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Um dos aspectos mais interessantes da Nova Ordem
internacional que emerge lentamente do rápido
processo de globalização é a nova idéia de julgamento
e condenação de estrangeiros suspeitos de haverem
cometidos crimes vagamente descritos como “contra
a Humanidade”, fora da jurisdição de seus respectivos
países. Esse conceito de jurisdição global que
atingiria militares e políticos responsáveis por
violações dos direitos humanos tomou um vulto
considerável perante a opinião pública mundial
no episódio Pinochet. Evidentemente, a noção admirável
de um direito ou uma punição que se podem estender
além das fronteiras do país do interessado ou
incriminado; um jus gentium, um direitos
“das gentes” que permite a um indivíduo obter
proteção legal ou reparação em âmbito global-
é uma conquista relativamente recente e faz parte
dos costumes civilizados desde a época do Iluminismo.
O ecumenismo da Igreja medieval podia proporcionar
garantias semelhantes. O que é novo é a extensão
da idéia a um nível político. Ao terminar
a IIª Guerra Mundial os Aliados julgaram e condenaram
os “criminosos de guerra” dos países vencidos.
Centenas foram enforcados ou fuzilados. Mas a
aberração consistiu em colocar os soviéticos no
Tribunal. Estes representavam um regime cujos
crimes, em extensão simplesmente quantitativa,
eram superiores aos dos alemães e japoneses. Mais
russos pereceram sob a bota de Stáline do que
sob a de Hitler. E se a Alemanha acabou reconhecendo
oficialmente sua culpabilidade pela guerra, o
Japão sempre se negou a fazê-lo, esquecendo, por
exemplo, que o saque de Nanking em 1938 (200 a
300 mil vítimas) teria sido o episódio singular
mais mortífero de toda a guerra. Enfim, como se
diz, vae victis, os fortes fazem
o que podem e os fracos o que devem. Não podemos
senão esperar que essa idéia suprema de uma jurisdição
universal mais ou menos associada à própria organização
da ONU faça caminho como expressão de um conceito
universal do Estado de Direito, em inglês the
rule of law. A Globalização a isso conduz
inexoravelmente.
O desastre foi que a tentativa de primeira aplicação
prática desses magníficos princípios de universalidade
do respeito aos direitos humanos tenha sido contaminada
tão descaradamente de hipocrisia, ilegitimidade
e falsidade ideológica por motivos de pura conveniência
política. A responsabilidade principal recai sobre
o Premier britânico, cognominado “Clinton´s
poodle” - o caniche desse Clinton cujo descaramento
e escandalosa vida privada ainda são piores do
que o seu. Não me quero estender sobre os aspectos
ilícitos que comprometeram o caso. O primeiro,
naturalmente, a questão da jurisdição: que direito
tem um juiz espanhol de julgar um político chileno
pelas andanças de alguns espanhóis que se dedicavam
no Chile a subverter pela força o regime, em benefício
de uma detestável ideologia genocida? E o princípio
da não-retroatividade das leis? E a obrigação
de respeitar as imunidades diplomáticas de um
visitante ilustre a quem se concedeu Visto? E
o respeito devido a um antigo aliado que lhe prestou
inestimáveis serviços na Guerra das Falklands?
Lady Thatcher muito apropriadamente criticou esses
abusos, desculpando-se pela vergonha que atinge,
justamente, o paradigma histórico do Estado de
Direito. Seria o tratamento dispensado ao general
chileno mais um exemplo da maneira de agir do
que outrora se denunciava como a pérfida Albion.
O pior foi o desrespeito ao princípio sacrossanto
da igualdade perante a Lei. Como explicar a impunidade
dos Fidel, dos dirigentes do IRA e da ETA, dos
Presidentes Putin e Jiang Jemin, cujos crimes
hediondos deixam Pinochet como um santinho abençoado?
Um desatino escandaloso!
Outros consideram, e não longe estou de admitir
a hipótese de que tudo faz parte de uma conspiração
de esquerdistas europeus que assim tentam disfarçar
seu fracasso administrativo e sua incompetência
no tratamento da guerra civil iugoslava, utilizando
como bode expiatório conveniente um velho general
de uma longínqua nação sul-americana, a fim de
inaugurar a fanfarronada inepta de sua pseudo
“terceira-via”, oferecida como alternativa ao
liberalismo triunfante. Uma vergonha em suma.
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