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Descubro em alguns de meus mapas
antigos que, em meados do século 18, era
o Paraguai o maior Estado da América do
Sul, maior mesmo que o Brasil.
Assunção era a capital do vice-reinado
do Rio da Prata e a Argentina ainda não
existia. No século seguinte, porém,
sofreu o país na Guerra da Tríplice
Aliança - segundo alguns livros publicados,
mercê do alto sentido histórico e
patriótico de nossos meios universitários,
contaminados de aids gramscista - um verdadeiro
genocídio. Ao término do conflito
em 1870, informa a Enciclopédia Britânica
que a metade da população paraguaia
havia desaparecido, só 28 mil homens válidos
sobrevivendo. Realmente, um massacre que um déspota
paranóico, no gênero de Hitler, Stalin,
Mao e Saddam Hussein, provocara. Imaginem agora
um enredo de ficção: um grupo de
guaranis fanáticos, secretamente apoiados
por seu governo, resolve vingar esse desastre
nacional, inédito na História das
Américas. Estão prontos para usar
de qualquer método para alcançar
seus fins, inclusive a arma dos fracos ensandecidos
pelo ódio, o terrorismo suicida. O grupelho
seqüestra um avião da Varig e, em
dia de campeonato no Maracanã ou de desfile
na Sapucaí, atira a aeronave contra a multidão
carioca, apinhada nas arquibancadas, matando 3
mil espectadores. Digam-me, caros leitores, como
é que vocês se sentiriam e acham
que reagiria a opinião pública e
o governo de Brasília? Seríamos
arrogantes em face do desafio?
Sobre os americanos, tenho uma idéia.
Num filme de 1982, High Noon, ganhador do Oscar,
Gary Cooper é um xerife (xerife no sentido
inglês, e não mourisco do termo)
que, motivado por sua responsabilidade moral,
enfrenta um bando de assaltantes, solitário
sob o sol do meio-dia. Sempre estive convencido
de que, na famosa "ética protestante"
weberiana, definidora dos anglo-saxões,
especialmente do pessoal do Midwest, se destaca
a figura do mocinho que, impávido, mantém
a ordem ou o "Estado de Direito" contra
bandidos bem armados. É evidente que muito
mudou na moderna sociedade americana. O velho
paradigma, entretanto, permanece em ocasiões
sérias ou conjunturas como a atual. O indigitado
"gringo arrogante" comporta-se como
o general Collin Powell que, em Johannesburgo,
se mantém calado e tranqüilo ao ser
recebido com apupos por aqueles mesmos que não
morreram de fome graças aos alimentos transgênicos
generosamente doados pelos EUA. Os franceses não
perdoam aos americanos terem sido por eles duas
vezes salvos dos alemães (1917 e 1944).
Os alemães, ex-nazistas, não terem
sido liquidados, mas ajudados a se reerguer pelo
Plano Marshall, de tal forma que, em 1952, seu
PIB já alcançara o de antes da guerra.
E, recentemente, a Europa da CE, que já
se considera uma "super-potência"
de PIB equivalente ao dos EUA, não lhes
perdoa sua própria incapacidade de punir,
sozinha, a sangrenta "limpeza étnica"
promovida por Milosevic e os sérvios na
Croácia, Bósnia e em Kosovo.
Usando exclusivamente a arma aérea, foram
de fato os ianques que, pela primeira vez na história
militar, venceram uma guerra sem perder um único
soldado - diga-se que em franca demonstração
de sua presunção.
Diante de tais aberrações, não
é de surpreender que se sintam eles justificados
quando descobrem que o suposto toma-lá-dá-cá
da diplomacia é um trânsito de sentido
único. O mocinho às vezes se zanga
no tiroteio à plena luz do meio-dia. Dado,
no entanto, o temperamento frio e introvertido
do xerife de High Noon, ele estará disposto
a arriscar o duelo e tirar a desforra sem grande
alarde. O arquétipo do mito nacional indica
que matará o vilão e se casará
com a mocinha.
Não é isso, contudo, o que antecipam
nossos grandes "espertos" em assuntos
internacionais. Um cientista político brasiliense
dos mais prestigiosos, freqüentador assíduo
da Embaixada dos Estados Unidos, achará
como ocorreu antes da primeira Guerra do Golfo
que os "mercenários" americanos
serão derrotados pelo quinto mais poderoso
exército do mundo, comandado pelo gênio
estratégico do Saddam Hussein. Outro, como
um austero e compenetrado locutor político
da TV Band, opinará que, abandonado por
seus aliados pouco inclinados a se meter em encrenca
quando está em jogo o preço do petróleo,
os EUA se perderão nas areais do deserto,
nelas afundando como num novo Vietnã! Na
verdade, é ocioso imaginar o que vem por
aí: bomba suja, gás Sarin, epidemia
de antraz, novo avião suicida se despencando
sobre a ponte da Golden Gate ou causando um desastre
ecológico, tipo Chernobyl, ao explodir
uma central nuclear, o Apocalipse de uma Terceira
Guerra Mundial com o Islã, fanatizado pelo
Allahu Akbar, louvado seja! - que será?
Certo, porém, estou que o texano deseja
re-personificar Gary Cooper. E antecipo o desfecho
do enredo - o mocinho mata o vilão.
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