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Um número considerável de estudiosos se tem debruçado
sobre o lamentável fenômeno do Anti-semitismo
o qual contamina a sociedade cristã há 2000 anos.
Recentemente, meu amigo Nahum Sirotski abordou
o assunto e é em sua homenagem que me atrevo a
retornar ao tema rebarbativo. A viagem do Papa
e sua visita ao Yad Vachém, o Memorial do Holocáusto,
encerra oficialmente, num episódio histórico de
grande conteúdo emocional, os percalços anti-semitas
que ainda sobrevivem entre Católicos. Ora, num
mundo que aceleradamente se globaliza, devemos
destacar o papel que desempenharam os judeus na
expansão do universalismo ocidental, através do
comércio e, dentro da própria Diáspora, a emergência
de um povo que poderíamos qualificar de Primeiro
Povo Global da história. Durante minha estada
em Israel travei conhecimento com um prestigioso
rabino e sua mulher, Débora e Menachem Hacohem,
autores de uma obra sobre a dispersão judaica.
Sabe-se que foi ela grandemente intensificada
com a destruição de Jerusalém pelos Imperadores
romanos Vespasiano e Tito - mas, na realidade,
começou a ocorrer, conforme testemunha a Bíblia,
desde a destruição do antigo reino de Israel e
o cativeiro de Babilônia. O desaparecimento de
povos por força de invasões, domínio estrangeiro,
colonização, emigração ou absorção em populações
estranhas, são fatos históricos corriqueiros.
O “imperialismo” e o “colonialismo”, que se tornaram
palavras “politicamente incorretas” na época moderna,
não são novidades. Acontece com os judeus que
sua “nacionalidade” sempre esteve entranhadamente
associada a uma religião. É sua peculiaridade.
Mas se todos os povos de cultura se sentiram,
de um modo ou de outro, predestinados e estimulados
por uma concepção de “destino manifesto”, o que
distinguiu os judeus foi sua consciência de “escolha
divina”, implícita na idéia de berit, a
“aliança” ou “convênio” do Deus único com seu
“povo escolhido” que passa a ser instrumento de
um Adonai Elohim, um Senhor Deus ou Jahvê
ciumento, exclusivista, punitivo, que não admite
concorrente e é inflexível com quem o atraiçoa.
É fácil imaginar o imenso impacto que essa concepção
teve sobre a história de Israel e, por repercussão,
sobre o Cristianismo e sobre toda a humanidade.
Pela primeira vez, se concebeu um Deus global,
uma divindade singular cujo domínio se estende
sobre todo o planeta. Em Isaías a idéia transcendente
se transmuda na de Israel como uma luz para os
povos. A missão se universaliza graças às epístolas
do rabino Saul de Tarso, vulgo São Paulo, que
confere ao Evangelho um âmbito potencialmente
global. Foi desse modo que surgiu, no quadro do
Império Romano, a Igreja dita católica
(kat-holon), uma “assembléia universal”.
Antes, porém, de o Cristianismo se expandir pela
atividade missionária e a força política das potências
cristãs, comerciantes judeus da Diáspora, vivendo
ao abrigo dos diversos impérios de religiões diversas
que cobriam o espaço euroasiático e norte-africano,
visitaram e criaram concretamente, nesse espaço,
o mundo global.
De origem essencialmente urbana, negociantes,
artesãos e banqueiros judeus, em geral solteiros,
estabeleceram-se em determinadas cidades, casaram
com mulheres locais e assim geraram uma população
mestiça de extrema variedade que configura hoje
o que é o Judaísmo. Há assim judeus da Europa
meridional (s´faradim), judeus da Europa
oriental (ashkenazim), da África do Norte
e Oriente Médio vivendo sob o Islam, judeus pretos
da Abissínia (falasha), judeus da Índia
(bene-Israel) e até mesmo chineses. Com
a descoberta da América, para a qual grandemente
colaboraram, os judeus criaram um novo habitat
onde hoje habita a maioria. Não é de admirar por
conseguinte que, nesse processo, tenham enfrentado
a resistência das sociedades hospedeiras cujo
nacionalismo nascente neles descobriam um corpo
estranho. Da reação exclusivista e bairrista é
que surgiu o anti-semitismo. A concepção de um
mundo global sob um Deus único universal, que
assegura a unidade da espécie humana, é porém
a imperecível criação de Israel. Podemos sugerir
que vive hoje o planeta sob uma civilização global
de origem judeo-cristã.
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