater a criminalidade. Segundo meu critério, o problema brasileiro não é o de falta de liberdade, porém de impunidade e semi-anarquia, particularmente na área da segurança pública. Além disso, creio sermos superiores aos americanos em matéria de democracia racial. O debate com a Freedom House cessou depois desse último contencioso. A democracia liberal é um regime ideal de difícil realização, e os que se atrevem a julgá-lo carecem de uma forte dose de tolerância, humildade e superação desse mais sutil de todos os vícios, a hipocrisia causada pela arrogância.