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Jornal da Tarde,
28 de outubro de 2002
De Confúcio
a Churchill
Os
próprios divulgadores e controladores dos
"medias" não mais distinguem
a realidade da ficção ideológica.
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Em artigo
recente neste jornal, propõe Alberto Oliva
quatro paradigmas para a sabedoria ou a falta dela,
dos políticos em seus discursos: Mitterand,
Menem, Chávez... Em escala crescente, cada
um deles se caracterizou por executar, quando no
governo, exatamente o contrário do que havia
prometido - Chávez o mais cínico,
o demagogo populista em sua pureza. Mas o quarto
personagem de Oliva é o "estadista"
- o paradigma platônico daquele que, no poder,
reverencia a bela Aletheia, a verdade a cuja virtude
se mantém fiel.
Para mim, o exemplo magnífico de estadista
é Churchill. Considero-o o maior do século.
Prevenindo os britânicos com seis anos de
antecedência sobre a ameaça nazista,
a Churchill coube defendê-los no momento de
mais grave perigo quando, durante a blitz, anunciou
que só lhes tinha a oferecer "sangue,
suor e lágrimas". Quem hoje ousaria
imitá-lo? Terminado vitoriosamente o conflito,
foi pelo voto sumariamente substituído por
um medíocre socialista, não tardando,
porém, que sua extraordinária perspicácia
e coragem o inspirassem a anunciar, insistentemente,
o novo desafio que a democracia liberal do Ocidente
enfrentava. No famoso discurso de Fulton, Missouri,
março 1946, ele lançou o termo "Cortina
de Ferro". Assim desencadeou o prodigioso esforço
de resistência à avalanche soviética
que seria, historicamente, denominada a "Guerra
Fria". Quando o jovem Bush agora nos antecipa
a gravidade da provocação que o fanatismo
religioso islâmico levanta contra a Sociedade
Aberta é de novo Churchill (e não
Hitler, como em ultrajante insulto sugeriu a arrogante
auxiliar de Schröder) que essa atitude nos
traz à mente.
A verdade! Como é difícil cultivá-la
nos negócios coletivos. Dizer o que corresponde
à realidade, eis a mais árdua obrigação
de um estadista! O próprio Churchill notara
que muitos homens regularmente tropeçam na
verdade, mas a maior parte logo se recompõe
e prossegue como se nada ocorrera.
Quinhentos anos antes de Cristo o pensador chinês
Kung Futsê (Confúcio), que tamanha
influência exerceu na formação
filosófica e política do que é
uma das mais antigas civilizações
do planeta, postulava a teoria da "Retificação
dos Nomes" como base de uma sociedade ordeira.
Os termos deveriam corresponder exatamente às
coisas ou eventos referidos. Poucos anos depois,
nascia na Grécia aquele que, em outros termos,
proporia uma tese exatamente paralela, Platão.
Na perspectiva da Academia, a ordem da alma do cidadãos,
seu respeito à verdade e a autenticidade
de sua expressão eram condições
para a ordem da sociedade bem organizada, a polis
em que vivia.
Passaram-se séculos. Com a fantasia distópica
de George Orwell de 1984, uma horrenda versão
é apresentada do que desgraça uma
coletividade totalitária em que padece a
verdade, quando os termos não mais correspondem
a seu sentido e variam os nomes ao sabor da conveniência
oportunista do poder político absoluto. Orwell
cunhou a expressão duplo-pensar, doubléthink.
Ele sarcasticamente descreve a manipulação
semântica efetuada pela ideologia a serviço
dos detentores do poder. No Estado totalitário
de Orwell, enquanto o Departamento do governo dedicado
à divulgação de mentiras ostenta
o título de Ministério da Verdade,
é a Polícia política designada
com o nome de Ministério do Amor, como na
defunta União Soviética em que a imensa
sede moscovita do KGB era a Lubyanka, a "Queridinha".
No Afeganistão dos Talibãs a Polícia
intitulava-se Ministério do Vício
e da Virtude. Em outras palavras, a qualidade é
aquilo que satisfaz as exigências do tirano
fanático, sendo o vício punido com
a lapidação em público. Na
Idade Média, queimava-se como herege quem
não confessasse a Verdade tal como formulada
pelo teólogo de plantão. Ao final,
a mente racional dos súditos é estraçalhada
em benefício da elite dominante, não
mais sendo necessário o uso da força
para a manutenção da ordem. A versão
oficial reduz toda a população à
categoria de uma multidão inerme, desprovida
de julgamento próprio porque mentalmente
condicionada ao comportamento do rebanho que Nietzsche
denominava Herdenmoral. Esta pequena introdução
visa explicar as condições a que foi
submetida a opinião pública em nosso
país, pois, após décadas de
distorção dos termos e desinformação,
os próprios divulgadores e controladores
dos mídia não mais distinguem a realidade
da ficção ideológica - slogans,
lugares-comuns, termos inapropriados, repetição
infantil de conceitos "politicamente corretos",
falsificações primárias de
estatísticos, mal-entendidos, traduções
defeituosas ou antecipações fantásticas
do pensamento desiderativo (wishful thinking). Com
a contaminação perversa da opinião
pública, válida é a visita
ao site redacao@midiasemmascara.org
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