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O problema da liderança carismática
foi por Max Weber seriamente estudado em Wirtschaft
und Gesellschaft (1921). Consolidada a expressão,
tem o conceito sido freqüentemente lembrado
na sociologia brasileiro, servindo porém,
raramente, para pesquisa monográfica. Além
do Euclides da Cunha do formidável Os Sertões,
só conheço os trabalhos de Lúcio
de Azevedo, em A Evolução do Sebastianismo,
e da professora Maria Isaura Pereira de Queiroz,
o Messianismo no Brasil e no Mundo. Traçando
o paralelo entre Antonio Conselheiro e o Sebastianismo
português, eu mesmo ao tema apenas dediquei
um capítulo, Caudilhos, Demagogos
e Líderes Carismáticos, de
meu A Utopia Brasileira (Edit. Itatiaia, B.H.
1988). A falha é certamente lamentável
pois o resultado das recentes eleições
demonstra a atualidade e extrema relevância
do fenômeno. Estamos incontestavelmente
diante de uma das mais poderosas expressões
do carisma que, depois de voltar do esquecimento
(três eleições perdidas),
cobre-se agora das regalias, benesses e símbolos
mais perfeitos dessa forma de dominação
política, colocada entre a tradicional
(feudal ou patrimonialista) e a racional-legal
do liberalismo democrático. Como o ESTADÃO
tem repetidamente demonstrado, a realidade do
retorno do Paracleto sob uma forma democrática
moderna (ou será pós-moderna?) se
encontra no fato que Lula ganhou as eleições
e o PT as perdeu. Foi o personagem concreto, heróico,
incoerente, retórico, emocional, barbudo
e simpático porque, simultaneamente, filho
e pai do povo - e não o programa abstrato
de um partido, com sua abordagem objetiva da conjuntura
político/econômica - o que importou
em outub ro passado. Com o Lulismo estamos diante
de um novo Esperado, um novo Salvador da Pátria,
sucedendo a Luís Carlos Prestes em sua
eterna promessa de restauração e
triunfo da ideologia coletivista. Não por
acaso o chamado Fórum de S.Paulo o apresentou
como a personalidade que, graças ao poder
intrínseco do Brasil no contexto global,
seria capaz de reanimar as expectativas periclitantes
do marxismo, derrotado em 1989.
Na época, em rasgo de iluminação
messiânica, e bem antes de escrever romances
eróticos e entrar para a Academia, Jorge
Amado anunciava: Amanhã, amiga, é
dia da liberdade. Sob os céus do Brasil,
rotas as cadeias da escravidão, o Cavaleiro
da Esperança partirá na frente de
seu povo para a festa de construir uma Pátria
feliz, livre da escravidão, pátria
da alegria, do trabalho, da liberdade e do amor!...
Isto porque a Esquerda há muito remontou
no velho cavalo alado, Barak, com que Maomé
voou pelas nuvens até a Nova Jerusalém
da Utopia profética, num desenvolvimentismo
tupiniquim pós-moderno que,
não por acaso, alimenta simpatias pelos
terroristas islâmicos. No maniqueísmo
da postura sadamita, o momentoso processo se deve
desenvolver pela luta entre o Bem e o Mal. Haverá
sempre um bode expiatório exógeno,
imediatamente disponível, sobre o qual
projetar a culpa pelos malefícios, as derrotas,
frustrações e discórdias
que inexoravelmente se manifestarão. Euclides
compreendeu o percalço. Num trecho extraordinário
de sua obra, descreve o Judas para malhar que
o gnóstico bronco das margens
do S.Francisco fabrica, nele depositando suas
mágoas e ressentimentos. Mas como acentua
Maria Isaura, o líder carismático
distribuirá entre seus adeptos (que pretendem
ser hoje 57 milhões!) imensas riquezas
e cargos honoríficos, instalando no mundo
o paraíso terrestre.
Numa perspectiva otimista da concepção
weberiana, é possível que possamos
colocar o processo como sinal de uma verdadeira
transição da autoridade patrimonialista,
da estrutura dos antigos donos do poder
que mestre Genoíno classifica como a elite
predatória, para uma forma finalmente
democrática de contrato social. Muitos
observadores europeus e americanos, inclusive
The Economist, convencidos estão que se
depara o Brasil com algo inédito na América
Latina: pela primeira vez um autêntico self-made
man, um excluído da classe
dominante, se alça à suprema
magistratura pelo mecanismo igualitário
e legítimo do pleito eleitoral. Há
150 anos, havia Tocqueville manifestado a esperança
que o paradigma De la Démocratie em Amérique
se estendesse ao sul do continente. Mas já
então antecipara que este poderia ser despótico,
como o da Rússia tzarista, ou então
o aberto, liberal, próspero e obediente
à lei dos USA. Identificado a Abraham Lincoln,
grande estadista, eminente orador, abolicionista,
vencedor da Guerra Civil e campeão da liberdade
- esperemos que seja este, e não o perverso
carisma de genocidas como Hitler, Lênine,
Trotski, Mao ou Fidel, que sirva a nosso novo
Papai Noel.
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