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Jornal da Tarde, 11 de dezembro de 2000
Dos honestos inteligentes e marxistas
Em suas absurdas expectorações ideológicas, a CNB do B decreta ser a globalização "a grande utopia do novo milênio, cheia de equívocos

 
 

Parafraseando Tocqueville, que se referia aos Jacobinos, podemos propor a tese da existência de muitos intelectuais brasileiros honestos, muitos inteligentes e outros que rezam pela cartilha marxista. O que jamais poderá ser encontrado seria a conjunção dessas três qualidades num mesmo indivíduo. A proposição se aplica aos bispos da CNB do B que, em abril último, redigiram a “Análise da Conjuntura”. Entre eles deve haver muitos inteligentes e honestos em suas convicções e alguns marxistas. Acontece que os simultaneamente inteligentes e honestos não devem haver colaborado na redação do documento, tão considerável é nele o amontoado de mentiras, tolices e sintomas de fanatismo ideológico. A análise começa com uma citação fantástica Dom Helder Câmara segundo a qual foi Cristo crucificado pelos ricos! Ora, ao contrário do que afirmava o ilustre falecido invocando Lázaro, foi na residência desse ressuscitado que Cristo taxativamente refugou Judas Iscariotes, que criticava Maria de Betânia por gastar perdulariamente com perfumes caríssimos para lavar os pés do Senhor, ao contrário, de distribuir aos pobres os cem denarii da fragrância. Ao Bofe da Libertação Cristo retrucou: “os pobres, sempre os terei, mas a mim não”. Quando foi Cristo crucificado poucos dias depois, após parecer do Sinédrio (a CNB do B da época) “onde os escribas e os fariseus estavam reunidos”, seus apóstolos fugiram espavoridos. E foi precisamente um personagem “rico e poderoso”, José de Arimatéia, quem o sepultou (Mateus 27:57), ato que, segundo a tradição judaica, era atribuído ao mais fiel amigo. Comprova-se assim tenha sido Dom Helder melhor leitor de Marx do que dos Evangelhos...

Mas em suas indevidas e absurdas expectorações ideológicas, a CNB do B decreta ser a globalização “a grande utopia do novo milênio, cheia de equivocos”, a ela preferindo “uma globalização da solidariedade”, esta não definida. Ao invés de citar as encíclicas do Papa que, como católico (de kat-holon, “global”), é na Centesimus Annus favorável à dita e à economia de mercado, o documento invoca a autoridade de uma porção de autores desconhecidos ou grandemente suspeitos por sua deplorável contaminação pela AIDS ideológica (Milton Santos, Paulo Nogueira Batista, Ibrahim Warde, Gretchen Morgensen, Joseph Stiglitz, Alain Touraine e outros da publicação francesa mais conhecida como “L´immonde diplomatique”, assim como Márcio Moreira Alves, o homem do AI-5). Isso não é de admirar aliás. Nota-se a presença no venerável rol dos escribas e fariseus do documento incriminado os jesuítas Linard de Guertechin e Bernard Lestienne (não serão eles de Louvain, por ventura?). O mais curioso, porém, é que, revelando seu total desconhecimento de economia mas nela atrevidamente penetrando, a CNB do B faz um escarcéu com a queda das bolsas dos Estados Unidos, nação que seria responsável pela “pauperização mundial”...“com sua lógica perversa sob o império da falta de ética” - isso, exatamente no momento em que as aludidas bolsa e poderosa nação registam um longo, inédito e surpreende período de crescimento do qual depende, justamente, a prosperidade também inédita da economia mundial. Embora várias vezes citado, o embaixador Rubens Ricúpero aconselha (longe de antenas parabólicas, evidentemente...) “um processo socrático de busca da verdade”, coisa que os bispos parecem dispostos a evitar. Eles falam numa “recolonização latino-americana” e invocam o prof. Nielsen de Paula Pires, medíocre ex-jesuíta que violou seus votos de castidade, para enfatizar as dificuldades econômicas do Chile. Ora, esse país, que gozou quinze anos de fantástica prosperidade graças às receitas liberais dos Chicago Boys, entrou em recessão sob os governos, precisamente, dos governos do democrata cristão Frei e do socialista Lagos. Os julgamentos arbitrários e mentirosos, com a sugestão de não-pagamento da dívida externa, completam o documento desvairado. Não me estenderei sobre as outras aberrantes posturas políticas dos bispos em defesa do “pensamento hegemônico” gramsciano, nem do flagrante desrespeito à advertência do Papa contra a intromissão de sacerdotes em política partidária. Basta concluir que esses sacerdotes parecem haver descoberto a correta receita salvífica no princípio “Marx na cabeça, uma hóstia na língua e um automóvel na garagem...