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Jornal da Tarde, 14 de outubro de 2002
Antiliberalismo 2002
Pois os totalitários se sentem glasnostálgicos.

 
 

Desejo aqui referir-me ao pequeno livro de David Henderson, Antiliberalismo 2000, publicado pelo Institute of Economic Affairs (IEA) e traduzido graças à editora da UniverCidade, do Rio. Henderson, que foi chefe de Departamento na OCDE, lecionou na University College de Londres e foi membro do Banco Mundial, distingue-se particularmente pelo bom humor crítico de seus ensaios. Quanto ao IEA, foi o primeiro e ainda é um dos mais prestigiosos "tanques da cuca" do mundo. Nos anos 80, seduziu lady Thatcher ao caminho do renascimento liberal, induzindo a prosperidade econômica do então decadente Reino Unido e assim estimulando a reagonomics e o maior surto de crescimento da história dos EUA. O que chama a atenção no trabalho do autor é que, como vários outros observadores, já se deu conta de que, após a primeira vaga de euforia no annus mirabilis de 1989, com a queda do Muro de Berlim, a independência da Europa oriental e o colapso do comunismo soviético, uma reação "coletivista" agora se manifesta em crescente desenvoltura.
Os totalitários se sentem glasnostálgicos. Se é verdade que o socialismo e a própria social-democracia alemã e escandinava estão em franco declínio, bastante simples é o motivo do fenômeno da reação antiliberal e antiglobalista em países culturalmente subdesenvolvidos como o nosso e no meio de grupelhos de melancias esquerda e direita. A vitória dos totalitários no passado foi invariavelmente acompanhada da repressão mais tenebrosa. Milhões de "inimigos da revolução" foram exilados, abafados, perseguidos pela Gestapo ou a KGB, e hecatombes eliminadas em campos de concentração no que se denomina, justamente, a "sociedade carcerária" - com o paredón de Fidel e de Che como modelo.
O liberalismo, em contraste, é por definição tolerante. Generosamente concedemos liberdade de expressão, manifestação e associação mesmo aos criminosos que objetivam nossa própria destruição. O exemplo é o da Alemanha de Weimar - assim explicando a aberrante ignorância da ex-ministra da Justiça de Schröder que, aparentemente, pensa ser Hitler um americano... Em 1989/91, a transição para a democracia na Europa oriental se processou através do que foi qualificado como a "Revolução de Veludo". Nosso regime militar, assim como o de Pinochet no Chile, preparou o retorno à democracia sem alarde. A "abertura" dos anos 80 foi coroada com a obra-prima de burrice coletiva da Constituição do "dr." Ulysses.
Não por acaso, o primeiro filósofo importante do liberalismo, John Locke, foi também o autor da Epistola de Tolerantia, de 1689. Os liberais, somos obrigados a combater com as mãos atadas. De outro modo, estaríamos traindo os princípios e o próprio arrazoado fundamental da liberdade. Refeitos do susto, entretanto, choque horrendo e desapontamento, os sobreviventes do totalitarismo reerguem a cabeça - enquanto o processo de abertura, privatização e globalização segue seu curso como um elefante que abana as orelhas para afastar as moscas. O paradoxo mais extraordinário se descobre na China. O princípio "um país, dois sistemas" criou na orla litorânea uma vibrante economia capitalista, enquanto o resto miserável da imensa nação se mantém sob o "despotismo oriental" dos mandarins tradicionais.
A coexistência pacífica da sociedade aberta e do intervencionismo estatal autoritário é o que, obviamente, pretendem realizar os arautos da "Terceira Via". No Brasil, isto é exemplificado pelo barbudo metalúrgico em terno Armani, discorrendo sobre economia como próspero empresário e fraternizando com militares que sonham com sua "bombinha" iraquiana... Objetivo óbvio.
Políticos e burocratas desejam continuar sugando o setor produtivo do mercado enquanto mais engordam seu dinossauro orçamentívoro, custeando a Nomenklatura sobrevivente graças aos lucros da empresa privada. Henderson analisa modismos como "empobrecimento", "marginalização", "exclusão social", "capital especulativo" e outras tolices que nossos inimigos, irresistivelmente seduzidos pelos slogans, termos demagógicos, pelas falácias e pelos dados falsificados, utilizam para deter, senão comprometer, o processo histórico iniciado nos anos 80. Demonstrando a extensão e profundidade quase universal do fenômeno reacionário, Henderson dá ao livro um subtítulo irônico - "O surgimento do coletivismo do novo milênio" - ao fazer um trocadilho divertido com o "milenarismo" cristão que se secularizou nas badernas de Seattle, Washington, Praga, Quebec, Davos, Gênova ou Porto Alegre. E, repetindo o "que fazer?" de Lenin em 1902, disseca o patético demônio que retorna ao mundo, seguido por cem milhões de espectros e a memória de incomensuráveis catástrofes.