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Jornal da Tarde, 18 de abril de 2000
O povo global
A concepção de um mundo global sob um Deus único universal, que assegura a unidade da espécie humana, é a imperecível criação de Israel

 
 

Um número considerável de estudiosos se tem debruçado sobre o lamentável fenômeno do Anti-semitismo o qual contamina a sociedade cristã há 2000 anos. Recentemente, meu amigo Nahum Sirotski abordou o assunto e é em sua homenagem que me atrevo a retornar ao tema rebarbativo. A viagem do Papa e sua visita ao Yad Vachém, o Memorial do Holocáusto, encerra oficialmente, num episódio histórico de grande conteúdo emocional, os percalços anti-semitas que ainda sobrevivem entre Católicos. Ora, num mundo que aceleradamente se globaliza, devemos destacar o papel que desempenharam os judeus na expansão do universalismo ocidental, através do comércio e, dentro da própria Diáspora, a emergência de um povo que poderíamos qualificar de Primeiro Povo Global da história. Durante minha estada em Israel travei conhecimento com um prestigioso rabino e sua mulher, Débora e Menachem Hacohem, autores de uma obra sobre a dispersão judaica. Sabe-se que foi ela grandemente intensificada com a destruição de Jerusalém pelos Imperadores romanos Vespasiano e Tito - mas, na realidade, começou a ocorrer, conforme testemunha a Bíblia, desde a destruição do antigo reino de Israel e o cativeiro de Babilônia. O desaparecimento de povos por força de invasões, domínio estrangeiro, colonização, emigração ou absorção em populações estranhas, são fatos históricos corriqueiros. O “imperialismo” e o “colonialismo”, que se tornaram palavras “politicamente incorretas” na época moderna, não são novidades. Acontece com os judeus que sua “nacionalidade” sempre esteve entranhadamente associada a uma religião. É sua peculiaridade. Mas se todos os povos de cultura se sentiram, de um modo ou de outro, predestinados e estimulados por uma concepção de “destino manifesto”, o que distinguiu os judeus foi sua consciência de “escolha divina”, implícita na idéia de berit, a “aliança” ou “convênio” do Deus único com seu “povo escolhido” que passa a ser instrumento de um Adonai Elohim, um Senhor Deus ou Jahvê ciumento, exclusivista, punitivo, que não admite concorrente e é inflexível com quem o atraiçoa.

É fácil imaginar o imenso impacto que essa concepção teve sobre a história de Israel e, por repercussão, sobre o Cristianismo e sobre toda a humanidade. Pela primeira vez, se concebeu um Deus global, uma divindade singular cujo domínio se estende sobre todo o planeta. Em Isaías a idéia transcendente se transmuda na de Israel como uma luz para os povos. A missão se universaliza graças às epístolas do rabino Saul de Tarso, vulgo São Paulo, que confere ao Evangelho um âmbito potencialmente global. Foi desse modo que surgiu, no quadro do Império Romano, a Igreja dita católica (kat-holon), uma “assembléia universal”. Antes, porém, de o Cristianismo se expandir pela atividade missionária e a força política das potências cristãs, comerciantes judeus da Diáspora, vivendo ao abrigo dos diversos impérios de religiões diversas que cobriam o espaço euroasiático e norte-africano, visitaram e criaram concretamente, nesse espaço, o mundo global.

De origem essencialmente urbana, negociantes, artesãos e banqueiros judeus, em geral solteiros, estabeleceram-se em determinadas cidades, casaram com mulheres locais e assim geraram uma população mestiça de extrema variedade que configura hoje o que é o Judaísmo. Há assim judeus da Europa meridional (s´faradim), judeus da Europa oriental (ashkenazim), da África do Norte e Oriente Médio vivendo sob o Islam, judeus pretos da Abissínia (falasha), judeus da Índia (bene-Israel) e até mesmo chineses. Com a descoberta da América, para a qual grandemente colaboraram, os judeus criaram um novo habitat onde hoje habita a maioria. Não é de admirar por conseguinte que, nesse processo, tenham enfrentado a resistência das sociedades hospedeiras cujo nacionalismo nascente neles descobriam um corpo estranho. Da reação exclusivista e bairrista é que surgiu o anti-semitismo. A concepção de um mundo global sob um Deus único universal, que assegura a unidade da espécie humana, é porém a imperecível criação de Israel. Podemos sugerir que vive hoje o planeta sob uma civilização global de origem judeo-cristã.