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O fenômeno da globalização cria problemas linguísticos,
uma vez que é a própria mistura e difusão das
línguas, descritas como uma punição bíblica pela
arrogância dos construtores de Babel, o que enfrenta
agora a Humanidade, consciente de sua unidade
planetária. O processo comporta, consequentemente,
a procura de uma língua comum, uma língua franca
internacional que permita o diálogo entre grupos
étnicos diversos. Na Ásia oriental, esse esforço
de superação da diversidade verbal está sendo
realizado, há 2000 anos, pela escrita ideográfica
chinesa. No Ocidente, primeiro o grego, depois
o latim serviram de traço de união. O prestígio
político e cultural da França nos séculos XVII
a XIX elevou a língua de Racine a essa eminência.
O crescimento do poder britânico no século XIX
e do americano no século XX forçou, no entanto,
a substituição progressiva do francês pelo inglês.
Notai que, além de reflexo do poder anglo-saxônico,
vale-se o idioma inglês da vantagem de ser gramaticalmente
simples, rico no vocabulário e etimologicamente
complexo, mergulhando raízes no celta, germânico,
escandinavo, grego e, através do francês, em 50%
no próprio latim.
Contrariando, porém, a tendência para a universalização
linguística, o nacionalismo tem reagido com vigor,
mercê da tendência dos governos de impor seus
caprichos na onda das malfadadas ideologias que
nos maltratam. Em alguns casos, podemos justificar
o processo. Um exemplo extraordinário foi a iniciativa
dos sionistas de reviver o hebraico que, língua
morta por mais de dois anos, serviu de elemento
de agregação em Israel de imigrantes das mais
variadas origens. O ugro-finês e o gaélico constituem
dois outros exemplos - tentativas, no primeiro
caso, de fortalecer a nacionalidade finlandesa
contra suas vizinhas, russa e sueca; e, no segundo,
pelos ressentimentos dos católicos irlandeses
contra os ingleses. Outro caso curioso é o turco
moderno. Kemal Atatürk tentou purificar seu vocabulário
de termos árabes e persas, ao mesmo tempo que
adotava o alfabeto latino para fortalecer o Estado
leigo contra o fundamentalismo islâmico.
Em nosso país, tem o nacionalismo linguístico
oferecido exemplos ridículos da intervenção extemporânea
e arbitrária do Estado. Chegou-se a pensar na
criação de uma “língua brasileira”. Sinto, até
hoje, dificuldades na ortografia, porque educado
numa grafia que, periodicamente, é mexida e afetada
pelos caprichos dos governantes e seus gurus intelectuais
de meia tigela. A desordem e a confusão criadas
é inimaginável, agravando a ignorância de uma
população semi-analfabeta. Um pequeno exemplo
típico: moro em Brasília no bairro da Parkway,
nome que lhe foi concedido pela NOVACAP exatamente
no momento em que as letras k,y e w
eram oficialmente expurgadas do alfabeto “brasileiro”.
Os nacionalistas se queixam hoje da invasão de
termos ingleses como resultado da pressão “imperialista”
de interesses comerciais e respectivo marketing,
agora agravada pela Informática. Esquecem que
há séculos a velha língua lusitana tem sido afetada
e enriquecida por vocábulos de outras procedências.
É inevitável. Pois não possuímos milhares de neologismos
científicos e tecnológicos, de origem grega? Milhares
de termos árabes e mouriscos? Hebraicos (amém,
hosana, aleluia)? Indianos (açúcar)? Persas (pijama,
paraíso)? Japoneses (quimono, bonsai)? Aztecas
(chocolate, cacau)? Quéchua (chácara)? Italianos
(ciao e centenas de termos musicais). São tantos
que encheriam várias páginas deste jornal. Alguns
até divertidos: flertar vem do velho francês fleureter
que passou para o inglês flirt, de
onde o importamos. No Sul, encontramos de origem
alemã o “pequerrucho” (o dedal, fingerhut)
e o “serigote” (muito bem, sehrgut). Certo,
poderíamos “deletar” do “ordinador” todas essas
palavras mas a verdade é que é a língua, do mesmo
modo como a economia de mercado, o resultado de
uma “Ordem Espontânea” que não depende, como postula
Hayek, de decisão deliberada de nossa parte, razão
pela qual prefiro download o non-sense
dos botocudos em favor da Língua Geral, deixando
correr a Arca de Noé ao sabor dos ventos de mudança...
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