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No debate ideológico
dominante no momento desempenha papel saliente
a questão de saber se existe uma ética
no sistema de mercado e qual a relação
entre os conceitos de eficiência, moralidade
e justiça na economia aberta, livre e natural,
em confronto com esses mesmos conceitos num regime
socialista ideal. Especificamente, o problema
crítico é saber se é válido
o igualitarismo radical, a ser imposto pelo Estado.
Será verdadeira a presunção
que só os marxistas, trabalhistas, comunistas,
populistas ou petistas guardam, com a necessária
pureza e autenticidade, o sagrado monopólio
da compaixão, como herdeiros de um cristianismo
secularizado? Será correta a alegação
de que só eles se preocupam com a sorte
dos pobres, desamparados, famintos, viúvas,
crianças abandonadas, sofredores em hospitais
públicos, desempregados, migrantes afavelados
e outros "excluídos"? Cabe a
denúncia que os defensores do mercado se
caracterizariam pelo egoísmo nojento, a
crueldade, competitividade selvagem, desnacionalização
e espírito de destruição?
Terá razão
este grande e velho amigo meu que, em livro recente,
define o liberalismo como "uma das teorias
mais cínicas que o homem moderno... tem
inventado"? Depois de levantar contra os
liberais a acusação de "hipocrisia...
ignomínia, afronta à nossa sensibilidade
moral, sórdido destempero" e outros
qualificativos lisonjeiros, acusa-nos de sermos
"bonecos falando como ventríloquos"
que elogiam suas próprias virtudes ao propor
o princípio de "igualdade de oportunidades".
Vejam bem! Este meu amigo não é
da esquerda. É mesmo ultraconservador.
Ele detesta a separação da Igreja
e do Estado e propõe como modelo ideal
de governo o da Inglaterra da Rainha Elisabeth
I (+1608). Na "sinistra", encontramos
um pseudo "frei" que denuncia o chamado
"neoliberalismo" por gerar "pedófilos,
tarados, estupradores e assassinos de mulheres"
(Veja de 18/10/2000). À vista de tais alegações
extremadas, é o caso de supormos que só
uma economia controlada pelo Estado seria capaz
de atender, eficientemente, aos ditames morais
de fraternidade e solidariedade universais - sendo
a democracia liberal um regime aberrante. Absurdo?
Não tanto.
A opinião pública
continua vulnerável aos argumentos que
atribuem ao sistema econômico vigente em
quase todo o Planeta, à iniciativa privada,
aos banqueiros e empresários, às
bolsas de valores, à sociedade aberta global
(Popper) - em suma, ao capitalismo -, uma colocação
eticamente monstruosa. Tido como "selvagem",
quem se dá conta de que esse sistema de
mercado livre, na linha de Adam Smith, nunca foi
praticado senão de maneira precaríssima
nestas belas praias de Pindorama, descobertas
há 500 anos em sua pristina naturalidade?
E quantos são conscientes de que o coletivismo
autoritário e católico imemorial,
dentro da estrutura patrimonialista em vigor,
estimula o crescimento do Estado, é responsável
pela inflação e a miséria,
colabora para a prosperidade de uma classe política
parasitária, junto com uma imensa burocracia
corporativista, ociosa e corrupta? Não
é ela que detém nossa emergência
como nação moderna porque consome
na ineficiência e no desperdício
quase 40% do PIB? O lucro dos empresários,
os "oligopólios", a "especulação"
financeira, o aumento de preços nos supermercados,
os aluguéis e as mensalidades escolares,
os juros altos, a enorme carga tributária
que pesa sobre o setor privado, os entraves grosseiros
levantados pelo funcionalismo burocrático
e outros fenômenos de que resulta a pressão
inexorável do déficit público
são invariáveis, ainda que sempre
inconscientemente atribuídos ao "egoísmo"
inerente a uma organização capitalista
fantasmagórica. Por que, diabo, nunca é
isso desmentido? Ora, a história e a prova
empírica de todo o mundo desenvolvido da
América do Norte e Europa Ocidental, com
3/4 do PIB mundial, demonstram que é, precisamente,
o mercado livre, eficiente e independente da mania
intervencionista o que promoveu o bem comum de
toda a sociedade moderna. Com exceção
de Cuba e Coréia do Norte, mesmo os países
ex-comunistas já disso se convenceram.
A própria China criou a "área
especial" litorânea, que registra o
maior crescimento capitalista do Planeta. Por
que, então, para tantos intelectuais brilhantes,
o "liberalismo social" do saudoso José
Guilherme Merquior ou a "social-democracia"
do brilhante professor de sociologia, que há
sete anos nos governa, se tornaram a predileta
receita conciliatória dos que relutam em
abandonar seu ilusório coletivismo milenarista?
O que é essa misteriosa Terceira Via, nunca
exatamente definida? Por que prevalece a corrupção
semântica? Em que base as calúnias
dos filisteus contra o sistema triunfante depois
de 1989/91? Que podemos fazer para esclarecer
o distinto público?
Digam-me, caros leitores...
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