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Desejo aqui referir-me ao pequeno
livro de David Henderson, Antiliberalismo 2000,
publicado pelo Institute of Economic Affairs (IEA)
e traduzido graças à editora da
UniverCidade, do Rio. Henderson, que foi chefe
de Departamento na OCDE, lecionou na University
College de Londres e foi membro do Banco Mundial,
distingue-se particularmente pelo bom humor crítico
de seus ensaios. Quanto ao IEA, foi o primeiro
e ainda é um dos mais prestigiosos "tanques
da cuca" do mundo. Nos anos 80, seduziu lady
Thatcher ao caminho do renascimento liberal, induzindo
a prosperidade econômica do então
decadente Reino Unido e assim estimulando a reagonomics
e o maior surto de crescimento da história
dos EUA. O que chama a atenção no
trabalho do autor é que, como vários
outros observadores, já se deu conta de
que, após a primeira vaga de euforia no
annus mirabilis de 1989, com a queda do Muro de
Berlim, a independência da Europa oriental
e o colapso do comunismo soviético, uma
reação "coletivista" agora
se manifesta em crescente desenvoltura.
Os totalitários se sentem glasnostálgicos.
Se é verdade que o socialismo e a própria
social-democracia alemã e escandinava estão
em franco declínio, bastante simples é
o motivo do fenômeno da reação
antiliberal e antiglobalista em países
culturalmente subdesenvolvidos como o nosso e
no meio de grupelhos de melancias esquerda e direita.
A vitória dos totalitários no passado
foi invariavelmente acompanhada da repressão
mais tenebrosa. Milhões de "inimigos
da revolução" foram exilados,
abafados, perseguidos pela Gestapo ou a KGB, e
hecatombes eliminadas em campos de concentração
no que se denomina, justamente, a "sociedade
carcerária" - com o paredón
de Fidel e de Che como modelo.
O liberalismo, em contraste, é por definição
tolerante. Generosamente concedemos liberdade
de expressão, manifestação
e associação mesmo aos criminosos
que objetivam nossa própria destruição.
O exemplo é o da Alemanha de Weimar - assim
explicando a aberrante ignorância da ex-ministra
da Justiça de Schröder que, aparentemente,
pensa ser Hitler um americano... Em 1989/91, a
transição para a democracia na Europa
oriental se processou através do que foi
qualificado como a "Revolução
de Veludo". Nosso regime militar, assim como
o de Pinochet no Chile, preparou o retorno à
democracia sem alarde. A "abertura"
dos anos 80 foi coroada com a obra-prima de burrice
coletiva da Constituição do "dr."
Ulysses.
Não por acaso, o primeiro filósofo
importante do liberalismo, John Locke, foi também
o autor da Epistola de Tolerantia, de 1689. Os
liberais, somos obrigados a combater com as mãos
atadas. De outro modo, estaríamos traindo
os princípios e o próprio arrazoado
fundamental da liberdade. Refeitos do susto, entretanto,
choque horrendo e desapontamento, os sobreviventes
do totalitarismo reerguem a cabeça - enquanto
o processo de abertura, privatização
e globalização segue seu curso como
um elefante que abana as orelhas para afastar
as moscas. O paradoxo mais extraordinário
se descobre na China. O princípio "um
país, dois sistemas" criou na orla
litorânea uma vibrante economia capitalista,
enquanto o resto miserável da imensa nação
se mantém sob o "despotismo oriental"
dos mandarins tradicionais.
A coexistência pacífica da sociedade
aberta e do intervencionismo estatal autoritário
é o que, obviamente, pretendem realizar
os arautos da "Terceira Via". No Brasil,
isto é exemplificado pelo barbudo metalúrgico
em terno Armani, discorrendo sobre economia como
próspero empresário e fraternizando
com militares que sonham com sua "bombinha"
iraquiana... Objetivo óbvio.
Políticos e burocratas desejam continuar
sugando o setor produtivo do mercado enquanto
mais engordam seu dinossauro orçamentívoro,
custeando a Nomenklatura sobrevivente graças
aos lucros da empresa privada. Henderson analisa
modismos como "empobrecimento", "marginalização",
"exclusão social", "capital
especulativo" e outras tolices que nossos
inimigos, irresistivelmente seduzidos pelos slogans,
termos demagógicos, pelas falácias
e pelos dados falsificados, utilizam para deter,
senão comprometer, o processo histórico
iniciado nos anos 80. Demonstrando a extensão
e profundidade quase universal do fenômeno
reacionário, Henderson dá ao livro
um subtítulo irônico - "O surgimento
do coletivismo do novo milênio" - ao
fazer um trocadilho divertido com o "milenarismo"
cristão que se secularizou nas badernas
de Seattle, Washington, Praga, Quebec, Davos,
Gênova ou Porto Alegre. E, repetindo o "que
fazer?" de Lenin em 1902, disseca o patético
demônio que retorna ao mundo, seguido por
cem milhões de espectros e a memória
de incomensuráveis catástrofes.
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