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A administração da Universidade de Brasília exige
minha presença no Pessoal, para provar que estou
vivo. Vivo estou, invadido embora de humor melancólico.
Há exatamente 61 anos - desde o primeiro contracheque,
equivalente a 50 dólares no degrau inicial da
carreira que segui - tenho religiosamente recebido
a remuneração devida sem qualquer interrupção.
Tanto mais admirável é a constância desse processo
quanto, durante todos esses anos, mudou o Brasil
muitas vezes de presidente, de constituição, de
regime e moeda, mudou de tudo e atravessou duas
dúzias de revoluções e golpes - passando de sub-desenvolvido
com uma população de 40 milhões e um PIB de 3
ou 4 bilhões de dólares, para uma economia possante
de potência média. Sólido como o Pão de Açúcar
mantém-se a Cosa Nostra: o segredo de um
serviço público que sempre, através de
todas as crises e até mesmo guerras, tem crescido
em tamanho, custo e peso percentual na economia,
com o corolário do crescimento dos impostos. Já
meditara Benjamin Franklin: certo é no futuro
a morte e maiores impostos... Mas quem sabe qual
o número de “servidores”(?) federais, estaduais,
municipais e nas estatais? Dez milhões, quinze
milhões? Um deles, o Seu Nicolau, talvez tenha
realizado 140 milhões de dólares, espertíssimo!
A ilustre classe dos Incluídos, da qual sou um
dos mais antigos e envergonhados membros, consome
um terço do PIB nacional, sustentada que é por
34% deste mesmo em impostos, sem falar em palácios,
proveitos, mordomias e falcatruas diversas, extra-orçamentárias.
O déficit do INSS sofre o peso dos R$46 bilhões
anuais de aposentados federais, entre os quais
com dignidade me coloco... Quantos bilhões nos
estados e nos municípios, roubados ou desperdiçados
em bancos estaduais, escondidos no exterior e
cimentados em edifícios faraônicos para gáudio
de senadores e construtoras favorecidas? No país
mais rico do mundo, os deputados financiam suas
próprias residências em Washington e suas limusines,
sem direito a motorista. Aqui, merecem maiores
recompensas... Contemplem agora a imensa torre
circular, digna de um museu Guggenheim, que vai
abrigar o eminente Procurador Geral da República
e seu staff? E os esqueletos de concreto do Morumbí?
Uma notícia no Estadão me dá conta de que
o prefeito da obscura Jandira padece com o salário
de R$24.000, coitadinho. Em Minas Gerais, 500.000,
quase tantos quanto os da União, assessoram o
apolíneo, honestíssimo e ativo vice-governador,
nas horas vagas do genial e inativo governador:
assim confirmando o velho moto “cinco anos pr´a
frente, cinquenta para trás”... As Alterosas são
também campeãs de municípios, destinados a superar
o desemprego, empregando todo mundo com os repasses
de recursos da União. Pergunto, caro leitor, quem
não quer ser deputado, prefeito, vereador, secretário
desses fantasmas que sugam a riqueza nacional?
Façam greve! Os professores e seus estudantes
assim contribuem para melhorar a educação, com
uma omelete na cabeça de ministros; e os médicos
para melhorar a saúde que assim se converte em
“direito”, como exige a Constituição. Quem não
deseja ser imortal? Aliás, por falar em professores,
verifiquei por um quadro recente no Estadão
que os duzentos da categoria superior ganham
mais do que os embaixadores. Escolhemos mal a
carreira e nunca fizemos greve! A distribuição
de Justiça também deve haver melhorado depois
da dos meritíssimos marajás, com a construção
de seus opulentos tribunais.
O Partido dos “Trabalhadores” do setor público
não quer outra coisa: aumentar o Estado. Seu Presidente,
ex-colega do Putin, ameaça usar de violência,
se necessário quebrando os ovos da galinha dos
ovos de ouro. Na omelete socialista, a receita
é redistribuir, sem jamais se esquecer de si-próprio,
como advertia Trotsky. É verdade que o desequilíbrio
das contas públicas permanece como uma espada
de Dámocles sobre a economia do país, mas quem
se preocupa? Mais empregos públicos, maiores salários,
um mais volumoso, faminto e arcaico Dinossauro.
Pois, como admiravelmente notara o maior economista
francês do século XIX, Frédéric Bastiat, não é
o Estado a “grande ficção que permite a todo mundo
viver às expensas de todo mundo”?
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