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Jornal da Tarde 21 de janeiro de 2002
A globalização dos antiglobalistas
A coerência não é virtude facilmente encontradiça entre os homens. Menos ainda entre ideólogos

 
 

A coerência não é uma virtude facilmente encontradiça entre os homens. Menos ainda entre ideólogos. Sua carência é absoluta entre intelectuários brasileiros, nossos Talibans e estes procuram, no momento, estabelecer seu quartel-general em Porto Alegre onde preparam um denominado Fórum Social Mundial em que objetivarão, confusamente, combater o capitalismo e a globalização, preparando uma nova Revolução Mundial. Mas examinem a lógica que se circunscreve ao uso de uma mantra e de um esconjuro. Se em vez de "mundial", o Fórum fosse "global", as duas palavras tendo exatamente o mesmo sentido, o termo passaria automaticamente de mantra a esconjuro, e seria o propósito do Fórum exatamente o oposto. A palavra "social" é sempre um mantra. Tudo se quer social, ainda que a sociedade seja composta, necessariamente, de indivíduos mais ou menos livres, inteligentes e responsáveis. Gritem "Socialismo", "Justiça social", "Social-democracia", "Consciência social", "Exclusão social" e até mesmo "Liberalismo social"... e lá vão todos os clérigos e a gauchada, originariamente castilhista, receber guerrilheiros mexicanos, narcotraficantes colombianos, terroristas árabes, bagunceiros europeus, drogados e roqueiros americanos, e até um bovino francês condenado como violador da propriedade alheia e perturbador da ordem pública. Para reunir toda essa gente, financiada por um milionário francês, a Ford Foundation, Jesuítas belgas e os aludidos narcotraficantes entre outros, organizadores e participantes usam o que há de mais recente na tecnologia global: telefones e computadores para comunicações instantâneas, aviões a jato para transporte, cartões de crédito e contas bancárias, passaportes para a travessia de fronteiras ainda existentes, uma ideologia global e o uso de línguas estrangeiras, principalmente o inglês para entendimento mútuo, digamos entre um bicha tupiniquim, uma feminista yemenita e um pedófilo de Louvain. Muita coisa é global nestes dias, inclusive a estupidez.

O mais curioso no fenômeno é que sua fonte é principalmente marxista e foi Marx, fundador da Primeira Internacional, um globalista entusiasta. Investigando melhor o que se passa, se descobre sem grande surpresa que a motivação principal dos arruaceiros de Seattle, Washington ou Gênova é a inimizade às pistas de ski de Davos, através da utilização de meios técnicos super-avançados, proporcionados pelo capitalismo. O que me faz lembrar a rebordosa de 1968. Naqueles distúrbios, que se estenderam de Paris a Tóquio, e de Berkeley a Zurique, o pessoal jovem vociperambulava pelas ruas, gritando slogans contra a autoridade paterna (Papa pue! era o da Sorbonne) enquanto dos papais ricos recebia suas mesadas. A anarquia era a principal característica, como hoje também, fenômeno normal em rapazolas em crise de puberdade e velhos coroas que não superaram seu complexo de Édipo.

Mais séria é a mendacidade e a velhacaria populista. No arrazoado em debate, o argumento geralmente utilizado é que a globalização "está empobrecendo os pobres". Tenho em mãos o Índice de Desenvolvimento do Banco Mundial - uma instituição que os liberais detestam, mas fornece dados seriamente compilados - e descubro que as duas maiores populações do mundo, outrora consideradas as mais pobres, a chinesa e a indiana (cerca de 2,3 bilhões de almas, mais de um terço da que cobre o planeta), têm sido beneficiadas nos últimos quatro anos por um crescimento anual médio de cerca de 7%. A China vive, oficialmente, sob um regime comunista que protege a economia de mercado de suas cidades litorâneas e a Índia obedece a um governo dito "conservador". Antigos paradigmas da indigência, estes povos se tornaram exemplos do milagre do "capitalismo selvagem". Mesmo na África, o continente dos miseráveis representado como a eterna vítima do imperialismo e cobiça colonial, a maioria dos países registra progresso rápido de suas economias. O desastre ocorre naqueles que foram ou são devastados por guerras civis, Angola, Congo, Sierra Leone, Burundi, Nigéria. Alguns, que conseguiram sair do buraco como a Etiópia e Moçambique, são favorecidos com índices anuais de crescimento de 6 a 7%. Culpar a globalização em termos econômicos constitui uma variação desafinada em torno da cacofonia do bom-senso. Finalmente, que se mencione a Ecologia: o que é esta senão a expressão de uma preocupação global com o equilíbrio natural do planeta, só podendo ser solucionado globalmente?

O Fórum Anti-Davos formalizou sua organização permanente, sem endereço fixo, mas com financiamento garantido. Para maiores detalhes sobre o evento consulte a Executive Intelligence Review, de 24.8.2001.