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No JT de quarta-feira última, o professor J.C.
Azevedo denuncia o nível medíocre do ensino universitário
brasileiro, cada vez mais comprometido pelo que
eu chamaria a "afeganização" generalizada
da nossa educação. Como ex-professor da UnB, com
quem tenho mantido contato não obstante as greves
intermitentes, ainda muito teria a acrescentar
aos argumentos irrefutáveis de meu antigo Reitor.
Especialmente na área de história, sociologia
e filosofia a ignorância crassa gera um Buraco
Negro na cuca da juventude discente. Nesse vácuo
de infinita força gravitacional se derrama a gogoroba
que a intelectuária botocuda tem mal cozinhado,
com ingredientes rousseaunianos e neo-marxistas,
provenientes da "Escola de Frankfurt"
e da Rive Gauche parisiense, a eles juntando
os "Cadernos" do corcunda sardo que
Mussolini salvou das garras de Stáline, conservando-o
são e salvo num confortável cárcere italiano,
provido de caneta e papel. Sociologia, filosofia
e história se transformaram assim, em nossa Pindorama
botocuda, cheia de encantos mil, num monumento
faraônico de "burritzia" planetária
- um monumento bem mais gigantesco, aliás, do
que qualquer dos inúmeros tribunais que o Judiciário
brasileiro está erguendo em Brasília.
O efeito é deplorável. O que tenho lido, por
exemplo na coleção "Sociedade e História
do Brasil" publicada pela Fundação Teotonio
Villela do PSDB, é de arrepiar os cabelos. O trabalho
talvez tenha sido endereçado aos gênios do PT,
do PC do B e dos jesuítas franceses da CNB do
B brasiliense. Ou, quiçá, é uma pesquisa destinada
à sabença edificante de uma personalidade do alto
gabarito moral e mental do escrevinhador lusitano,
aquinhoado no ano passado com o prêmio Ig-Nóbel
de literatura. Ou ainda, objetivou enriquecer
a cultura do ex-guru ianque do Ciro Gomes, filho
de mãe brasileira, ou sustentar a do eminentíssimo
fundador da SUDENE que facultou o desenvolvimento
fantástico da indústria da seca nordestina nos
últimos 50 anos, a fim de humilhar o que realizaram
algumas dúzias de israelenses para a irrigação
do deserto do Negev. Em suma, não faltaram motivos
para a satisfação beata dos cretinos, quando viram
ruir fragorosamente as duas torres Nova-Yorkinas.
A "neo-burritzia" da intelectuária é,
há muito, conhecida por sua ideologia "sinistra"
(como os italianos usam apropriadamente o termo).
Mas a nova "guerra contra o terrorismo",
que melhor qualificaríamos de "operação de
polícia global", ofereceu uma oportunidade
ímpar de por para fora, verbalmente, a matéria
fecal por ela digerida em sua intelligentsia.
Há muito que estou convencido do fato histórico
que estamos saindo da Idade das Guerras para a
Idade do Crime. Fukuyama fez um breve e imerecido
sucesso com a tese absurda de um "Fim da
História". Na verdade, a Globalização cria
sua própria história, totalmente inédita. Caem
por terra os velhos chavões "esquerda X direita",
"comunismo X capitalismo", "primeiro
mundo X terceiro mundo". A dicotomia maniqueísta
Bem X Mal, Verdade X Mentira, foi virada pelo
avesso. Temos agora dois campos que, por falta
de termos apropriados, classifico como o dos globalistas
e homenageio nas sete mil vítimas de 60 nacionalidades
do WTC - e o outro como o dos afegãos.
Os primeiros são multinacionais, liberais, democráticos,
desprovidos de preconceitos étnicos ou religiosos,
cada vez mais cultos e ricos, e pertencem à moderna
sociedade aberta. Os segundos são fechados, intolerantes,
fanáticos, analfabetos, machistas, frustrados,
cruéis e enraizados na forma de vida da idade
da pedra.
Os artigos recentes de Paul Johnson, Vargas Llosa,
Montaner, e de alguns lúcidos brasileiros do mesmo
calibre formulam aspectos variados de uma dicotomia
que, há mais de 50 anos, já fôra intuída por filósofos
como Bergson e Popper, em ensaios de olímpica
beleza. A virtude essencial dos "modernos"
é a coragem, a tolerância com as diferenças, a
repressão à violência cega do terror e do crime
organizados, e a famosa "eterna vigilância"
em defesa da liberdade a que se referiu o irlandês
John Curran, em 1790. O vício dos "afegãos"
constela o que há de mais depravado na alma humana,
a covardia, o ressentimento, a inveja vingativa,
o machismo pueril dos gorilas e o agarrar desesperado
a tradições trogloditas, nas trevas da Caverna
que foi Platão o primeiro a descrever em termos
filosóficos. Nas multidões histéricas do Caliban
vociferante e maltrapilho, queimando bandeiras
americanas, contemplo a imagem visual, mais imediata
e feroz, da Imbecilidade Coletiva do tipo reacionário
Taliban. O que me tem impressionado no entanto,
nestes últimos dias, é a extensão alarmante e
considerável que já tomou a afeganização em nosso
país.
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