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Jornal da Tarde, 25 de novembro de 2002
Antiamericanismo obsessivo
São a inveja e o ressentimento o que esclarecem a obsessão.

 
 

É sabido que um dos métodos mais universalmente praticados por governantes ameaçados, para amainar conflitos internos, é o recurso à xenofobia e projeção de ressentimentos sobre bodes expiatórios estrangeiros. Um deles já está completamente pronto, num amplo espectro que vai da esquerda à extrema-direita: "A culpa é dos americanos." Nesse sentido quero referir-me ao recente livro do conhecido ensaísta, sociólogo e jornalista francês Jean-François Revel. Em L’Obsession Anti-Américaine (Plon, setembro 2002), Revel analisa o funcionamento, as causas e as inconseqüências dessa mania.

Insiste especialmente no fato que, muito embora ambivalente e coincidindo com declarações quase universais de apoio a Bush após o 11 de setembro, são o antiamericanismo gauchiste e, "conquanto por motivos diferentes, o cegamente passional" da extrema-direita, "uma característica sobretudo francesa". Insisto neste pormenor. Muito embora os raivosos movimentos de opinião sejam internacionais e, no momento, associados ao que há de mais reacionário, machista e obsoleto no fanatismo religioso islâmico, são ainda os maîtres à penser da rive gauche parisiense os que inspiram e conduzem a alegada intelligentsia desta Terra dos Papagaios.

Descobri num suelto de renomado intelectual paulista, por exemplo, uma tradução quase ipsis litteris de crítica feita por Revel à incoerente alegação de serem os americanos, ao mesmo tempo, intervencionistas e provincianamente isolacionistas. Que haja indícios de tais tendências contraditórias no seu comportamento é indiscutível: a relutância em tomar providências antecipadas de autodefesa ante a vaga terrorista levantada pelo fundamentalismo ilustra o fenômeno. Entretanto, foram os próprios europeus que, obstinada e insistentemente, solicitaram a intervenção do xerife ianque na Bósnia e Kosovo. Afinal de contas, a guerra civil iugoslava resulta de resquícios do tribalismo europeu e não deveria caber aos americanos qualquer responsabilidade em debelá-la. Por isso pergunta Revel: "Por que tanto ódio?... e tantos erros!" Aliás, com sua ironia feroz, o próprio autor aponta para a fonte de muito antiamericanismo no impulso congênito dos chamados "liberals" suicidas da Nova Inglaterra. O pessoal se queixa da invasão de vocábulos ingleses em nossas línguas, enquanto na Flórida e Califórnia se discute acirradamente a inclusão do espanhol das escolas públicas como idioma obrigatório. E se o "sonho americano" é uma fantasia grotesca, inexplicável seria a circunstância de ser a população dos EUA composta por 60 milhões de imigrantes, reforçados anualmente por mais de 1 milhão de legais e clandestinos, inclusive brasileiros.

Além de arguto observador, é Revel profundo psicólogo em sua análise do inconsciente coletivo. São a inveja e o ressentimento o que esclarece a obsessão, sobretudo dos franceses. Estes não perdoam os de lá de os haverem salvo, por duas vezes, dos alemães, enquanto os de cá recordam Rochambeau, La Fayette e Tocqueville como os obrigando a um serviço que os próprios europeus, decadentes, não são mais capazes de realizar. "LAmérique comme Échappatoire", diz Revel: "Vê-se bem para que nos servem os EUA - para nos consolar de nossos fracassos, alimentando a fábula que o que fazem é pior do que o que fazemos - e todo o mal aqui existente neles tem sua origem. São portanto responsáveis de tudo que não anda bem no mundo."

A desinformação aberrante é o condimento instrumental da gororoba utilizada pelos rancorosos ressentidos - exemplificados por um certo Thierry Meyssan, que insiste ser a CIA responsável pela destruição das Torres Gêmeas de Nova York; e por nosso bofe que lamenta terem sido só dois e não duas dúzias os aviões que as atingiram. De maior prestígio, Olivier Duhamel atribui ao "modelo degenerado da democracia americana" o sucesso de Le Pen no primeiro turno das eleições presidenciais. A manobra de calúnia e imaginação fantasmagórica é conhecida. Aqui, muita gente continua a acreditar que o Muro de Berlim nunca existiu e foram submarinos americanos que afundaram os navios brasileiros, em agosto 1942, para justificar a ocupação do Nordeste.

Evidentemente, a operação contra o Iraque tem como único objetivo apossar-se dos campos de petróleo mais ricos do mundo. O próprio ex-chanceler Védrine, que nem mesmo sabe da existência de nosso país no mapa geopolítico mundial, inventou o termo "hiperpotência" para salientar o arrogante desarvoramento imperialista dos americanos. Os mais lúcidos já descobriram, porém, que na realidade o problema não é a América. O problema é a globalização liberal que ela representa. É o desespero dos estatizantes reacionários, coletivistas e xenófobos o que os induz a procurar uma escapatória de vulto para suas frustrações.