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Jornal da Tarde, 4 de fevereiro de 2002
Figura Controvertida
A política externa terceiro-mundista foi apenas uma extravagância de adolescentes irrealistas

 
 

A colocação (solicitada) de notícia sobre meu livro "Em Berço Esplêndido", na seção "A Prata de Casa" do Boletim da ADB. Infelizmente, acredito que eu não seja, propriamente, "prata" mas "chumbo de casa". Numa observação não muito carinhosa, nem diplomática, fui qualificado no aludido Boletim como "figura controvertida". Na nossa carreira, não creio que a expressão possa ser interpretada como um elogio, eis que, particularmente na versão tupiniquim da mesma, ser convertido não virtude aconselhável por ser "politicamente incorreta". Mas, enfim, o qualificativo tem o mérito indiscutível de ser franco.

Aceito e sempre aceitei ser controvertido. Pela primeira vez me senti como tal quando fui afastado, lá pelos idos de 1958 ou 59, da chamada "Operação Pan-americana". Eu achava inútil e tolo o argumento com que se pretendia obter empréstimos dos USA, ameaçando com a opção pela alternativa soviética num jogo de transparente chantagem. A opção ameaçadora vinha acompanhada do vaticínio, feito pelo embaixador Augusto Frederico Schmidt, Presidente da Operação, aos representantes americanos, que a economia da URSS deveria ultrapassar a dos EUA em 1970, o mais tardar em 1980. Evidentemente, a OPA deu em nada... A ironia é que o PIB russo é hoje inferior ao do Brasil, e aproximadamente 8% do PIB americano.

Fiquei ainda mais controvertido quando, em 1966, após o Curso da ESG, publiquei um livro que elaborava e estendia a tese defendida na Escola, no fim do curso, com o título "Política Externa - Segurança e Desenvolvimento". Embora coincidisse com a orientação geral do governo do saudoso Presidente Castello Branco, um legítimo democrata e pessoa de grande cultura, e tendo obtido o beneplácito do então Chanceler Juracy Magalhães, o livro não foi recebido com simpatia pela corrente "terceiro-mundista" que, então, já tentava apossar-se da direção da Casa, como conseguiu fazê-lo, aliás, na Presidência Geisel, graças aos esforços do Embaixador Azeredo Silveira. Este realizou a façanha extraordinária de comprometer o bom relacionamento do Brasil com os três países que, precisamente, são os mais próximos de nossa cultura e interesses, Portugal, a Argentina e os Estados Unidos da América. Antes disso, o aludido diplomata, quando indicado para Secretário Geral do Itamaraty e estando eu em missão em Israel, desgostou-se com uma discreta manifestação de ceticismo de minha parte quanto ao papel decisivo que os petrodólares árabes poderiam desempenhar para "libertar o Brasil de excessiva dependência" em relação aos Estados Unidos. Essa esperança, depositada nos árabes, deu como resultado alguns bilhões de dólares investidos no Iraque (estradas de ferro, rodovias e até o famoso tanque pesado "Osório"), dos quais nunca mais se ouviu falar. Uma coisa é certa, a Mendes Junior, então uma das maiores empresas brasileiras de construção faliu e o tanque enterrou-se nas areias do deserto... Tudo consistiu num exemplo maravilhoso do jogo que consiste em apostar no cavalo errado.

Minhas posturas de "figura controvertida" prosseguiram, intermitentes, culminando quando, na Presidência Figueiredo, tentei tenazmente me opor à política, a qual não merece outro adjetivo senão de ser "cretina", de um país em desenvolvimento, pesadamente endividado e sob regime tido como de "ditadura militar direitista", emprestar bilhões de dólares a um país industrializado, praticamente falido, ameaçado de invasão estrangeira e "comunista", como era então a Polônia. Não me estenderei sobre o "escândalo das Polonetas". Você, ex-embaixador em Varsóvia, conhece o caso tão bem quanto eu. Você também deve saber, estou certo, que quando recentemente foi cantado o "réquiem" em homenagem ao enterro da dívida polonesa, o prejuízo final que teve nosso país, com as várias frações "perdoadas", os juros baixíssimo e geralmente não pagos pelo governo de Varsóvia, durante vinte anos, e o desconto final, subiu a mais de cinco bilhões de dólares. Foi certamente a maior asneira financeira, em matéria de política externa, jamais cometida por nosso país.
Já aposentado, continuei portanto a ser "controvertido". Persisti na postura politicamente incorreta ao dar apoio, em artigos de jornal, a meu amigo, saudoso embaixador e ex-Ministro Roberto Campos, o homem mais lúcido do Brasil, sempre pouco amado em nossa "Casa". Roberto Campos defendia, então, o repúdio à "Reserva de Mercado" para a Informática. Hoje, é o próprio Presidente da República que nos revela ter essa política custado, pelo menos, 15 bilhões de dólares só nos últimos anos, relativos à diferença entre o que importamos e o que poderíamos hoje exportar se a indústria de informática tivesse sido implantada, não apenas para enriquecer os políticos amazonenses e empresários de Manaus, mas livremente em todo o país.

Jamais acreditei que a "política externa" terceiro-mundista, outrora defendida com grande entusiasmo por certos setores de nossa Casa, fosse outra coisa do que tolice de adolescentes. Desde 1945, depois de servir na China e na Turquia em plena guerra, fiquei convencido que o comunismo ou o que, eufemisticamente, é por alguns exaltado como "economia socialista" ou "justiça social", só conduz ao desastre que afetou a URSS e seus satélites, como V. mesmo teve ocasião de testemunhar na Polônia. Por esse motivo, é com grande espanto que leio, no Boletim a que me refiro, um artigo onde é elogiado o que, este sim, considero uma "figura controvertida", o fotógrafo Sebastião Salgado. Conforme V. poderá verificar pela leitura de um artigo meu que junto a esta, Salgado se esmera em fazer a mais tenaz e persistente contra-propaganda de nosso país, só apresentando ao público estrangeiro imagens de nossas mazelas e misérias, chagas estas resultantes, precisamente, de políticas estatizantes e centralizadoras infelizes que têm, há décadas, flagelado nosso país. Dizer que "a consciência marxista do fotógrafo poderá modificar o mundo" (ibid. pg. 28) e que "o sentimento de culpa dos que têm com relação aos que não possuem em um mundo de desigualdades abissais e insuperáveis" é o motivo da aceitação, não só do aspecto estético da arte, mas da ideologia do fotógrafo, constitui uma inacreditável mentira e uma aberrante convicção. Será realmente controverso achar que o Brasil é, talvez, o único país do mundo que oficialmente custeia a propaganda contra si próprio?

Vejo assim, que, dado o "empobrecimento cronológico" de que sofro em virtude de contingências existenciais, sendo irrecuperável e insuperavelmente discordante minhas posturas da opinião estabelecida pela ADB, e me tornando, além disso, um peso (de chumbo e não de prata, como disse) para a direção do Boletim, rogo, caro Presidente, amigo e colega, desligar-me da Associação. Acresce que a contribuição mensal para a mesma, descontada no contra-cheque mensal para a mesma, me parece demasiadamente custosa, levando em conta os baixos salários, ali proclamados e que tanto angustiam os redatores da revista e a Associação. Seria absurdo, realmente, se eu continuasse gastando meus parcos caraminguás com a contribuição para uma revista luxuosa como esta, quando estamos vivendo num "mundo de desigualdades abissais e insuperáveis tão clamorosas" quanto as ali repetidamente anunciadas.