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Jornal da Tarde, 11de novembro de 2002
Do carisma ao sebastianismo
Sempre aparece no caminho do carisma uma bifurcação.

 
 

O problema da liderança carismática foi por Max Weber seriamente estudado em Wirtschaft und Gesellschaft (1921). Consolidada a expressão, tem o conceito sido freqüentemente lembrado na sociologia brasileiro, servindo porém, raramente, para pesquisa monográfica. Além do Euclides da Cunha do formidável Os Sertões, só conheço os trabalhos de Lúcio de Azevedo, em A Evolução do Sebastianismo, e da professora Maria Isaura Pereira de Queiroz, o Messianismo no Brasil e no Mundo. Traçando o paralelo entre Antonio Conselheiro e o Sebastianismo português, eu mesmo ao tema apenas dediquei um capítulo, “Caudilhos, Demagogos e Líderes Carismáticos”, de meu A Utopia Brasileira (Edit. Itatiaia, B.H. 1988). A falha é certamente lamentável pois o resultado das recentes eleições demonstra a atualidade e extrema relevância do fenômeno. Estamos incontestavelmente diante de uma das mais poderosas expressões do carisma que, depois de voltar do esquecimento (três eleições perdidas), cobre-se agora das regalias, benesses e símbolos mais perfeitos dessa forma de dominação política, colocada entre a “tradicional” (feudal ou patrimonialista) e a “racional-legal” do liberalismo democrático. Como o ESTADÃO tem repetidamente demonstrado, a realidade do retorno do Paracleto sob uma forma democrática moderna (ou será pós-moderna?) se encontra no fato que Lula ganhou as eleições e o PT as perdeu. Foi o personagem concreto, heróico, incoerente, retórico, emocional, barbudo e simpático porque, simultaneamente, filho e pai do povo - e não o programa abstrato de um partido, com sua abordagem objetiva da conjuntura político/econômica - o que importou em outub ro passado. Com o Lulismo estamos diante de um novo Esperado, um novo Salvador da Pátria, sucedendo a Luís Carlos Prestes em sua eterna promessa de restauração e triunfo da ideologia coletivista. Não por acaso o chamado Fórum de S.Paulo o apresentou como a personalidade que, graças ao poder intrínseco do Brasil no contexto global, seria capaz de reanimar as expectativas periclitantes do marxismo, derrotado em 1989.

Na época, em rasgo de iluminação messiânica, e bem antes de escrever romances eróticos e entrar para a Academia, Jorge Amado anunciava: “Amanhã, amiga, é dia da liberdade. Sob os céus do Brasil, rotas as cadeias da escravidão, o Cavaleiro da Esperança partirá na frente de seu povo para a festa de construir uma Pátria feliz, livre da escravidão, pátria da alegria, do trabalho, da liberdade e do amor!”... Isto porque a Esquerda há muito remontou no velho cavalo alado, Barak, com que Maomé voou pelas nuvens até a Nova Jerusalém da Utopia profética, num desenvolvimentismo tupiniquim “pós-moderno” que, não por acaso, alimenta simpatias pelos terroristas islâmicos. No maniqueísmo da postura sadamita, o momentoso processo se deve desenvolver pela luta entre o Bem e o Mal. Haverá sempre um bode expiatório exógeno, imediatamente disponível, sobre o qual projetar a culpa pelos malefícios, as derrotas, frustrações e discórdias que inexoravelmente se manifestarão. Euclides compreendeu o percalço. Num trecho extraordinário de sua obra, descreve o Judas para malhar que o “gnóstico bronco” das margens do S.Francisco fabrica, nele depositando suas mágoas e ressentimentos. Mas como acentua Maria Isaura, o líder carismático distribuirá entre seus adeptos (que pretendem ser hoje 57 milhões!) “imensas riquezas e cargos honoríficos, instalando no mundo o paraíso terrestre”.

Numa perspectiva otimista da concepção weberiana, é possível que possamos colocar o processo como sinal de uma verdadeira transição da autoridade patrimonialista, da estrutura dos antigos “donos do poder” que mestre Genoíno classifica como a “elite predatória”, para uma forma finalmente democrática de contrato social. Muitos observadores europeus e americanos, inclusive The Economist, convencidos estão que se depara o Brasil com algo inédito na América Latina: pela primeira vez um autêntico self-made man, um “excluído” da “classe dominante”, se alça à suprema magistratura pelo mecanismo igualitário e legítimo do pleito eleitoral. Há 150 anos, havia Tocqueville manifestado a esperança que o paradigma De la Démocratie em Amérique se estendesse ao sul do continente. Mas já então antecipara que este poderia ser despótico, como o da Rússia tzarista, ou então o aberto, liberal, próspero e obediente à lei dos USA. Identificado a Abraham Lincoln, grande estadista, eminente orador, abolicionista, vencedor da Guerra Civil e campeão da liberdade - esperemos que seja este, e não o perverso carisma de genocidas como Hitler, Lênine, Trotski, Mao ou Fidel, que sirva a nosso novo Papai Noel.