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A colocação
(solicitada) de notícia sobre meu livro
"Em Berço Esplêndido",
na seção "A Prata de Casa"
do Boletim da ADB. Infelizmente, acredito que
eu não seja, propriamente, "prata"
mas "chumbo de casa". Numa observação
não muito carinhosa, nem diplomática,
fui qualificado no aludido Boletim como "figura
controvertida". Na nossa carreira, não
creio que a expressão possa ser interpretada
como um elogio, eis que, particularmente na versão
tupiniquim da mesma, ser convertido não
virtude aconselhável por ser "politicamente
incorreta". Mas, enfim, o qualificativo tem
o mérito indiscutível de ser franco.
Aceito e sempre
aceitei ser controvertido. Pela primeira vez me
senti como tal quando fui afastado, lá
pelos idos de 1958 ou 59, da chamada "Operação
Pan-americana". Eu achava inútil e
tolo o argumento com que se pretendia obter empréstimos
dos USA, ameaçando com a opção
pela alternativa soviética num jogo de
transparente chantagem. A opção
ameaçadora vinha acompanhada do vaticínio,
feito pelo embaixador Augusto Frederico Schmidt,
Presidente da Operação, aos representantes
americanos, que a economia da URSS deveria ultrapassar
a dos EUA em 1970, o mais tardar em 1980. Evidentemente,
a OPA deu em nada... A ironia é que o PIB
russo é hoje inferior ao do Brasil, e aproximadamente
8% do PIB americano.
Fiquei ainda
mais controvertido quando, em 1966, após
o Curso da ESG, publiquei um livro que elaborava
e estendia a tese defendida na Escola, no fim
do curso, com o título "Política
Externa - Segurança e Desenvolvimento".
Embora coincidisse com a orientação
geral do governo do saudoso Presidente Castello
Branco, um legítimo democrata e pessoa
de grande cultura, e tendo obtido o beneplácito
do então Chanceler Juracy Magalhães,
o livro não foi recebido com simpatia pela
corrente "terceiro-mundista" que, então,
já tentava apossar-se da direção
da Casa, como conseguiu fazê-lo, aliás,
na Presidência Geisel, graças aos
esforços do Embaixador Azeredo Silveira.
Este realizou a façanha extraordinária
de comprometer o bom relacionamento do Brasil
com os três países que, precisamente,
são os mais próximos de nossa cultura
e interesses, Portugal, a Argentina e os Estados
Unidos da América. Antes disso, o aludido
diplomata, quando indicado para Secretário
Geral do Itamaraty e estando eu em missão
em Israel, desgostou-se com uma discreta manifestação
de ceticismo de minha parte quanto ao papel decisivo
que os petrodólares árabes poderiam
desempenhar para "libertar o Brasil de excessiva
dependência" em relação
aos Estados Unidos. Essa esperança, depositada
nos árabes, deu como resultado alguns bilhões
de dólares investidos no Iraque (estradas
de ferro, rodovias e até o famoso tanque
pesado "Osório"), dos quais nunca
mais se ouviu falar. Uma coisa é certa,
a Mendes Junior, então uma das maiores
empresas brasileiras de construção
faliu e o tanque enterrou-se nas areias do deserto...
Tudo consistiu num exemplo maravilhoso do jogo
que consiste em apostar no cavalo errado.
Minhas posturas
de "figura controvertida" prosseguiram,
intermitentes, culminando quando, na Presidência
Figueiredo, tentei tenazmente me opor à
política, a qual não merece outro
adjetivo senão de ser "cretina",
de um país em desenvolvimento, pesadamente
endividado e sob regime tido como de "ditadura
militar direitista", emprestar bilhões
de dólares a um país industrializado,
praticamente falido, ameaçado de invasão
estrangeira e "comunista", como era
então a Polônia. Não me estenderei
sobre o "escândalo das Polonetas".
