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Jornal da Tarde, 19 de março de 2001
Quando a China despertar...
Há 30 anos se anunciava que a economia japonesa estava prestes a ultrapassar o PIB americano. Hoje, a competição ameaçadora é a da China

 
 

Exilado em Santa Helena, Napoleão predisse em seu Memorial que, “Quand la Chine s´éveillera, le Monde tremblera”. A intuição do Imperador dos Franceses quanto ao despertar da China foi correta pois o “Império Central” (Djung Guó) já seria a segunda potência política e econômica do mundo e, virtualmente, o maior desafio tanto à hegemonia cultural do Ocidente, quanto à evolução natural do fenômeno de globalização. Há trinta anos, ninguém teria pensado nisso. A China já era influente, eis que a “Revolução Cutural” maoísta foi um dos modelos determinantes dos “acontecimentos” estudantis de 1968/69, cujas badernas percorreram as Américas e Europa. A crise deliberadamente provocada pelo Grande Timoneiro arruinou-lhe a economia e carregou com milhões de vítimas. Um exemplo curioso da globalização, desde aquela época, são as calças blue-jeans, um velho tipo usado pelos cowboys americanos que se tornou, naquela oportunidade e até hoje, a moda quase universal da garotada - por ser o azul a cor da indumentária proletária chinesa.

Há trinta anos se anunciava, por toda a parte, que a economia japonesa estava prestes a ultrapassar o PIB dos EEUU. Hoje, a competição ameaçadora é a da China. Não se pode negar que, graças a seus enormes recursos e potencial demográfico, esteja essa nação na cabeça da largada. Como velho admirador da cultura e do povo chineses, com quem convivi por três anos na carreira, reconheço a gravidade do desafio. Sou, porém, otimista. Acredito que sua tradição histórica é, basicamente, pragmática, pacifista, defensiva e introvertida - a mentalidade da Grande Muralha. O Florido Estado do Centro ambiciona, certamente, tornar-se hegemônico na Ásia oriental, domínio que exerceu durante milênios - mas a grande questão é precisamente esta: saberão os chineses revelar suficiente talento para adaptar-se a um mundo globalizado, desprovido de um “Centro”?

Tal pergunta está relacionada com um dos grandes paradoxos da atualidade, o qual foi levantado pelo falecido Deng Xiaoping quando inventou o slogan: um país, dois sistemas. Verifico imediatamente o paradoxo no Índice de Liberdade Econômica anualmente publicado pelo Wall Street Journal e a Heritage Foundation. O Brasil, como se sabe, está colocado em 93° lugar nessa lista, a própria China no 114º. Mas eis o milagre: Hong-Kong, em primeiro, precede Singapura, a Nova Zelândia, Luxemburgo, os Estados Unidos e as outras nações ocidentais. Parte integrante da China, Hong Kong encabeça uma série de “zonas especiais” litorâneas, particularmente Xanghai, em que vigoram as regras estimulantes da economia de mercado. A renda percapita dos sete milhões de habitantes da cidade é de US$22.000, a do resto do país, com seus 1,2 bilhões, mal alcançaria os 1.200 dólares. No total, com o acréscimo do PIB de Hong-Kong, estima-se que a economia chinesa já ultrapassa a japonesa - pois esta estagnou, enquanto cresce a da China a ritmos superiores a 7%. O paradoxo, como se vê, é o contraste entre os dois “sistemas”, o capitalista, aplicado nas áreas litorâneas, e o comunista, que prevalece, não obstante as privatizações, em Beidjing e no interior. Enquanto convivem os chins com o que pretende ser o melhor dos dois mundos - perestroika sem glasnost sob o peso formidável do totalitarismo uni-partidário, dirigido pela burocracia no vezo tradicional do mandarinato que, por Wittfogel, foi analisado como “Despotismo Oriental” - as desigualdades de renda, liberdade e bem-estar que a dicotomia provoca são gigantescas. Disposto ainda está o Estado a agir com violência, como o fez na matança dos estudantes na Praça da Paz Celestial; e agora mesmo reprimindo membros de uma inofensiva seita religiosa que fazem ginástica em público. Mas a presença de dezenas de milhares de estudantes no exterior irá, eventualmente, repercutir à sua volta sobre as contradições do duplo sistema. Como disse, sou por isso otimista. O grande desafio de todos nós, países grandes, é aceitar as condições de descentralização, interdependência, pluralismo cultural e liberdade que definem a globalização. O eixo do mundo não passa mais por Beidjing, mas vai de polo a polo...