|
Uma visão realista sobre o mundo em que vivemos
nos faz descobrir, com certa angustiada perplexidade,
não serem os critérios de eficiência e de ética
necessariamente conciliáveis. Os valores da política
não são idênticos aos da moral fraterna. A manipulação
do poder age numa perspectiva diversa da fidelidade
aos Dez Mandamentos. Há 150 anos Karl Marx se
dava claramente conta disso, ao refugar qualquer
apelo à Justiça no corpus de sua doutrina e qualquer
moralismo alimentício, empregatício, hospitalar
ou outro.
Referindo-se aos miseráveis, indigentes e afavelados
que, em A Ideologia Alemã, denunciava como Lumpen
("lixo esfarrapado"), Marx os descreve
como "ralé, massa apodrecendo passivamente,
expulsa pelas camadas mais baixas da velha sociedade
(...) e preparada para o papel de instrumento
subornado da intriga reacionária"... Os Misérables,
os desgraçados, necessitados, mendigos, roceiros,
meninos de rua, "as flores dos esgotos"
a que se referia Cruz e Souza, são todos aqueles
que despertam a consciência angustiada de um cristão.
Comentando a Crítica do Programa de Gotha, texto
constitutivo da Primeira Internacional (1864),
o maior de todos os socialistas escreveu com ironia:
"Impuseram-me ao preâmbulo duas frases sobre
os deveres e os direitos, a Verdade, a Moral e
a Justiça. Mas os consignei de tal maneira que
não possam fazer mal algum"... No próprio
Manifesto Comunista aliás, Marx evidencia suas
convicções: "As leis, a moral, a religião
são simplesmente preconceitos burgueses detrás
dos quais se escondem outros tantos interesses
burgueses."
Cito essas frases porque um dos grandes paradoxos
da atualidade é a transformação do principal partido
marxista brasileiro, o PT, em paladino da moralidade
pública, invocando, em seu programa de governo,
a eficiência de uma economia política produtiva
e os altos ideais da Justiça Social. O segundo
paradoxo é que a elite da opinião pública, expressando-se
inclusive pela boca dos mais lúcidos agitadores
da esquerda, denuncia a corrupção e a imoralidade
dos políticos, como se considerasse a função pública
como principalmente responsável pelos sucessivos
escândalos. O Brasil estaria sendo vítima de governantes
desvergonhados. Agora, terceiro paradoxo, recentes
dados do Ibope, veiculados pela Veja, revelariam
estar a maioria da população desejosa de voltar
atrás no processo de abertura e privatização,
inclinando-se pelo socialismo e uma re-estatização
parcial da produção.
Ora, essa "terceira-via" é contrária
à corrente dominante no mundo avançado.
Nela incluo o sistema chinês de "um país,
dois sistemas". E, desses paradoxos, concluo
que a espécie de mal-estar ou pessimismo catastrofista,
contaminando a mente do brasileiro "engajado",
resulta do sentimento a nível subliminal da impossibilidade
de harmonizar o melhor dos dois mundos possíveis.
Se uma burocracia cada vez mais numerosa, arbitrária
e intervencionista deve reduzir a pobreza, como
pensa por exemplo o deputado Genoíno (no JT de
14 de julho), não vejo como evitar um incremento
da corrupção, juntamente com o decréscimo da eficiência
econômica. O modelo europeu não é superior ao
americano. A Europa continua mais pobre e menos
eficiente do que os EUA, precisamente porque se
recusa a praticar o modelo liberal integral. O
argumento e os dados do eminente petista não são
corretos. Enquanto cresce o desemprego (fator
não mencionado por Genoíno) na União Européia
que caminha para a estagnação com um Welfare protegendo
os preguiçosos e deixando uma massa informal de
árabes, africanos e asiáticos, indesejáveis, no
lugar que os europeus favorecidos desprezam, os
EUA recebem pobres para enriquecê-los. São milhões
de imigrantes e clandestinos da Ásia e América
Latina que, enquanto não integrados, afetam naturalmente
os índices relativos de bem-estar.
Na realidade, o "sistema chinês" que
o PT ambiciona visa, simplesmente, a preservar
um setor produtivo, privado e cada vez mais abafado
por uma tributação extorsionária (os "burgueses
capitalistas" neoliberais do seu vocabulário),
enquanto a "elite predatória" da burocracia
orçamentívora mantém-se no poder com o nhenhenhém
da moralidade pública, da Justiça Social e de
um pseudo-"socialismo" obsoleto, fantasmagórico
e inepto.
|