home
 

Considerações sobre Chávez, Fidel e El Che


Considerações sobre a guerra civil espanhola


Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde, 21 de fevereiro 2000
O reverendo Moon, amigos e detratores
A peculiaridade excepcional do movimento do reverendo Moon é ainda sua franca defesa do capitalismo e do liberalismo

 
 

Uma das características mais interessantes da época em que vivemos é a proliferação de igrejas, de seitas, comunidades e métodos de ação religiosa, e de novos caminhos abertos ao homem na eterna procura de uma Verdade transcendente. O fenômeno se regista em todo o mundo. Salvo naturalmente naqueles países em que o Fundamentalismo islâmico persegue e liquida pela violência qualquer veleidade de divergência da obsoleta ortodoxia local. Os líderes dos países a que me refiro nunca leram o ensaio sobre a Tolerância com que John Locke, ao final do século XVII, lançou as bases teóricas para o pluralismo religioso numa atmosfera de liberdade, mútuo respeito e admissão de divergência nas convicções e opiniões políticas. No Brasil, a intolerância nunca campeou, pelo menos a ponto de provocar lutas como as que ensanguentaram a Europa nos séculos XVI/XVII e de novo, em sentido ideológico, na passada centúria. O declínio da Igreja Católica, corrompida por sua intromissão na política em escandalosa desobediência às cominações dos Evangelhos, teve como efeito, pelo que se vê, uma profusão incrível de igrejas evangélicas, além das Espíritas, Ba´hai, Mórmons, Budistas, Are Krishna, Zen, etc., sem falar no retorno ao paganismo mais primário da macumba e do culto da Iemanjá.

O estudo de um desses movimentos me interessou, não evidentemente por seu ensinamento religioso, algo extravagante, mas por seu conteúdo político e social. Refiro-me à Igreja da Unificação, fundada na Coréia pelo Reverendo Sunmyung Moon. Celebrando o octagésimo aniversário de seu fundador, os membros da Igreja reuniram-se em Seul, semana passada, para uma cerimonia gigantesca de casamento ecumênico, do tipo que costuma realizar. A prática de unir casais em matrimonio misto europeu/asiático/africano é um dos pontos curiosos da crença, por promover de maneira prática e com simbologia adequada, uma das exigências prementes da atualidade globalizadora - a aproximação do Ocidente com a Ásia oriental. De modo concreto, deseja Sumyung Moon desmentir os famosos versos de Kipling:

East is east, and West is West, and never the twain shall meet....

Numa época em que a família se vai desmilinguindo, aqui como no resto do mundo, merece apoio todo movimento que, como os partidários da Associação das Famílias para a Unificação e a Paz Mundial, se congregam numa entidade com tal dinâmica. Dois outros pontos explicam tanto o sucesso quanto a violenta reação que desperta em seus detratores: originário da Coréia do Norte onde sofreu torturas e perseguições por parte do regime estalinista local, o Rev. Moon se distinguiu na luta implacável contra o comunismo, até o momento em que, triunfante, foi convidado por Gorbachov a Moscou, 1990, em plena atmosfera de Glasnost, ocasião em que o conheci. A peculiaridade excepcional do movimento, dito de “Unificação”, da qual Moon se proclama uma espécie de Messias, ou pelo menos Profeta, é ainda sua franca defesa do Capitalismo e do liberalismo. Está, evidentemente, na lógica de sua doutrina. Mas a “ideologia” globalizante e capitalista se combinou com um excepcional gênio empresarial do próprio Reverendo que possui, hoje, um verdadeiro império industrial, avaliado em dois bilhões de dólares e concentrado na Coréia e Japão, de onde provem a maior parte de seus recursos. Controla ainda o segundo jornal mais importante da capital americana, o Washington Times.

A combinação de um movimento religioso com colossal empreendimento econômico é o que provocou outro drama na vida de Sunmyung Moon, sua prisão por alguns meses nos Estados Unidos por se recusar a pagar US$7,000 de imposto de renda, argumentando que estaria ali dispensado da taxa como qualquer outra entidade religiosa. Enfim, Igreja ou corporação industrial? Ou as duas? Inútil acrecentar que é esse o motivo do ódio inexorável, da intensidade inédita das denúncias e da campanha raivosa de calúnia de que são alvos o próprio Reverendo e seus partidários. No Brasil segundo li no International Herald Tribune (29.11.99), ou mais precisamente no município de Jardim, Mato Grosso do Sul, Moon teria adquirido 570 klms² de terras para a instalação de seu novo “Jardim Edênico”, o Projeto Nova Esperança - justamente na região do Pantanal que, há 45 anos, em seu Tristes Tropiques, Claude Lévi-Strauss qualificou como uma das áreas mais hostís ao estabelecimento do homem no Planeta. A polêmica selvagem prossegue...