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Recém-aposentado e de retorno
ao Brasil, estava custando a me re-adaptar a nossas
misérias e encantos nativos quando conheci
Octavio Thyrso de Andrade. Sempre com muita lógica,
senso de humor e bastante ceticismo perante o
espetáculo da sociedade à sua volta,
Octavio Thyrso escrevia sueltos admiráveis
no JORNAL DO BRASIL. Sinto certa nostalgia desse
seu bom-humor crítico. O que ele escrevia
e as conversas que com ele mantinha, proporcionavam-me
ensinamentos até hoje valiosos, junto com
outros colegas solidários no empenho de
desemburrar este país, grande e bobo.
A questão misteriosa que pouco a pouco
se desenhava em nossa mente era a de entender
como e por que somos assim. O mistério
é o da própria história.
É o mistério do destino das nações
e do relacionamento entre cada um de nós,
indivíduos dotados de consciência
e julgamento, e a cultura dentro da qual fomos
formados. Outros povos, entre os maiores na civilização
moderna, sofreram destinos terríveis. Vejam
a Alemanha, terra de Lutero, Bach, Kant, Goethe,
Nietzsche e alguns dos maiores gênios do
pensamento humano tornando-se subitamente
a besta feroz da Europa, provocando duas Guerras
Mundiais e o horror de um inqualificável
Genocídio. Vejam a Rússia. Possuída
por incomparáveis dons literários
e messiânicos, no século XIX, que
se traduziram por outro genocídio, este
contra ela própria, eliminando algo como
50 ou 60 milhões de vítimas. O Brasil
expõe os males de sua própria grandeza
de bom-moço desatento, irresponsável
e pás sérieux mas, felizmente,
dotado de uma espécie de secreto bom senso
que lhe permite dançar ocasionalmente
à beira do abismo, sem nunca nele
se lançar. Cabe-nos supinamente aquele
caráter invertebrado que outrora Ortega
y Gassett atribuia à Espanha. É
possível que seja, justamente, essa essência
fluída, sem traços definidos, do
país onde tudo é permitido que o
torne imune às desgraças horrendas
afetando outros povos bem mais sólidos
e maduros em sua organização nacional.
Falo em organização nacional. Foi
outrora o título de uma obra de um pensador
autoritário que pretendia haver encontrado
seu segredo Alberto Torres. Ora, é
justamente a incapacidade de nos organizar politicamente
o que nos distingue, como se desejássemos
deliberadamente desmentir as conclusões
de um dos maiores pensadores políticos
contemporâneos, Samuel Huntington. O eminente
professor de Harvard acentua que, no mundo
que se moderniza, só controla o futuro
aquele que é capaz de organizar sua política.
Se verdadeiro o axioma, estamos realmente mal
parados como país do futuro...
Seríamos o mais perfeito exemplo do fenômeno
inverso: quanto mais nos desenvolvemos, menos
capazes nos revelamos de organizar nossa vida
coletiva com vistas ao controle do futuro. A presente
conjuntura eleitoral mais uma vez oferece testemunho
daquilo que parece ser uma constante de nossa
história política: toda sucessão
presidencial é traumática, quer
sigamos o método da chamada República
Velha quando cada Presidente indicava seu
sucessor, ao servir o tradicional café-com-leite;
ou durante o regime militar, um general consagrando
outro quatro-estrelas após contenda nos
quartéis; ou, finalmente, as tão
barulhentas e carnavalescamente inauguradas diretas
já que, quase sempre, resultam em
fiasco. Vejam se pode funcionar um regime como
o que estabeleceu a impagável Constituição
de 88 diabolicamente criada para tudo embaralhar.
São quatro candidatos para o topo e mais
16.000 bobocas para outros cargos. Todos se dizem
de esquerda, provavelmente por ser
quase impossível definir o que seja direita.
Todos, no entanto, são tenazes conservadores
do arcaico regime patrimonialista que aí
está, e tanto mais entusiasticamente partidários
do statu-quo quanto mais em altos brados proclamam
seu propósito de mudar o que aí
está. Todos prometem aumentar o salário
mínimo quando a principal exigência
do momento é exatamente o oposto: reduzir
o salário máximo dos mais eminentes
marajás da Nomenklatura político/burocrática
a que os quatro pertencem. Todos pregam a aceleração
do desenvolvimento, enquanto incluem em seus programas
receituários que, se adotados, reduzirão
drasticamente as perspectivas de expansão
econômica. Em suma, todos mentem, felizmente,
numa prodigiosa farsa do duplo-pensar de Orwell,
usando a novi-língua (newspeak) em que
as palavras explicitadas têm um sentido
exatamente o oposto ao da realidade. Não
é de admirar que meu e-mail seja inundado
de mensagem de tom apocalíptico. O diabinho
que se anuncia nessa apocalipse de fancaria não
é perigoso. Como diria Octávio Thyrso,
é um palhaço mentiroso
que todas as noites vemos e ouvimos na TV...
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