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Considerações sobre Chávez, Fidel e El Che


Considerações sobre a guerra civil espanhola


Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde, 30 de setembro de 2002
Futuro promissor

 
 

Na adolescência, que se prolongou além do devido tempo, acariciei a ilusão de que seria este país uma terra de gente inteligente, racional e desenvolvida. Toda minha vida subseqüente constituiu uma sucessão de desilusões num processo melancólico de conscientização que descobri haver sido, igualmente, a de muitos amigos, bem mais sábios e conhecedores do Brasil do que eu. Não sei se foi o Roberto Campos que disse sentir por nossa terra a mesma paixão frustrada e o amargor de um amante traído. Mas dele, certamente, é o aforismo: "A burrice tem no Brasil um passado glorioso e um futuro promissor." A experiência de toda uma vida muito me ensinou e foi através de traumas ocasionais, aqui e no exterior, que fiz minha árdua "educação do Brasil". O processo dramático começou na noite de 27 de novembro 1935 quando, pelo acaso de minha mãe e irmãos residirem na Urca, fui testemunho da devastação perversa e morticínio causado pela chamada "intentona" comunista. A casa recebeu alguns balaços vindos do lado da Praia Vermelha.

Ainda na mocidade, a vivência direta e brutal da guerra e do totalitarismo se prolongou até 1949 e, de novo, anos 70 e princípios dos 80, na experiência diplomática na China, Turquia, Israel e Polônia. Hoje distingo claramente aquilo que se deve atribuir à querida pátria do "homem cordial" de Sérgio Buarque de Holanda, do "homem bom" de Cassiano Ricardo e do peuple de lamitié de Bernanos - e aquilo que atinge especificamente o lado burro, o lado da política, da burocracia e da mentalidade estatizante e intervencionista tradicional do patrimonialismo. A fina inteligência de uns é compensada pela burrice contagiosa dos outros. Escrevi no entanto, há séculos, um livrinho intitulado O Elogio do Burro. Isso prova que mantenho uma atitude ambivalente em relação a esse dom carismático do Espírito Santo que cavalga o asno - da Natividade e Fuga para o Egito à Entrada Triunfal em Jerusalém. Relevante é lembrar, neste contexto, que o mais antigo documento iconográfico do cristianismo é o grafito de um burro crucificado, existente no museu do Monte Palatino em Roma. Os cristãos eram então conhecidos como asinarii.

Há, na verdade, dois tipos de burrice, a burrice espiritual e humilde que elogio - e a burrice satisfeita e arrogante dos que pretendem governar e, invariavelmente, salvar o País. São estes que estão prestes a reforçar seu poder sobre a Nação pelo monopólio do setor público - recrutados na "Classe Dominante" dos "Donos do Poder" ou da "Elite Predatória" como é chamada (José Genoíno). Estamos mal parados, hélas! Certo é que o principal concorrente neste "Grande Prêmio Brasil" ou carnaval que emporcalha as cidades com seus anúncios multicores é mais genial do que Abraham Lincoln e mais instruído do que Machado de Assis. Talvez queira alinhar-se com Lenin, Mao, Fidel e Chávez, entre os grandes líderes revolucionários do século.

Além disso, outro concorrente promete criar dez milhões de empregos no setor de saúde, dobrando de uma penada o número total presumível de funcionários públicos. Um terceiro aspirante, indubitavelmente após consulta a seu guru de Harvard, pretende estatizar a água, o "recurso natural mais precioso da Nação": mais alguns milhões de empregos. Vamos recomeçar a construir nossa bombinha atômica "iraquiana" para gáudio do Ferola, do Piva e do Leônidas.

Desafiaremos a arrogância da maior potência mundial na Amazônia a qual se transformará em novo Vietnã de marines. Uma parcela substancial de milicos já está excitadíssima com o grandioso Plano de Guerra. Sólidas alianças serão asseguradas com Cuba, Venezuela, Iraque e Coréia do Norte - quem nos ousará desafiar?

Repudiaremos a dívida externa para a bem-aventurança dos santos bispos da CNB do B e, por simples abstenção, liquidaremos a Alca. Bem trajado em seu terno Armani, o eminente poliglota na Presidência se medirá com os Oito Grandes, a todos impressionando pela sabedoria e erudição (ao contrário de seu vice que nem sabe bem onde fica Israel...) Com um salário mínimo de mil ou dois mil reais, no novo Canaã da Utopia correrá leite e mel - além de água em abundância, naturalmente. A quadratura do círculo será enfim solucionada: maiores lucros, emprego total, inflação contida, orçamento equilibrado, Previdência consolidada, impostos reduzidos, gastos sociais decuplicados, funcionários enriquecidos, tribunais faraônicos edificados, Fernandinho Beira-Mar no Ministério da Justiça, a língua brasileira expurgada de estrangeirismos, os gringos humilhados, a alfabetização universal assegurada ao nível da própria suprema magistratura, o futuro promissor imaginado por Bob Fields brilhando enfim no céu da pátria neste instante. Estou lendo o Consolo da Filosofia, escrito enquanto Boetius aguardava sua execução.