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Exilado em Santa Helena, Napoleão predisse em
seu Memorial que, “Quand la Chine s´éveillera,
le Monde tremblera”. A intuição do Imperador
dos Franceses quanto ao despertar da China foi
correta pois o “Império Central” (Djung Guó)
já seria a segunda potência política e econômica
do mundo e, virtualmente, o maior desafio tanto
à hegemonia cultural do Ocidente, quanto à evolução
natural do fenômeno de globalização. Há trinta
anos, ninguém teria pensado nisso. A China já
era influente, eis que a “Revolução Cutural” maoísta
foi um dos modelos determinantes dos “acontecimentos”
estudantis de 1968/69, cujas badernas percorreram
as Américas e Europa. A crise deliberadamente
provocada pelo Grande Timoneiro arruinou-lhe a
economia e carregou com milhões de vítimas. Um
exemplo curioso da globalização, desde aquela
época, são as calças blue-jeans, um velho
tipo usado pelos cowboys americanos que
se tornou, naquela oportunidade e até hoje, a
moda quase universal da garotada - por ser o azul
a cor da indumentária proletária chinesa.
Há trinta anos se anunciava, por toda a parte,
que a economia japonesa estava prestes a ultrapassar
o PIB dos EEUU. Hoje, a competição ameaçadora
é a da China. Não se pode negar que, graças a
seus enormes recursos e potencial demográfico,
esteja essa nação na cabeça da largada. Como velho
admirador da cultura e do povo chineses, com quem
convivi por três anos na carreira, reconheço a
gravidade do desafio. Sou, porém, otimista. Acredito
que sua tradição histórica é, basicamente, pragmática,
pacifista, defensiva e introvertida - a mentalidade
da Grande Muralha. O Florido Estado do Centro
ambiciona, certamente, tornar-se hegemônico na
Ásia oriental, domínio que exerceu durante milênios
- mas a grande questão é precisamente esta: saberão
os chineses revelar suficiente talento para adaptar-se
a um mundo globalizado, desprovido de um “Centro”?
Tal pergunta está relacionada com um dos grandes
paradoxos da atualidade, o qual foi levantado
pelo falecido Deng Xiaoping quando inventou o
slogan: um país, dois sistemas. Verifico
imediatamente o paradoxo no Índice de Liberdade
Econômica anualmente publicado pelo Wall Street
Journal e a Heritage Foundation. O
Brasil, como se sabe, está colocado em 93° lugar
nessa lista, a própria China no 114º. Mas eis
o milagre: Hong-Kong, em primeiro, precede Singapura,
a Nova Zelândia, Luxemburgo, os Estados Unidos
e as outras nações ocidentais. Parte integrante
da China, Hong Kong encabeça uma série de “zonas
especiais” litorâneas, particularmente Xanghai,
em que vigoram as regras estimulantes da economia
de mercado. A renda percapita dos sete milhões
de habitantes da cidade é de US$22.000, a do resto
do país, com seus 1,2 bilhões, mal alcançaria
os 1.200 dólares. No total, com o acréscimo do
PIB de Hong-Kong, estima-se que a economia chinesa
já ultrapassa a japonesa - pois esta estagnou,
enquanto cresce a da China a ritmos superiores
a 7%. O paradoxo, como se vê, é o contraste entre
os dois “sistemas”, o capitalista, aplicado nas
áreas litorâneas, e o comunista, que prevalece,
não obstante as privatizações, em Beidjing e no
interior. Enquanto convivem os chins com o que
pretende ser o melhor dos dois mundos - perestroika
sem glasnost sob o peso formidável do totalitarismo
uni-partidário, dirigido pela burocracia no vezo
tradicional do mandarinato que, por Wittfogel,
foi analisado como “Despotismo Oriental” - as
desigualdades de renda, liberdade e bem-estar
que a dicotomia provoca são gigantescas. Disposto
ainda está o Estado a agir com violência, como
o fez na matança dos estudantes na Praça da Paz
Celestial; e agora mesmo reprimindo membros de
uma inofensiva seita religiosa que fazem ginástica
em público. Mas a presença de dezenas de milhares
de estudantes no exterior irá, eventualmente,
repercutir à sua volta sobre as contradições do
duplo sistema. Como disse, sou por isso otimista.
O grande desafio de todos nós, países grandes,
é aceitar as condições de descentralização, interdependência,
pluralismo cultural e liberdade que definem a
globalização. O eixo do mundo não passa mais por
Beidjing, mas vai de polo a polo...
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