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Jornal da Tarde 06 de março de 2000
Percalços do jornalismo
Toda profissão tem seus percalços. O jornalismo também, tanto quando se escreve para jornais como quando se os lê

 
 

Toda profissão tem seus percalços. O Jornalismo também, tanto quando se escreve para os jornais como quando se os lê. Comecei a contribuir para folhas do Rio há mais de 30 anos e me transferi depois para as de S.Paulo. Uma série de episódios registados nessa atividade são curiosos ou divertidos como ilustração das surpresas que nos acometem quando assim manifestamos opinião pela palavra escrita. No fim dos anos 50, Chefe então do Departamento Cultural do Itamaraty e me entusiasmando pela construção da nova capital, escrevi que Brasília teria o efeito de suprimir a fatalidade das intervenções decisivas da guarnição da Vila Militar do Rio nas graves crises políticas do país. Ora, isso foi dito no início do governo JK, garantido pelo “golpe do Lott” em 1955. Como esse “pronunciamento” militar favorecera um evento apoiado pela “Esquerda”, fui acusado de “direitista” e “conservador”. Logo em seguida, o apoio prático que concedi à divulgação da Nova Capital no exterior teve o efeito contrário de fazer-me cair nas más graças da “direita” udenista. Sobejaram então as acusações de haver escrito “Quando Mudam as Capitais” como instrumento de minha promoção na carreira. Os principais insultos sofridos emanaram da TRIBUNA DE IMPRENSA, então órgão da “direita”. Posteriormente, quando foi comprovada minha justa antecipação de que a guarnição carioca não mais decidiria a parada, passei a ser acusado de fascista e entusiasta da ditadura militar. No Itamaraty, essa aleivosa acusação comprometeu-me na carrière, embora tenham os “terceiro-mundistas” colaborado com o regime militar tanto quanto eu. Na realidade, eu antecipara o colapso fatal da tenebrosa ideologia totalitária o que duplamente se confirmou em 1945/1989. Incidentalmente, em março 1964 eu era embaixador na Nigéria, designado para esse posto longínquo e inconfortável pelo inepto Presidente Goulart. Posteriormente a 1980, a grande massa dos políticos e intelectuais brasileiros passou a obscurecer o passado em benefício de uma nova moda marxista. O annus mirabilis de 1989 não foi até agora registado neste país, infelizmente: a vanguarda do atraso gramsciana continua controlando os mídia.

Nos anos 70, alarmado com o crescimento explosivo da população brasileira, entrei na campanha pelo controle da natalidade. Esta teve algum sucesso, com os índices de crescimento demográfico caindo de 3% a 1,2%. Sofri na época uma série inacreditável de injúrias, de novo de parte da “direita”. O mais curioso foi o de uma dama caridosa que, se dizendo católica fervorosa, sugeriu que, ao invés de “matar os fetos” para reduzir a natalidade, o país deveria “matar os velhos” para reduzir a senilidade que me era atribuída... Belos sentimentos! Numa revista paulista, fui infamado por outro motivo. Um certo Senhor Lancellotti, membro da Corte do Rei Arthur, denunciou-me por ser membro da Censura que perseguia “O Comportamento Sexual” apresentado na TV por uma sexóloga, ulteriormente convertida em política com o fim de suplementar a debilidade mental de seu digno esposo. Como nunca pertenci a nenhum órgão censor, nem mesmo sabia quem era “Dona Marta” cujo comportamento sexual, bom ou mal, não me interessa de modo algum, a acusação era inteiramente gratuita. São os ossos do ofício... Não desejo prolongar este embaraçoso relato. A última peripécia de meus confrontos com a imprensa marron é recente. A 17 de janeiro último, um colaborador dessa mesma TRIBUNA DE IMPRENSA - o principal órgão utilizado por Carlos Lacerda como um dos líderes civis do golpe de 64 - me acusa de haver “servido à ditadura dos generais” e haver sido “o guru filósofo da tortura” (sic). A ira do Senhor Argemiro Ferreira contra minha pessoa e meu amigo “Bob Fields”, a quem muito admiro como um dos homens mais lúcidos do país, se deve provavelmente ao fato de haver sido condecorado pelo coronel Gadafi por defender o uso do terrorismo contra aviões americanos (o aparelho da Panamerican que caiu na Escócia matou mais de 350 pessoas!). Sou de fato inimigo do terrorismo e da tortura mental promovida pela Esquerda Gramsci. E creio que órgãos como a TRIBUNA só podem mesmo é servir de papel higiênico para o grotesco e disentérico ditador militar líbio.