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Jornal da Tarde, 13 de maio de 2002
Capitalismo e socialismo

 
 

No debate ideológico dominante no momento desempenha papel saliente a questão de saber se existe uma ética no sistema de mercado e qual a relação entre os conceitos de eficiência, moralidade e justiça na economia aberta, livre e natural, em confronto com esses mesmos conceitos num regime socialista ideal. Especificamente, o problema crítico é saber se é válido o igualitarismo radical, a ser imposto pelo Estado. Será verdadeira a presunção que só os marxistas, trabalhistas, comunistas, populistas ou petistas guardam, com a necessária pureza e autenticidade, o sagrado monopólio da compaixão, como herdeiros de um cristianismo secularizado? Será correta a alegação de que só eles se preocupam com a sorte dos pobres, desamparados, famintos, viúvas, crianças abandonadas, sofredores em hospitais públicos, desempregados, migrantes afavelados e outros "excluídos"? Cabe a denúncia que os defensores do mercado se caracterizariam pelo egoísmo nojento, a crueldade, competitividade selvagem, desnacionalização e espírito de destruição?

Terá razão este grande e velho amigo meu que, em livro recente, define o liberalismo como "uma das teorias mais cínicas que o homem moderno... tem inventado"? Depois de levantar contra os liberais a acusação de "hipocrisia... ignomínia, afronta à nossa sensibilidade moral, sórdido destempero" e outros qualificativos lisonjeiros, acusa-nos de sermos "bonecos falando como ventríloquos" que elogiam suas próprias virtudes ao propor o princípio de "igualdade de oportunidades". Vejam bem! Este meu amigo não é da esquerda. É mesmo ultraconservador. Ele detesta a separação da Igreja e do Estado e propõe como modelo ideal de governo o da Inglaterra da Rainha Elisabeth I (+1608). Na "sinistra", encontramos um pseudo "frei" que denuncia o chamado "neoliberalismo" por gerar "pedófilos, tarados, estupradores e assassinos de mulheres" (Veja de 18/10/2000). À vista de tais alegações extremadas, é o caso de supormos que só uma economia controlada pelo Estado seria capaz de atender, eficientemente, aos ditames morais de fraternidade e solidariedade universais - sendo a democracia liberal um regime aberrante. Absurdo? Não tanto.

A opinião pública continua vulnerável aos argumentos que atribuem ao sistema econômico vigente em quase todo o Planeta, à iniciativa privada, aos banqueiros e empresários, às bolsas de valores, à sociedade aberta global (Popper) - em suma, ao capitalismo -, uma colocação eticamente monstruosa. Tido como "selvagem", quem se dá conta de que esse sistema de mercado livre, na linha de Adam Smith, nunca foi praticado senão de maneira precaríssima nestas belas praias de Pindorama, descobertas há 500 anos em sua pristina naturalidade? E quantos são conscientes de que o coletivismo autoritário e católico imemorial, dentro da estrutura patrimonialista em vigor, estimula o crescimento do Estado, é responsável pela inflação e a miséria, colabora para a prosperidade de uma classe política parasitária, junto com uma imensa burocracia corporativista, ociosa e corrupta? Não é ela que detém nossa emergência como nação moderna porque consome na ineficiência e no desperdício quase 40% do PIB? O lucro dos empresários, os "oligopólios", a "especulação" financeira, o aumento de preços nos supermercados, os aluguéis e as mensalidades escolares, os juros altos, a enorme carga tributária que pesa sobre o setor privado, os entraves grosseiros levantados pelo funcionalismo burocrático e outros fenômenos de que resulta a pressão inexorável do déficit público são invariáveis, ainda que sempre inconscientemente atribuídos ao "egoísmo" inerente a uma organização capitalista fantasmagórica. Por que, diabo, nunca é isso desmentido? Ora, a história e a prova empírica de todo o mundo desenvolvido da América do Norte e Europa Ocidental, com 3/4 do PIB mundial, demonstram que é, precisamente, o mercado livre, eficiente e independente da mania intervencionista o que promoveu o bem comum de toda a sociedade moderna. Com exceção de Cuba e Coréia do Norte, mesmo os países ex-comunistas já disso se convenceram. A própria China criou a "área especial" litorânea, que registra o maior crescimento capitalista do Planeta. Por que, então, para tantos intelectuais brilhantes, o "liberalismo social" do saudoso José Guilherme Merquior ou a "social-democracia" do brilhante professor de sociologia, que há sete anos nos governa, se tornaram a predileta receita conciliatória dos que relutam em abandonar seu ilusório coletivismo milenarista? O que é essa misteriosa Terceira Via, nunca exatamente definida? Por que prevalece a corrupção semântica? Em que base as calúnias dos filisteus contra o sistema triunfante depois de 1989/91? Que podemos fazer para esclarecer o distinto público?

Digam-me, caros leitores...