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Jornal da Tarde, 6 de agosto de 2001
A crise de hipocondria
No Brasil, por uma predisposição histórica, períodos de euforia se sucedem a crises de depressão e vice-versa

 
 

Muitos observadores hão notado uma predisposição histórica, em nossa mentalidade coletiva: períodos de euforia se sucedem a crises de depressão, e vice-versa. O carnaval da Presidência JK, momentaneamente interrompido, foi sucedido pelo "ninguém segura este país!", recaindo na austera e vil tristeza da transição do regime militar para as "diretas já" que nos trouxeram um Collor e um Itamar, que dose para cavalo! Traço curioso: aos períodos cíclicos correspondem ondulações na economia. Ao "milagre brasileiro" de 1967/75 sucedeu-se a "década perdida" que nos trouxe a estatização galopante do Geisel, o "cheiro das cavalariças" do Figueiredo e a hiper-inflação do Marimbondo de Fogo. A alegria dos "caras pintadas" com a redemocratização minguou no desastre constitucional de 1988. Com o início da Presidência FHC, retornou o otimismo que agora decai para a trigésima "maior crise que o país atravessa"! Toda sucessão naturalmente traumatiza o paciente esquizofrênico. Uma análise psiquiátrica da ciclotimia seria aconselhável, mas poucos especialistas existem na matéria. Ela não é ensinada nas escolas de medicina, menos ainda nas de sociologia que preferem no currículo a "luta de classes", a "exploração burguesa" e a "mais-valia". No vácuo evidente dos estudos psicossociais, atrevo-me, embora desprovido de diploma, a sugerir um diagnóstico. O exame do paciente demonstra a existência de duas correntes opostas, em rota de colisão. A primeira é reacionária, cindida entre "esquerda" petista e "direita" nacionalista. Anseia pelo socialismo e a mamãezada. Sonha com o retorno do líder carismático, "o Pai dos Pobres", o Dom Sebastião ou o barbudo ‘Cavaleiro da Esperança" que "vai salvar o Brasil", punir os maus, prender os corruptos, impor a justiça, a igualdade e a felicidade, chorando, gritando ou mesmo matando. Teme o desembarque de marines na Amazônia, clama contra a "entrega de 450 klms2 do sagrado território nacional" em Alcântara e abomina o "imperialismo americano", único responsável pelo atraso desta nossa pátria adorada, idolatrada, salve, salve!

Nenhuma melhor descrição conheço dessa vertente histérica da nacionalidade do que escreveu Alexis de Tocqueville em 1840 em seu famoso "De la Démocratie en Amérique": "Sobre essa raça de homens impera um poder imenso e tutelar quie se atribui a obrigação exclusiva de gratificá-la e presidir sobre seu destino. Esse poder é absoluto, minucioso, regular, providente e suave. Seria como uma autoridade de pai se, como essa autoridade, fosse seu propósito preparar os homens para a idade adulta; mas ele procura, ao contrário, mantê-los em perpétua infância(...)Para sua felicidade tal governo trabalha com prazer mas deseja ser o agente único e árbitro exclusivo dessa felicidade (...)Assim cada dia torna menos útil e menos frequente o exercício da livre capacidade do homem; circunscreve a vontade num âmbito cada vez mais estreito e gradualmente o priva de todos os usos que, de si mesmo, pode fazer."(II, IV,6).

Em rota de colisão, dizia eu, corre aceleradamente uma outra tendência, otimista, corporificada e fortificada no setor privado da economia, formal e informal, e já liberta da tutela do Papai/Mamãe estatal. Para minha surpresa, descobri no Relatório 2001 do Banco Mundial sobre os "Indicadores do Desenvolvimento", segundo a "paridade do poder de compra" (Puchasing Power Parity), que coloca o Brasil com um PIB de US$ 1,148 trilhões (quase US$7,000 percapita), equivalente ao da Itália, próximo da França e muito superior ao do Canadá ($776) e Rússia ($1,022). Em outras palavras, seríamos a sexta potência econômica do mundo - precedidos apenas pelos USA, China, Japão, Alemanha, França e Reino Unido. De onde concluo que o principal objetivo atual da diplomacia brasileira deveria ser o de reivindicar nossa participação no Conselho das Potências dirigentes do mundo. O Grupo dos Oito passaria a ser Grupo dos Nove. Meu receituário para a cura da Pseudodoxia Epidemica que nos afeta histericamente: não ler o noticiário dos jornais e TV, pois só tratam de crime e corrupção, descurando de apontar para a inépcia arrogante e suja da Mamãezada estatal. Sursum Corda! No setor privado, o Brasil vai indo muito bem, obrigado.