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Jornal da Tarde, 1 de maio de 2000
Eleitor ignorante
Um sistema eleitoral é condição necessária da democracia, mas não suficiente

 
 

A Democracia, segundo a opinião vulgarmente aceita, seria um regime deficiente - assim mesmo melhor do que qualquer outro. Grande parte dos defeitos depende da maneira como se faz a população representar, ou seja, do sistema de voto. Um recente livro, “Voter Ignorance and the Democratic Ideal”, de Ilya Somin - é interessante se nos dermos conta que esse estudante de ciência política na Universidade de Harvard se debruça sobre um problema na mais poderosa e mais rica democracia do mundo. Se a horrenda ignorância da maior parte do eleitorado, tal como exemplificada pelos argumentos incontroversos de Somin, assim mesmo permite que funcione o governo, o que diríamos então de nosso pobre país! O autor observa que 70% dos eleitores ignoram os nomes de seus senadores e desconhecem qual o poder do Estado, ou da pessoa que tem autoridade para declarar guerra, controlar a política monetária e colocar diante do legislativo propostas de lei. O considerável aumento da educação formal e a verdadeira explosão da informática não substancialmente modificaram muito a situação desde 1930, quando as primeiras pesquisas cuidadosas começaram a ser levadas a cabo. Tudo indica que a ignorância política percentual continua a mesma, observando o autor que tal falha impressionante seria uma ducha fria sobre as expectativas de John Stuart Mill e outros analistas liberais posteriores - que a extensão da educação “criaria um eleitorado bem informado tal qual exigido pelo ideal democrático”. Coitado do ideal democrático! Em 1977, foi eleito um ingênuo tolo, Carter; em 93, um esperto sem-vergonha de boa pinta, Clinton; tendo Bush, erroneamente responsabilizado de ser indiferentes aos problemas internos do país, perdido a re-eleição precisamente graças ao impulso inédito dado à economia pelas políticas de Reagan e dos Republicanos. Acresce que cerca da metade dos eleitores nem mesmo se dá o trabalho de votar. O desinteresse só se reduz nos pleitos presidenciais em que a personalidade dos candidatos dos dois partidos se torna mais evidente. Aliás, o mesmo se regista na Rússia. Não falo da China, “democracia totalitária” onde não existe manifestação livre da vontade popular.

De tudo isso concluo que, sendo um sistema eleitoral perfeito condição necessária da democracia, não é suficiente. A presença de uma velha tradição democrática, como na Grã-Bretanha e outros pequenos países da Europa ocidental (todos eles monarquias por falar nisso!), e a existência de uma elite culta, atenta à Coisa Pública, certamente contribuem para a procura desse ideal sempre distante: o Bom Governo. No Brasil, onde a ignorância, a burrice, o puro analfabetismo e a extensão da contaminação ideológica por perversas doutrinas autoritárias comprometem a autênticas manifestação da vontade coletiva e deturpam a representação pelos desequilíbrios e defeitos dos coeficientes eleitorais, são ainda bem mais evidentes os percalços do sistema. Os brilhantes, sábios, geniais e inspiradíssimos redatores da Constituição do “Dr.” Ulysses tiveram o cuidado, em 1988, pensando remediar os perigo para a democracia, de tornar o voto obrigatório, o que teve como resultado, a ser aliás esperado, tornar-se a inépcia bem mais escandalosa. Todos nós constatamos que um odor de podridão se estende hoje sobre toda nossa vida política. Somin acentua contudo, na base da experiência americana, que os eleitores podem pelo menos discernir as principais questões pelas quais estão sendo afetados. Por exemplo: não pode haver dúvida que o cataclismo inflacionário se nos havia tornado tão sensível, na eleição de 89, que levou ao poder uma sucessão de três presidentes cujo objetivo, finalmente conquistado, foi deter o malefício. Em questões vitais, a nação acaba exercendo seu poder decisivo. Assim foi derrubado o comunismo na antiga URSS, em que pesem 70 anos de doutrinação. E foram desencadeados, em 64, no Brasil, e em 72 no Chile, os movimentos militares que preveniram nossos países de se tornarem malcheirosos charutos de barbudos caudilhos marxistas. A pressão da opinião pública persuadiu, similarmente, os militares em 1980 que seu discreto retorno à caserna se impunha, após missão cumprida. Voltarei ao tema em próximo artigo.