home
 

Considerações sobre Chávez, Fidel e El Che


Considerações sobre a guerra civil espanhola


Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde, 16 de setembro de 2002
Duelo ao meio-dia

 
 

Descubro em alguns de meus mapas antigos que, em meados do século 18, era o Paraguai o maior Estado da América do Sul, maior mesmo que o Brasil.

Assunção era a capital do vice-reinado do Rio da Prata e a Argentina ainda não existia. No século seguinte, porém, sofreu o país na Guerra da Tríplice Aliança - segundo alguns livros publicados, mercê do alto sentido histórico e patriótico de nossos meios universitários, contaminados de aids gramscista - um verdadeiro genocídio. Ao término do conflito em 1870, informa a Enciclopédia Britânica que a metade da população paraguaia havia desaparecido, só 28 mil homens válidos sobrevivendo. Realmente, um massacre que um déspota paranóico, no gênero de Hitler, Stalin, Mao e Saddam Hussein, provocara. Imaginem agora um enredo de ficção: um grupo de guaranis fanáticos, secretamente apoiados por seu governo, resolve vingar esse desastre nacional, inédito na História das Américas. Estão prontos para usar de qualquer método para alcançar seus fins, inclusive a arma dos fracos ensandecidos pelo ódio, o terrorismo suicida. O grupelho seqüestra um avião da Varig e, em dia de campeonato no Maracanã ou de desfile na Sapucaí, atira a aeronave contra a multidão carioca, apinhada nas arquibancadas, matando 3 mil espectadores. Digam-me, caros leitores, como é que vocês se sentiriam e acham que reagiria a opinião pública e o governo de Brasília? Seríamos arrogantes em face do desafio?

Sobre os americanos, tenho uma idéia. Num filme de 1982, High Noon, ganhador do Oscar, Gary Cooper é um xerife (xerife no sentido inglês, e não mourisco do termo) que, motivado por sua responsabilidade moral, enfrenta um bando de assaltantes, solitário sob o sol do meio-dia. Sempre estive convencido de que, na famosa "ética protestante" weberiana, definidora dos anglo-saxões, especialmente do pessoal do Midwest, se destaca a figura do mocinho que, impávido, mantém a ordem ou o "Estado de Direito" contra bandidos bem armados. É evidente que muito mudou na moderna sociedade americana. O velho paradigma, entretanto, permanece em ocasiões sérias ou conjunturas como a atual. O indigitado "gringo arrogante" comporta-se como o general Collin Powell que, em Johannesburgo, se mantém calado e tranqüilo ao ser recebido com apupos por aqueles mesmos que não morreram de fome graças aos alimentos transgênicos generosamente doados pelos EUA. Os franceses não perdoam aos americanos terem sido por eles duas vezes salvos dos alemães (1917 e 1944).

Os alemães, ex-nazistas, não terem sido liquidados, mas ajudados a se reerguer pelo Plano Marshall, de tal forma que, em 1952, seu PIB já alcançara o de antes da guerra. E, recentemente, a Europa da CE, que já se considera uma "super-potência" de PIB equivalente ao dos EUA, não lhes perdoa sua própria incapacidade de punir, sozinha, a sangrenta "limpeza étnica" promovida por Milosevic e os sérvios na Croácia, Bósnia e em Kosovo.

Usando exclusivamente a arma aérea, foram de fato os ianques que, pela primeira vez na história militar, venceram uma guerra sem perder um único soldado - diga-se que em franca demonstração de sua presunção.

Diante de tais aberrações, não é de surpreender que se sintam eles justificados quando descobrem que o suposto toma-lá-dá-cá da diplomacia é um trânsito de sentido único. O mocinho às vezes se zanga no tiroteio à plena luz do meio-dia. Dado, no entanto, o temperamento frio e introvertido do xerife de High Noon, ele estará disposto a arriscar o duelo e tirar a desforra sem grande alarde. O arquétipo do mito nacional indica que matará o vilão e se casará com a mocinha.

Não é isso, contudo, o que antecipam nossos grandes "espertos" em assuntos internacionais. Um cientista político brasiliense dos mais prestigiosos, freqüentador assíduo da Embaixada dos Estados Unidos, achará como ocorreu antes da primeira Guerra do Golfo que os "mercenários" americanos serão derrotados pelo quinto mais poderoso exército do mundo, comandado pelo gênio estratégico do Saddam Hussein. Outro, como um austero e compenetrado locutor político da TV Band, opinará que, abandonado por seus aliados pouco inclinados a se meter em encrenca quando está em jogo o preço do petróleo, os EUA se perderão nas areais do deserto, nelas afundando como num novo Vietnã! Na verdade, é ocioso imaginar o que vem por aí: bomba suja, gás Sarin, epidemia de antraz, novo avião suicida se despencando sobre a ponte da Golden Gate ou causando um desastre ecológico, tipo Chernobyl, ao explodir uma central nuclear, o Apocalipse de uma Terceira Guerra Mundial com o Islã, fanatizado pelo Allahu Akbar, louvado seja! - que será? Certo, porém, estou que o texano deseja re-personificar Gary Cooper. E antecipo o desfecho do enredo - o mocinho mata o vilão.