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A criminalidade é, certamente, um dos problemas
centrais do país. As estatísticas alarmantes revelam
um morticínio da ordem de 50.000 por ano. É mais
do que a violência no tráfego e mais do que perdeu
o Brasil em todas as guerras e conflitos civis
de sua história. Mas como bem diz Vargas Llosa,
ninguém dá bola para estatísticas. São demasiadamente
abstratas. Sobretudo para um povo de emotivos
com limitada capacidade de julgamento lógico.
Bastaram, porém, dois incidentes, um casalzinho
assassinado em Brasília, e o ônibus do Jardim
Botânico assaltado, no Rio, para movimentar imprensa,
Tv e, acreditem se quiserem, o próprio governo
num escândalo nacional. Volta-me à mente um pensamento
feio: nada se fará em matéria de fortalecimento
da segurança pública enquanto um “choque emocional”
semelhante não ocorrer com um senador, ministro
ou magistrado de Brasília, ou membros de suas
famílias.
Ora, a segurança é o propósito básico do Estado.
Pelo menos, o que justifica essa instituição perversa
na pena dos principais filósofos da democracia
liberal moderna. Infelizmente, os dois únicos
eminentes a pensarem de modo diverso, Rousseau
e Marx, são precisamente aqueles que maior impacto
tiveram sobre nossa cultura atual - Rousseau por
julgar o homem bom e que só as instituições o
corrompem, e Marx por anunciar a abolição do crime
sem classes e sem propriedade privada. Chamo a
essa heresia política de “mal romântico”, na falta
de outra expressão. Ele consiste em dar mais importância
às palavras, aos sentimentos e projetos utópicos
do que à realidade pragmática. “A humanidade pouco
aguenta a realidade”, diz um dos versos famosos
de T.S. Eliot. “Nossas classes falantes são fiéis
a seu voto de abstinência em matéria de contato
com a realidade”, pontifica Olavo de Carvalho
com mais humor. Diante da perspectiva de ser uma
das possíveis 50.000 vítimas do crime no ano em
curso, o brasileiro se tranca na abstinência mental,
salvo alguns poucos que pensam, emigram ou, pelo
menos, reivindicam o direito a uma pistola de
auto-defesa - único direito do qual, significativamente,
lhes quer o Estado privar. Na falta de contato
com uma realidade problemática concreta, soluciona-se
a questão de dois modos: pondo a culpa em cima
do Outro (o tradicional bode expiatório), ou anunciando
com alarde um documento qualquer que permanecerá,
posteriormente, no papel, mesmo.
O que me chamou a atenção, no triste episódio
do ônibus do Jardim Botânico foi a rapidez com
todas as autoridades, todas sem exceção, puseram
a culpa sobre a polícia, e não sobre a criminalidade.
A indignação mais geral não foi com a morte da
professora inocente, mas com a maneira primária
com que foi castigado o bandido. Este tinha uma
longa folha corrida de homicídios e violências,
depois de haver escapado ao massacre dos “coitadinhos”
na Candelária. De onde deduzo que a Vontade Geral
de Rousseau seria incluí-lo na categoria dos 96.5%
de criminosos que nunca são julgados e condenados,
ficando assim disponíveis para novos homicídios,
fugas de delegacias ou revoltas em presídios.
Do Presidente da República aos próprios oficiais
da polícia local, passando pelo inocente garotinho
que governa o Rio, todas as autoridades se queixaram
da polícia e dos policiais, como se ao Governo
não coubesse responsabilidade alguma pela segurança
pública; a contenção da criminalidade; a reforma
da Constituição que torna inimputáveis os menores
(que cometem 70% dos crimes); a atualização do
código penal; a reorganização das polícias estaduais;
a concessão de melhor treinamento, melhores salários,
maior dignidade e respeito para o policial, de
quem depende nossa segurança e propriedade; e,
acima de tudo, a criação de uma poderosa polícia
federal, sob controle das Forças Armadas, nos
moldes da Canadian Mounted Police, Carabinieri,
Carabineros ou Guardia Civil. Esta
ultima opção é uma alternativa mais lógica para
dar o que fazer aos militares, coitados, traumatizados
pela ociosidade e ausência de “Objetivos Nacionais
Permanentes”... Mas enfim, ver a realidade da
criminalidade de frente e procurar atender ao
problema crucial da sociedade, eis o que parece
difícil a homens românticos, emotivos, irrealistas,
pré-lógicos e gramscianos...
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