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Uma das características mais interessantes da
época em que vivemos é a proliferação de igrejas,
de seitas, comunidades e métodos de ação religiosa,
e de novos caminhos abertos ao homem na eterna
procura de uma Verdade transcendente. O fenômeno
se regista em todo o mundo. Salvo naturalmente
naqueles países em que o Fundamentalismo islâmico
persegue e liquida pela violência qualquer veleidade
de divergência da obsoleta ortodoxia local. Os
líderes dos países a que me refiro nunca leram
o ensaio sobre a Tolerância com que John Locke,
ao final do século XVII, lançou as bases teóricas
para o pluralismo religioso numa atmosfera de
liberdade, mútuo respeito e admissão de divergência
nas convicções e opiniões políticas. No Brasil,
a intolerância nunca campeou, pelo menos a ponto
de provocar lutas como as que ensanguentaram a
Europa nos séculos XVI/XVII e de novo, em sentido
ideológico, na passada centúria. O declínio da
Igreja Católica, corrompida por sua intromissão
na política em escandalosa desobediência às cominações
dos Evangelhos, teve como efeito, pelo que se
vê, uma profusão incrível de igrejas evangélicas,
além das Espíritas, Ba´hai, Mórmons, Budistas,
Are Krishna, Zen, etc., sem falar no retorno ao
paganismo mais primário da macumba e do culto
da Iemanjá.
O estudo de um desses movimentos me interessou,
não evidentemente por seu ensinamento religioso,
algo extravagante, mas por seu conteúdo político
e social. Refiro-me à Igreja da Unificação, fundada
na Coréia pelo Reverendo Sunmyung Moon. Celebrando
o octagésimo aniversário de seu fundador, os membros
da Igreja reuniram-se em Seul, semana passada,
para uma cerimonia gigantesca de casamento ecumênico,
do tipo que costuma realizar. A prática de unir
casais em matrimonio misto europeu/asiático/africano
é um dos pontos curiosos da crença, por promover
de maneira prática e com simbologia adequada,
uma das exigências prementes da atualidade globalizadora
- a aproximação do Ocidente com a Ásia oriental.
De modo concreto, deseja Sumyung Moon desmentir
os famosos versos de Kipling:
East is east, and West is West, and never
the twain shall meet....
Numa época em que a família se vai desmilinguindo,
aqui como no resto do mundo, merece apoio todo
movimento que, como os partidários da Associação
das Famílias para a Unificação e a Paz Mundial,
se congregam numa entidade com tal dinâmica. Dois
outros pontos explicam tanto o sucesso quanto
a violenta reação que desperta em seus detratores:
originário da Coréia do Norte onde sofreu torturas
e perseguições por parte do regime estalinista
local, o Rev. Moon se distinguiu na luta implacável
contra o comunismo, até o momento em que, triunfante,
foi convidado por Gorbachov a Moscou, 1990, em
plena atmosfera de Glasnost, ocasião em
que o conheci. A peculiaridade excepcional do
movimento, dito de “Unificação”, da qual Moon
se proclama uma espécie de Messias, ou pelo menos
Profeta, é ainda sua franca defesa do Capitalismo
e do liberalismo. Está, evidentemente, na lógica
de sua doutrina. Mas a “ideologia” globalizante
e capitalista se combinou com um excepcional gênio
empresarial do próprio Reverendo que possui, hoje,
um verdadeiro império industrial, avaliado em
dois bilhões de dólares e concentrado na Coréia
e Japão, de onde provem a maior parte de seus
recursos. Controla ainda o segundo jornal mais
importante da capital americana, o Washington
Times.
A combinação de um movimento religioso com colossal
empreendimento econômico é o que provocou outro
drama na vida de Sunmyung Moon, sua prisão por
alguns meses nos Estados Unidos por se recusar
a pagar US$7,000 de imposto de renda, argumentando
que estaria ali dispensado da taxa como qualquer
outra entidade religiosa. Enfim, Igreja ou corporação
industrial? Ou as duas? Inútil acrecentar que
é esse o motivo do ódio inexorável, da intensidade
inédita das denúncias e da campanha raivosa de
calúnia de que são alvos o próprio Reverendo e
seus partidários. No Brasil segundo li no International
Herald Tribune (29.11.99), ou mais precisamente
no município de Jardim, Mato Grosso do Sul, Moon
teria adquirido 570 klms² de terras para a instalação
de seu novo “Jardim Edênico”, o Projeto Nova Esperança
- justamente na região do Pantanal que, há 45
anos, em seu Tristes Tropiques, Claude
Lévi-Strauss qualificou como uma das áreas mais
hostís ao estabelecimento do homem no Planeta.
A polêmica selvagem prossegue...
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