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É sabido que um dos métodos
mais universalmente praticados por governantes
ameaçados, para amainar conflitos internos,
é o recurso à xenofobia e projeção
de ressentimentos sobre bodes expiatórios
estrangeiros. Um deles já está completamente
pronto, num amplo espectro que vai da esquerda
à extrema-direita: "A culpa é
dos americanos." Nesse sentido quero referir-me
ao recente livro do conhecido ensaísta,
sociólogo e jornalista francês Jean-François
Revel. Em LObsession Anti-Américaine
(Plon, setembro 2002), Revel analisa o funcionamento,
as causas e as inconseqüências dessa
mania.
Insiste especialmente no fato que, muito embora
ambivalente e coincidindo com declarações
quase universais de apoio a Bush após o
11 de setembro, são o antiamericanismo
gauchiste e, "conquanto por motivos diferentes,
o cegamente passional" da extrema-direita,
"uma característica sobretudo francesa".
Insisto neste pormenor. Muito embora os raivosos
movimentos de opinião sejam internacionais
e, no momento, associados ao que há de
mais reacionário, machista e obsoleto no
fanatismo religioso islâmico, são
ainda os maîtres à penser da rive
gauche parisiense os que inspiram e conduzem a
alegada intelligentsia desta Terra dos Papagaios.
Descobri num suelto de renomado intelectual paulista,
por exemplo, uma tradução quase
ipsis litteris de crítica feita por Revel
à incoerente alegação de
serem os americanos, ao mesmo tempo, intervencionistas
e provincianamente isolacionistas. Que haja indícios
de tais tendências contraditórias
no seu comportamento é indiscutível:
a relutância em tomar providências
antecipadas de autodefesa ante a vaga terrorista
levantada pelo fundamentalismo ilustra o fenômeno.
Entretanto, foram os próprios europeus
que, obstinada e insistentemente, solicitaram
a intervenção do xerife ianque na
Bósnia e Kosovo. Afinal de contas, a guerra
civil iugoslava resulta de resquícios do
tribalismo europeu e não deveria caber
aos americanos qualquer responsabilidade em debelá-la.
Por isso pergunta Revel: "Por que tanto ódio?...
e tantos erros!" Aliás, com sua ironia
feroz, o próprio autor aponta para a fonte
de muito antiamericanismo no impulso congênito
dos chamados "liberals" suicidas da
Nova Inglaterra. O pessoal se queixa da invasão
de vocábulos ingleses em nossas línguas,
enquanto na Flórida e Califórnia
se discute acirradamente a inclusão do
espanhol das escolas públicas como idioma
obrigatório. E se o "sonho americano"
é uma fantasia grotesca, inexplicável
seria a circunstância de ser a população
dos EUA composta por 60 milhões de imigrantes,
reforçados anualmente por mais de 1 milhão
de legais e clandestinos, inclusive brasileiros.
Além de arguto observador, é Revel
profundo psicólogo em sua análise
do inconsciente coletivo. São a inveja
e o ressentimento o que esclarece a obsessão,
sobretudo dos franceses. Estes não perdoam
os de lá de os haverem salvo, por duas
vezes, dos alemães, enquanto os de cá
recordam Rochambeau, La Fayette e Tocqueville
como os obrigando a um serviço que os próprios
europeus, decadentes, não são mais
capazes de realizar. "LAmérique comme
Échappatoire", diz Revel: "Vê-se
bem para que nos servem os EUA - para nos consolar
de nossos fracassos, alimentando a fábula
que o que fazem é pior do que o que fazemos
- e todo o mal aqui existente neles tem sua origem.
São portanto responsáveis de tudo
que não anda bem no mundo."
A desinformação aberrante é
o condimento instrumental da gororoba utilizada
pelos rancorosos ressentidos - exemplificados
por um certo Thierry Meyssan, que insiste ser
a CIA responsável pela destruição
das Torres Gêmeas de Nova York; e por nosso
bofe que lamenta terem sido só dois e não
duas dúzias os aviões que as atingiram.
De maior prestígio, Olivier Duhamel atribui
ao "modelo degenerado da democracia americana"
o sucesso de Le Pen no primeiro turno das eleições
presidenciais. A manobra de calúnia e imaginação
fantasmagórica é conhecida. Aqui,
muita gente continua a acreditar que o Muro de
Berlim nunca existiu e foram submarinos americanos
que afundaram os navios brasileiros, em agosto
1942, para justificar a ocupação
do Nordeste.
Evidentemente, a operação contra
o Iraque tem como único objetivo apossar-se
dos campos de petróleo mais ricos do mundo.
O próprio ex-chanceler Védrine,
que nem mesmo sabe da existência de nosso
país no mapa geopolítico mundial,
inventou o termo "hiperpotência"
para salientar o arrogante desarvoramento imperialista
dos americanos. Os mais lúcidos já
descobriram, porém, que na realidade o
problema não é a América.
O problema é a globalização
liberal que ela representa. É o desespero
dos estatizantes reacionários, coletivistas
e xenófobos o que os induz a procurar uma
escapatória de vulto para suas frustrações.
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