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Considerações sobre a guerra civil espanhola


Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde, 10 de julho de 2000
Viva o México!

 
 

Numa de suas obras mais expressivas, El Labirinto de la Soledad, adverte Octavio Paz que “a mentira se instalou em nossos povos quase que constitucionalmente. O dano tem sido incalculável e alcança zonas muito profundas de nosso ser... daí sendo a luta contra a mentira oficial e constitucional o primeiro passo de toda tentativa de reforma”. Uma das mentiras que comprometem “nossos povos”, é o “mito da Revolução” - pelo menos é isso o que, em 1989, sugere o grande poeta e ensaísta numa oração de agradecimento ao receber o prêmio Tocqueville. Ora, se sabemos que, também em nosso país, a mentira do mito jacobino que, desde sua origem, embala a “Esquerda”, nos tem criado tremendos prejuízos, o fato é que agora se destaca o México como a nação que, constitucionalmente, mais claramente acaba de dar um basta ao mito. A vitória de Fox e do PAN não representa apenas o repúdio ao “partido único”. Na realidade, foram derrotadas as sequelas da Revolução mexicana iniciada em 1910 - há portanto noventa anos e, nesse período, poucos países tanto sofreram das aberrações do “espírito revolucionário” e das instituições que gerou: pelo menos um milhão de mortos e, provavelmente, a mais brutal e sangrenta revolução de toda a história das Américas - vinte anos de anarquia, golpes, assassinatos e ditaduras, constelados em torno de dois polos, um de esquerda jacobina (Zapata, Pancho Villa, Calles, Cárdenas) e outro de direita bonapartista, personificada por uma sucessão de generais mais ou menos tirânicos e corruptos na tradição de Porfírio Diaz. Foi com este lugar-tenente de Juárez, Presidente durante 35 anos e cuja queda marcou o início do ciclo de desordem, que surgiram as ideologias legitimadoras, o Positivismo comteano e o Marxismo, de um Estado praticamente totalitário que se tornaria uma “ditadura perfeita” (Vargas Llosa). Ambos propunham, como no Brasil, a “ditadura republicana” - sob a égide de intelectuais ou burocratas educados por princípios supostamente “científicos”. E foi assim que Calles e Cárdenas transformaram o sistema em Partido Revolucionário Institucional, de índole nacional-socialista - um título incoerente, aliás, eis que a “revolução” implica, por definição, a derrubada das instituições - que, durante setenta anos, alimentou, como nos países comunistas, uma nova classe oligárquica para administrar a nação - administrando mal, aliás, esbanjando a riqueza mineral e petrolífera, engordando o Dinossauro e se corrompendo aos poucos, a ponto de transformar o México numa monstruosidade. É o que Octavio Paz tão admiravelmente analisou em seu outro ensaio El Ogro Filantropico.

Certo, é o México o país de mais forte personalidade na área “ao sul do Rio Grande”. Produziu notáveis pintores muralistas, todos eles marxistas, que contribuiram para aprofundar a Grande Mentira. Lembro-me de minha surpresa, ao visitar na cidade do México o Museu de Arte Moderna, com a “arte” mexicana que consistia em criticar como burgueses, exploradores, opressores e vendidos aos americanos exatamente aqueles mesmos cagafogos do PRI que os financiavam e que eles apoiavam. Maior pasmo me causou a candidatura ao Prêmio Nobel da Paz do Presidente Echevarria que em 1968, como Ministro da Justiça, dera a ordem de massacrar os estudantes na Universidade - 300 vítimas ao que se calcula! E, terceira surpresa, que tenham esses farsantes do PRI conseguido gozar da maior popularidade nos círculos ditos “esclarecidos” do Ocidente, pelo simples fato de sempre haverem usado uma retórica, vocabulário e formas de simbolização de Esquerda. O próprio sucesso do PAN foi acompanhado de mentiras. Seu domínios dos estados setentrionais e vitória parcial em 1997 foram obscurecidos pela eleição de Cuauctemoc Cárdenas à prefeitura da capital. O anunciado “empate técnico” pré-eleitoral entre Fox e Labastida convenceu-me por isso do triunfo do primeiro. E sua classificação como “conservador” é mais uma mentira. O novo Presidente, que devemos saudar como o primeiro claro defensor do Liberalismo em nosso continente, é um augúrio do prosseguimento das privatizações, integração do país à NAFTA e próxima eliminação das estruturas do Patrimonialismo selvagem, de efeitos tão perversos no desenvolvimento de nosso continente.