Você, ex-embaixador em Varsóvia,
conhece o caso tão bem quanto eu. Você
também deve saber, estou certo, que quando
recentemente foi cantado o "réquiem"
em homenagem ao enterro da dívida polonesa,
o prejuízo final que teve nosso país,
com as várias frações "perdoadas",
os juros baixíssimo e geralmente não
pagos pelo governo de Varsóvia, durante
vinte anos, e o desconto final, subiu a mais de
cinco bilhões de dólares. Foi certamente
a maior asneira financeira, em matéria
de política externa, jamais cometida por
nosso país.
Já aposentado, continuei portanto a ser
"controvertido". Persisti na postura
politicamente incorreta ao dar apoio, em artigos
de jornal, a meu amigo, saudoso embaixador e ex-Ministro
Roberto Campos, o homem mais lúcido do
Brasil, sempre pouco amado em nossa "Casa".
Roberto Campos defendia, então, o repúdio
à "Reserva de Mercado" para a
Informática. Hoje, é o próprio
Presidente da República que nos revela
ter essa política custado, pelo menos,
15 bilhões de dólares só
nos últimos anos, relativos à diferença
entre o que importamos e o que poderíamos
hoje exportar se a indústria de informática
tivesse sido implantada, não apenas para
enriquecer os políticos amazonenses e empresários
de Manaus, mas livremente em todo o país.
Jamais acreditei
que a "política externa" terceiro-mundista,
outrora defendida com grande entusiasmo por certos
setores de nossa Casa, fosse outra coisa do que
tolice de adolescentes. Desde 1945, depois de
servir na China e na Turquia em plena guerra,
fiquei convencido que o comunismo ou o que, eufemisticamente,
é por alguns exaltado como "economia
socialista" ou "justiça social",
só conduz ao desastre que afetou a URSS
e seus satélites, como V. mesmo teve ocasião
de testemunhar na Polônia. Por esse motivo,
é com grande espanto que leio, no Boletim
a que me refiro, um artigo onde é elogiado
o que, este sim, considero uma "figura controvertida",
o fotógrafo Sebastião Salgado. Conforme
V. poderá verificar pela leitura de um
artigo meu que junto a esta, Salgado se esmera
em fazer a mais tenaz e persistente contra-propaganda
de nosso país, só apresentando ao
público estrangeiro imagens de nossas mazelas
e misérias, chagas estas resultantes, precisamente,
de políticas estatizantes e centralizadoras
infelizes que têm, há décadas,
flagelado nosso país. Dizer que "a
consciência marxista do fotógrafo
poderá modificar o mundo" (ibid. pg.
28) e que "o sentimento de culpa dos que
têm com relação aos que não
possuem em um mundo de desigualdades abissais
e insuperáveis" é o motivo
da aceitação, não só
do aspecto estético da arte, mas da ideologia
do fotógrafo, constitui uma inacreditável
mentira e uma aberrante convicção.
Será realmente controverso achar que o
Brasil é, talvez, o único país
do mundo que oficialmente custeia a propaganda
contra si próprio?
Vejo assim,
que, dado o "empobrecimento cronológico"
de que sofro em virtude de contingências
existenciais, sendo irrecuperável e insuperavelmente
discordante minhas posturas da opinião
estabelecida pela ADB, e me tornando, além
disso, um peso (de chumbo e não de prata,
como disse) para a direção do Boletim,
rogo, caro Presidente, amigo e colega, desligar-me
da Associação. Acresce que a contribuição
mensal para a mesma, descontada no contra-cheque
mensal para a mesma, me parece demasiadamente
custosa, levando em conta os baixos salários,
ali proclamados e que tanto angustiam os redatores
da revista e a Associação. Seria
absurdo, realmente, se eu continuasse gastando
meus parcos caraminguás com a contribuição
para uma revista luxuosa como esta, quando estamos
vivendo num "mundo de desigualdades abissais
e insuperáveis tão clamorosas"
quanto as ali repetidamente anunciadas.
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