| Com o título
Lê Malheur du Siècle, publicou Alain
Besançon, em 1998, uma das melhores análises
do totalitarismo de esquerda e de direita
já empreendida em nossa época. Professor
do Institut de France e considerado o maior especialista
francês em Marxismo e Kremlinologia, é
Besançon o autor de um grande número
de livros dedicados a exorcizar o fantasma da ideologia
que tamanho fascínio exerceu sobre o mundo
do século XX uma atração
fatal que teve como resultado, em âmbito global,
a morte de cerca de duzentos milhões de seres
humanos. Publicado em português pela Bertrand,
o pequeno livro vem curiosamente acompanhado de
orelhas com uma crítica à
própria tese da obra por parte de seu tradutor.
Entretanto, seguindo na trilha de um trabalho anterior,
La Falsification du Bien (1985) no qual se dedicou
especificamente ao estudo comparativo do pensamento
de George Orwell e do grande filósofo russo
do século XIX, Vladimir Soloviev Besançon
insiste em duas teses principais.
A primeira é que esses gêmeos
heterozigotos, o nazismo e o comunismo,
se caracterizaram pelo empenho que ambos demonstraram
em criar uma aparência de defesa de belos
ideais de patriotismo, progresso, justiça
e liberdade a fim de esconder sua natureza essencialmente
perversa, cruel e opressora. O Bem foi assim falsificado
como acentua o autor. Criou-se uma cultura da
Desinformação e da Mentira, no sentido
do aforismo de Kafka que a mentira se tornou
a Ordem Universal. Orwell satirizou magnificamente
o fenômeno com sua noção de
duplo-pensar ou novilíngua...
A paz é a guerra, a mentira
é a verdade, a tirania é
a liberdade, a polícia é
o Departamento do Amor, e
assim por diante. Em nosso país estamos
assistindo a um modelo quase perfeito do processo
pelo qual os dezeseis mil candidatos às
próximas eleições, sendo
seis para a Presidência da República,
mentem, desmentem e falsificam a Verdade, proclamando
ideais exatamente opostos aos que cultivam e às
suas verdadeiras intenções na conquista
do poder. Em outras palavras, quanto mais falam
em desenvolvimento e justiça social,
tanto mais se esforçam em preservar um
regime injusto que, inevitavelmente, mantém
na pobreza as massas excluídas do suntuoso
banquete patrimonialista da Riqueza Pública
de que se locupletam os milhões de políticos,
burocratas, amigos e familiares. A retórica
é progressista, o desígnio secreto
é o atraso. Eis em suma o que chama Besançon
de falsificação do Bem.
Como explica o autor, os dois totalitarismos
se colocam como objetivo chegar a uma sociedade
perfeita, destruindo os elementos negativos que
a ela se opõem. Pretendem ser filantrópicos,
cultivando um ideal que suscitou adesões
entusiásticas e atos heróicos. Mas
o que os aproxima é que ambos se dão
o direito e mesmo o dever de matar,
e o fazem com métodos semelhantes e em
escala absolutamente inédita na história.
A segunda tese de Besançon é que
a memória histórica não os
tratou de forma igual. Enquanto o nazismo foi
destruído e se tornou objeto de uma execração
universal, que não diminui com o tempo
- o comunismo ao contrário, em que
pese inclusive sua queda, se beneficia de uma
amnésia e anistia que se valem do consentimento
quase unânime, não apenas de seus
partidários, pois eles ainda existem, como
também de seus inimigos mais determinados
e até mesmo de suas vítimas.
Quando o caixão de Drácula se abre,
como por exemplo pela publicação
de O Livro Negro do Comunismo, o escândalo
dura pouco e o caixão se fecha, sem que
sejam as cifras seriamente contestada. A diferenciação
no tratamento dos dois fenômenos criminosos
é realmente admirável. Há
poucos dias recebi, por exemplo, uma publicação
dos Jesuítas de Brasília que dirigem
a CNB do PT. Eles descrevem em termos candentes
o bombardeio de Hiroshima com o intuito evidente
de denunciar a crueldade do capitalismo
americano. Nenhuma palavra faz referência
aos cinco milhões de chineses que foram
mortos durante a invasão nipônica,
nem tampouco que num único episódio,
o massacre de Nanking em fevereiro de 1938, o
exército japonês foi responsável
pelo dobro de vítimas sofridas nas duas
cidades atomizadas em 1945. Nenhuma referência
é feita tampouco às centenas de
milhares de cristãos assassinados pelos
comunistas na China e no Vietnam, depois da subida
ao poder dos respectivos governos populares.
Vide, sobre esse último caso, o livro de
Robert Royal Mártires Católicos
do Século XX (Lisboa 2001). Acontece
que principiei a carreira na China, 1941, sendo
testemunho direto da brutalidade dos invasores
que, não fosse a bomba de Hiroshima, teriam
ido ao suicídio coletivo, com ele carregando
talvez um milhão de soldados aliados.
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