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Numa de suas obras mais expressivas, El
Labirinto de la Soledad, adverte Octavio
Paz que “a mentira se instalou em nossos povos
quase que constitucionalmente. O dano tem sido
incalculável e alcança zonas muito profundas de
nosso ser... daí sendo a luta contra a mentira
oficial e constitucional o primeiro passo de toda
tentativa de reforma”. Uma das mentiras que comprometem
“nossos povos”, é o “mito da Revolução” - pelo
menos é isso o que, em 1989, sugere o grande poeta
e ensaísta numa oração de agradecimento ao receber
o prêmio Tocqueville. Ora, se sabemos que, também
em nosso país, a mentira do mito jacobino que,
desde sua origem, embala a “Esquerda”, nos tem
criado tremendos prejuízos, o fato é que agora
se destaca o México como a nação que, constitucionalmente,
mais claramente acaba de dar um basta ao mito.
A vitória de Fox e do PAN não representa apenas
o repúdio ao “partido único”. Na realidade, foram
derrotadas as sequelas da Revolução mexicana iniciada
em 1910 - há portanto noventa anos e, nesse período,
poucos países tanto sofreram das aberrações do
“espírito revolucionário” e das instituições que
gerou: pelo menos um milhão de mortos e, provavelmente,
a mais brutal e sangrenta revolução de toda a
história das Américas - vinte anos de anarquia,
golpes, assassinatos e ditaduras, constelados
em torno de dois polos, um de esquerda jacobina
(Zapata, Pancho Villa, Calles, Cárdenas) e outro
de direita bonapartista, personificada por uma
sucessão de generais mais ou menos tirânicos e
corruptos na tradição de Porfírio Diaz. Foi com
este lugar-tenente de Juárez, Presidente durante
35 anos e cuja queda marcou o início do ciclo
de desordem, que surgiram as ideologias legitimadoras,
o Positivismo comteano e o Marxismo, de um Estado
praticamente totalitário que se tornaria uma “ditadura
perfeita” (Vargas Llosa). Ambos propunham, como
no Brasil, a “ditadura republicana” - sob a égide
de intelectuais ou burocratas educados por princípios
supostamente “científicos”. E foi assim que Calles
e Cárdenas transformaram o sistema em Partido
Revolucionário Institucional, de índole nacional-socialista
- um título incoerente, aliás, eis que a “revolução”
implica, por definição, a derrubada das instituições
- que, durante setenta anos, alimentou, como nos
países comunistas, uma nova classe oligárquica
para administrar a nação - administrando mal,
aliás, esbanjando a riqueza mineral e petrolífera,
engordando o Dinossauro e se corrompendo aos poucos,
a ponto de transformar o México numa monstruosidade.
É o que Octavio Paz tão admiravelmente analisou
em seu outro ensaio El Ogro Filantropico.
Certo, é o México o país de mais forte personalidade
na área “ao sul do Rio Grande”. Produziu notáveis
pintores muralistas, todos eles marxistas,
que contribuiram para aprofundar a Grande
Mentira. Lembro-me de minha surpresa, ao visitar
na cidade do México o Museu de Arte Moderna,
com a “arte” mexicana que consistia em criticar
como burgueses, exploradores, opressores e
vendidos aos americanos exatamente aqueles
mesmos cagafogos do PRI que os financiavam
e que eles apoiavam. Maior pasmo me causou
a candidatura ao Prêmio Nobel da Paz do Presidente
Echevarria que em 1968, como Ministro da Justiça,
dera a ordem de massacrar os estudantes na
Universidade - 300 vítimas ao que se calcula!
E, terceira surpresa, que tenham esses farsantes
do PRI conseguido gozar da maior popularidade
nos círculos ditos “esclarecidos” do Ocidente,
pelo simples fato de sempre haverem usado
uma retórica, vocabulário e formas de simbolização
de Esquerda. O próprio sucesso do PAN foi
acompanhado de mentiras. Seu domínios dos
estados setentrionais e vitória parcial em
1997 foram obscurecidos pela eleição de Cuauctemoc
Cárdenas à prefeitura da capital. O anunciado
“empate técnico” pré-eleitoral entre Fox e
Labastida convenceu-me por isso do triunfo
do primeiro. E sua classificação como “conservador”
é mais uma mentira. O novo Presidente, que
devemos saudar como o primeiro claro defensor
do Liberalismo em nosso continente, é um augúrio
do prosseguimento das privatizações, integração
do país à NAFTA e próxima eliminação das estruturas
do Patrimonialismo selvagem, de efeitos tão
perversos no desenvolvimento de nosso continente.
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