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Na adolescência, que se prolongou
além do devido tempo, acariciei a ilusão
de que seria este país uma terra de gente
inteligente, racional e desenvolvida. Toda minha
vida subseqüente constituiu uma sucessão
de desilusões num processo melancólico
de conscientização que descobri
haver sido, igualmente, a de muitos amigos, bem
mais sábios e conhecedores do Brasil do
que eu. Não sei se foi o Roberto Campos
que disse sentir por nossa terra a mesma paixão
frustrada e o amargor de um amante traído.
Mas dele, certamente, é o aforismo: "A
burrice tem no Brasil um passado glorioso e um
futuro promissor." A experiência de
toda uma vida muito me ensinou e foi através
de traumas ocasionais, aqui e no exterior, que
fiz minha árdua "educação
do Brasil". O processo dramático começou
na noite de 27 de novembro 1935 quando, pelo acaso
de minha mãe e irmãos residirem
na Urca, fui testemunho da devastação
perversa e morticínio causado pela chamada
"intentona" comunista. A casa recebeu
alguns balaços vindos do lado da Praia
Vermelha.
Ainda na mocidade, a vivência direta e
brutal da guerra e do totalitarismo se prolongou
até 1949 e, de novo, anos 70 e princípios
dos 80, na experiência diplomática
na China, Turquia, Israel e Polônia. Hoje
distingo claramente aquilo que se deve atribuir
à querida pátria do "homem
cordial" de Sérgio Buarque de Holanda,
do "homem bom" de Cassiano Ricardo e
do peuple de lamitié de Bernanos - e aquilo
que atinge especificamente o lado burro, o lado
da política, da burocracia e da mentalidade
estatizante e intervencionista tradicional do
patrimonialismo. A fina inteligência de
uns é compensada pela burrice contagiosa
dos outros. Escrevi no entanto, há séculos,
um livrinho intitulado O Elogio do Burro. Isso
prova que mantenho uma atitude ambivalente em
relação a esse dom carismático
do Espírito Santo que cavalga o asno -
da Natividade e Fuga para o Egito à Entrada
Triunfal em Jerusalém. Relevante é
lembrar, neste contexto, que o mais antigo documento
iconográfico do cristianismo é o
grafito de um burro crucificado, existente no
museu do Monte Palatino em Roma. Os cristãos
eram então conhecidos como asinarii.
Há, na verdade, dois tipos de burrice,
a burrice espiritual e humilde que elogio - e
a burrice satisfeita e arrogante dos que pretendem
governar e, invariavelmente, salvar o País.
São estes que estão prestes a reforçar
seu poder sobre a Nação pelo monopólio
do setor público - recrutados na "Classe
Dominante" dos "Donos do Poder"
ou da "Elite Predatória" como
é chamada (José Genoíno).
Estamos mal parados, hélas! Certo é
que o principal concorrente neste "Grande
Prêmio Brasil" ou carnaval que emporcalha
as cidades com seus anúncios multicores
é mais genial do que Abraham Lincoln e
mais instruído do que Machado de Assis.
Talvez queira alinhar-se com Lenin, Mao, Fidel
e Chávez, entre os grandes líderes
revolucionários do século.
Além disso, outro concorrente promete
criar dez milhões de empregos no setor
de saúde, dobrando de uma penada o número
total presumível de funcionários
públicos. Um terceiro aspirante, indubitavelmente
após consulta a seu guru de Harvard, pretende
estatizar a água, o "recurso natural
mais precioso da Nação": mais
alguns milhões de empregos. Vamos recomeçar
a construir nossa bombinha atômica "iraquiana"
para gáudio do Ferola, do Piva e do Leônidas.
Desafiaremos a arrogância da maior potência
mundial na Amazônia a qual se transformará
em novo Vietnã de marines. Uma parcela
substancial de milicos já está excitadíssima
com o grandioso Plano de Guerra. Sólidas
alianças serão asseguradas com Cuba,
Venezuela, Iraque e Coréia do Norte - quem
nos ousará desafiar?
Repudiaremos a dívida externa para a bem-aventurança
dos santos bispos da CNB do B e, por simples abstenção,
liquidaremos a Alca. Bem trajado em seu terno
Armani, o eminente poliglota na Presidência
se medirá com os Oito Grandes, a todos
impressionando pela sabedoria e erudição
(ao contrário de seu vice que nem sabe
bem onde fica Israel...) Com um salário
mínimo de mil ou dois mil reais, no novo
Canaã da Utopia correrá leite e
mel - além de água em abundância,
naturalmente. A quadratura do círculo será
enfim solucionada: maiores lucros, emprego total,
inflação contida, orçamento
equilibrado, Previdência consolidada, impostos
reduzidos, gastos sociais decuplicados, funcionários
enriquecidos, tribunais faraônicos edificados,
Fernandinho Beira-Mar no Ministério da
Justiça, a língua brasileira expurgada
de estrangeirismos, os gringos humilhados, a alfabetização
universal assegurada ao nível da própria
suprema magistratura, o futuro promissor imaginado
por Bob Fields brilhando enfim no céu da
pátria neste instante. Estou lendo o Consolo
da Filosofia, escrito enquanto Boetius aguardava
sua execução.
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