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Jornal da Tarde, 10 de junho de 2002
Cruzada e jihad islâmica
A Guerra Santa permite a um lado usar certos métodos que, do outro lado, são considerados abomináveis

 
 
Logo após o ataque às Torres Gêmeas de Nova York, o presidente Bush foi acusado de cometer uma gafe ao qualificar de "Cruzada" a guerra contra o terrorismo que iniciara. "Cruzada" possui uma conotação religiosa, considerada ofensiva aos muçulmanos. Entretanto, ninguém parece muito se preocupar com o uso do termo Jihad pelos próprios terroristas, em seus mortíferos ataques contra Israel, Rússia, EUA e outras nações ocidentais.
Jihad é o mesmo que cruzada - uma guerra santa contra infiéis. No primeiro século da era maometana, os sarracenos estenderam seu império, ocupando a península ibérica e cometendo as maiores barbaridades. Mais tarde os turcos conquistaram Constantinopla (Istambul) e, por duas vezes, ameaçaram Viena, no coração da Europa. Se, para muita gente, a presença de Israel em pleno mundo árabe se apresenta como ofensiva a seus brios nacionais, o fato é que quistos islâmicos permanecem na Bósnia, Albânia, Kosovo, Chechênia e Cáucaso. A tolerância de nosso lado permite a milhões de muçulmanos imigrarem para a Europa ocidental e Estados Unidos, onde constroem mesquitas e se arregimentam para o crime, mas eles se irritam sobremodo quando americanos de hábitos liberais transitam pela "terra santa" dos sauditas.
Pelo menos seria essa a justificativa do ódio implacável que Bin Laden e seus assassinos dedicam aos "infiéis", cristãos e judeus.
Faz parte do conceito de Guerra Santa a dicotomia moral que permite a um lado usar de certos métodos que, do outro lado, são considerados abomináveis. Tomei conhecimento desse intrincado dispositivo mental durante minha permanência em Israel onde testemunhei vários casos flagrantes de "duplo-pensar" orwelliano. Certa vez, por exemplo, embarquei num avião da Swissair para Zurique e, no dia seguinte, outro avião da companhia, lotado de suíços e austríacos sem qualquer ligação com o problema palestino, estourou no ar "por engano", com uma bomba terrorista provida de altímetro.
Em suma, ouvimos incessante nhenhenhém, em conferências internacionais, declarações de imprensa e expectorações da Esquerda Festiva sobre abusos aos "direitos humanos", enquanto os terroristas fazem jus a um álibi que lhes permite percorrer impunemente o Ocidente, em suas maquinações macabras.
A aviação é alvo preferido do haxixim por força de sua vulnerabilidade. Mas o romantismo da esquerda ocidental sempre dedicou particular apreço a esses "fumadores de haxixe" cuja causa seria invariavelmente nobre. Recordo que, há cerca de 40 anos, quando se tornou popular o seqüestro de aviões, uma tal de Leila Khaled, "bela e inteligente terrorista" à cata de notoriedade para sua causa, virou heroína da imprensa européia. O avião é uma tecnologia de ponta, uma espécie de "tapete mágico" como nos contos das Mil e Uma Noites.
Ele se presta admiravelmente à tática escabrosa do assassinato em série. A pirataria, outrora por mar, escolheu agora o ar pela comodidade do ataque.
Na Idade Média e princípios da modernidade, os piratas da Argélia e da Líbia teriam, segundo se calcula, carregado mais de um milhão de europeus, até mesmo da longínqua Islândia, para serem vendidos como escravos nos mercados do Oriente Médio. Na Guerra Santa, o haxixim mata o infiel, se não for mais proveitoso escravizá-lo. E aquele que morre na execução de um dever tão sagrado é recompensado com os prazeres das "huris" do Paraíso de Allah, as quais renovam sua virgindade todas as manhãs para enlevo dos fiéis.
Enfim, trata-se de um tipo de ética estranho à nossa mentalidade moderna e certamente essas tradições arcaicas repugnam a grande parte das elites dirigentes islâmicas. Isso explicaria as tensões internas e externas que o fenômeno do fundamentalismo está causando. Olhem para um mapa no Velho Mundo: Palestina, ex-Iugoslávia, Cáucaso, Chechênia, Argélia, Egito, Sudão, Somália, Kahmir, Uzbequistão, Afeganistão, Paquistão, Turquestão chinês e outros Ondelesestão da Ásia Central - em todas as guerras civis e guerras internacionais da atualidade o dedo do Profeta está envolvido por intermédio dos fanáticos que não conhecem outra maneira de solucionar desavenças políticas ou sociais, a não ser pelo punhal, a pistola, metralhadoras, bombas, canhões e mesmo aviões lotados, com tanques cheios... talvez mesmo, eventualmente, um míssil nuclear. É a grande descoberta hedionda do século 21...