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Jornal da Tarde, 22 de janeiro de 2001
Os pensadores da liberdade
A linguagem amena torna o livro"Os Pensadores da Liberdade" uma preciosidade para quem deseja enfronhar-se no ABC do liberalismo

 
 

Evidentemente, caros leitores, Vocês podem pensar, com o pseudo “frei” Betto, que os liberais são “pedófilos, tarados, estupradores e assassinos de mulheres”. Mas se souberem que esse Senhor não é um Domini cani, porém um Luciferi porcus que tomou como exemplos de pedofilia Mao Dzedong o qual, diariamente, dormia com meninas ou soldadinhos da guarda, para demonstrar sua virilidade de Grande Timoneiro; como exemplo de tarado o Títio Zeca Stáline, responsável pela morte de 60 milhões de russos; modelo de estupradores os vingativos conquistadores de Berlim, em 1945, com alguma razão talvez, embora eu conheça pessoalmente uma das vítimas (tinha 16 anos na época!); e como assassinos de mulheres os dois sobreviventes do Khmer Rouge a serem julgados na Cambódia, por haverem eliminado uma terça parte da população do país; ou o Líder Máximo Kim Jongil, da Coréia do Norte, cuja economia é tão próspera que, no inverno, os camponeses famintos são obrigados a se alimentar com as recém-nascidas supérfluas - então vos aconselho a procurar informação em fontes mais seguras e limpas.

Um chafariz perfeito é a recém-publicada tradução do livro do eminente escritor, publicista e professor argentino Mariano Grondona, que tem como título Os Pensadores da Liberdade. Com prefácio e tradução, aliás impecáveis, do professor Ubiratan Macedo, a editora é a Mandarim, de S.Paulo, para a Coleção Biblioteca Liberal do Instituto Tancredo Neves. Enfim, gente séria, que sabe do que está falando. Grondona percorre toda a gama do pensamento liberal, através de doze de seus pró-homens. Inicia com John Locke, no século XVII, e continua com Adam Smith cuja obra máxima, “A Riqueza das Nações” (1776), coincide com a Independência americana, e com os autores dos Federalist Papers, James Madison, principal redator da Constituição e futuro Presidente, Alexander Hamilton e John Jay. Vêm em seguida Immanuel Kant, para alguns o maior filósofo europeu; Alexis de Tocqueville, que considero o maior sociólogo francês e, sem dúvida, quem mais exatamente antecipou, cem anos antes, os desafios que a democracia enfrentaria no passado século; e John Stuart Mill, o inglês cujos On Liberty (1859) e Principles of Political Economy (1848), introduzem uma nova vertente do Liberalismo, hoje conhecida como “liberalismo social”. É a partir dessa época que os intérpretes e malfadados sucessores de Rousseau e Hegel preparam os alicerces onde crescerá a frondosa árvore do despotismo totalitário, derrubado em 1989. Devemos perdoar Grondona se dedica um capítulo a Juan Bautista Alberdi, pois foi, realmente, um dos responsáveis pelas idéias que proporcionaram à Argentina aquilo que o Brasil, infelizmente, não teve, cinquenta anos de abertura, liberdade e crescimento, período no final do qual (por volta de 1931) era o quarto ou quinto país mais rico do mundo. Nossos liberais do século XIX, tão bem estudados por Antonio Paim e João de Scantimburgo, não alcançaram nem o renome, nem a influência exercida por Alberdi.

Nesse percurso, Grondona não incluiu outros grandes nomes do pensamento liberal como Spinoza, Mandeville, Montequieu, Burke, Hume - isso porque seu livro é curto (179 páginas), maravilhosamente claro e concentrado. O autor quer enfatizar o essencial. O filosoficamente mais relevante está exposto numa linguagem amena que torna o ensaio uma preciosidade para quem deseja enfronhar-se no ABC do Liberalismo. Depois de dedicar um capítulo a Max Weber, o primeiro a combater eficazmente no campo da sociologia os dogmas tolos e empiricamente falsos dos Marxistas, e outro a Sir Karl Popper, autor de obra famosa “A Sociedade Aberta e seus Inimigos” - Grondona termina com um tratamento, a meu ver insatisfatório, da obra de Mises e Hayek, os grandes economistas de Viena que fizeram ressurgir o (néo) liberalismo; e com dois capítulos aos eminentes filósofos americanos John Rawls e Robert Nozick. Sobre estes falarei em outro artigo, pois são atualíssimos, particularmente Nozick. Mas leiam o livro!