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Orwell
inventou o termo “novilíngua”, em sua famosa distopia,
para designar o tipo de idioma especial que o
Estado totalitário impõe no sentido de coibir
a liberdade dos cidadãos até mesmo no uso da linguagem
que desejem. Não é de estranhar, portanto, que
um deputado do PC do B, esquecendo-se do suposto
“internacionalismo” básico de sua doutrina, queira
agora, mais uma vez em nossa história republicana,
determinar a maneira como devemos falar - só usando
termos politicamente corretos. Essa mania intervencionista,
com uma sucessão de “reformas ortográficas”, é
de tal ordem que, depois de 65 anos do hábito
de escrever, sou ainda obrigado, frequentemente,
a consultar o dicionário como resultado de resquícios,
depositados na memória inconsciente, da ortografia
de minha infância. A mais ridícula de todas as
“reformas” foi a que suprimiu o k, o w
e o y no momento exato em que, em Brasília,
a NOVACAP dava a um dos bairros projetados, aquele
precisamente em que resido agora, o nome de Parkway.
O ímpeto nacionalista dos calhordas da política
e da burocracia está sendo , exasperadamente,
colorido de xenofobia, dirigida em particular
contra a língua franca (O.K.?), expandindo-se
no novo mundo globalizado - o que quer dizer o
inglês. Se o ilustre parlamentar (de parliament,
inglês) realizar seus propósitos, receio que seremos
obrigados a nos comunicar por gestos. Nem mesmo
os idiomas indígenas servirão. O próprio tupi-guarani,
falado outrora em S,Paulo, é de procedência paraguaia.
As outras tribos, existentes ao tempo da indigitada
“Descoberta” (não seria a palavra detestável?),
ainda hablan centenas, talvez milhares
de Spräche diversos. D´accord, a
língua oficial é o português, art. 13 da Constituição
dos Miseráveis do “Dr” Ulysses! E o que
fazer então com as centenas, talvez milhares de
palavras árabes? Sem alfândegas e almoxarifados,
dammit!, o próprio governo não poderia
funcionar. Vamos destruir a medicina e a incipiente
ciência brasileira porque usa termos principalmente
gregos, e foi toda importada? E a matemática
que se vale igualmente de álgebra e algarismos
árabes? Abandonar toda a tecnologia igualmente
importada, automóveis, aviões, eletricidade, telefone,
todo o forró (for all, inglês)? E excluir
a música, porca miseria, porque inteiramente
corrompida pelo italiano? Numa orquestra
(grego) ou numa ópera, não haveria
mais maestro, piano, violino, trombone,
sem falar no oboé (hautbois) que é francês,
e naturalmente tambor (árabe). Arre
(provençal), quem imagina expurgar a missa do
amém, das aleluias e dos hosanas
(termos hebreus)? O autor da sugestão é realmente
um ben-zonah ou, pelo menos, um teólogo
(grego) da libertação (latim). A agricultura
seria privada do açúcar, do alcool e do
algodão (árabes), assim como do café
(qahuyê, turco) e, nas fazendas
(espanhol) e chácaras (quéchua), não se
mediria mais em alqueires (árabe). Nas
cidades não veríamos mais bondes (bond,
inglês) nem taxis (grego, pelo alemão). Ninguém
comeria mais chocolate (azteca) e como se poderia
o povo divertir sem o futebol (football)
e o grito exuberante de goooool (goal)?
Exu (iorubá) entraria em campo para desfazer
a feitiçaria (fétiche, francês).
Em suma,
o que desejo salientar é que, desde sempre, o
fenômeno de globalização progressiva da humanidade
vai enriquecendo os idiomas locais com palavras
importadas (serigote, sehr gut, alemão
de Santa Catarina), do mesmo modo como nosso próprio
povo se formou com imigrantes de todos os continentes,
índios da Ásia, negros africanos, europeus de
todas as origens, além dos próprios portugueses
já originariamente mestiços, e sírio-libaneses,
japoneses e coreanos de mais recente extração,
uma “raça cósmica”, como diria o grande ensaísta
mexicano José Vasconcellos. Na verdade, a língua
configura, como acentua Hayek, uma Ordem Espontânea
do mesmo tipo do que o Mercado capitalista. Suas
únicas regras são as gramaticais, precisamente
as que tantos congressistas, especialmente do
Nordeste, desprezam. O remédio é deletar
o responsável pela idéia da novilíngua, com um
download pela toalete (francê) do W.C.
(inglês). Ciao... Bye, Bye!
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