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Creta e um outro Tsunami

 
 
     

Jornal da Tarde, 2 de setembro de 2002
Grande e bobo
Quanto mais nos desenvolvemos, menos capazes nos revelamos de organizar nossa vida coletiva.

 
 

Recém-aposentado e de retorno ao Brasil, estava custando a me re-adaptar a nossas misérias e encantos nativos quando conheci Octavio Thyrso de Andrade. Sempre com muita lógica, senso de humor e bastante ceticismo perante o espetáculo da sociedade à sua volta, Octavio Thyrso escrevia sueltos admiráveis no JORNAL DO BRASIL. Sinto certa nostalgia desse seu bom-humor crítico. O que ele escrevia e as conversas que com ele mantinha, proporcionavam-me ensinamentos até hoje valiosos, junto com outros colegas solidários no empenho de “desemburrar este país, grande e bobo”. A questão misteriosa que pouco a pouco se desenhava em nossa mente era a de entender como e por que somos assim. O mistério é o da própria história. É o mistério do destino das nações e do relacionamento entre cada um de nós, indivíduos dotados de consciência e julgamento, e a cultura dentro da qual fomos formados. Outros povos, entre os maiores na civilização moderna, sofreram destinos terríveis. Vejam a Alemanha, terra de Lutero, Bach, Kant, Goethe, Nietzsche e alguns dos maiores gênios do pensamento humano – tornando-se subitamente a besta feroz da Europa, provocando duas Guerras Mundiais e o horror de um inqualificável Genocídio. Vejam a Rússia. Possuída por incomparáveis dons literários e messiânicos, no século XIX, que se traduziram por outro genocídio, este contra ela própria, eliminando algo como 50 ou 60 milhões de vítimas. O Brasil expõe os males de sua própria grandeza de bom-moço desatento, irresponsável e “pás sérieux” mas, felizmente, dotado de uma espécie de secreto bom senso que lhe permite “dançar ocasionalmente à beira do abismo”, sem nunca nele se lançar. Cabe-nos supinamente aquele caráter invertebrado que outrora Ortega y Gassett atribuia à Espanha. É possível que seja, justamente, essa essência fluída, sem traços definidos, do país onde tudo é permitido que o torne imune às desgraças horrendas afetando outros povos bem mais sólidos e maduros em sua organização nacional. Falo em organização nacional. Foi outrora o título de uma obra de um pensador autoritário que pretendia haver encontrado seu segredo – Alberto Torres. Ora, é justamente a incapacidade de nos organizar politicamente o que nos distingue, como se desejássemos deliberadamente desmentir as conclusões de um dos maiores pensadores políticos contemporâneos, Samuel Huntington. O eminente professor de Harvard acentua que, “no mundo que se moderniza, só controla o futuro aquele que é capaz de organizar sua política”. Se verdadeiro o axioma, estamos realmente mal parados como “país do futuro”... Seríamos o mais perfeito exemplo do fenômeno inverso: quanto mais nos desenvolvemos, menos capazes nos revelamos de organizar nossa vida coletiva com vistas ao controle do futuro. A presente conjuntura eleitoral mais uma vez oferece testemunho daquilo que parece ser uma constante de nossa história política: toda sucessão presidencial é traumática, quer sigamos o método da chamada “República Velha” quando cada Presidente indicava seu sucessor, ao servir o tradicional “café-com-leite”; ou durante o regime militar, um general consagrando outro quatro-estrelas após contenda nos quartéis; ou, finalmente, as tão barulhentas e carnavalescamente inauguradas “diretas já” que, quase sempre, resultam em fiasco. Vejam se pode funcionar um regime como o que estabeleceu a impagável Constituição de 88 – diabolicamente criada para tudo embaralhar. São quatro candidatos para o topo e mais 16.000 bobocas para outros cargos. Todos se dizem de “esquerda”, provavelmente por ser quase impossível definir o que seja “direita”. Todos, no entanto, são tenazes conservadores do arcaico regime patrimonialista que aí está, e tanto mais entusiasticamente partidários do statu-quo quanto mais em altos brados proclamam seu propósito de “mudar o que aí está”. Todos prometem aumentar o salário mínimo quando a principal exigência do momento é exatamente o oposto: reduzir o salário máximo dos mais eminentes marajás da Nomenklatura político/burocrática a que os quatro pertencem. Todos pregam a aceleração do desenvolvimento, enquanto incluem em seus programas receituários que, se adotados, reduzirão drasticamente as perspectivas de expansão econômica. Em suma, todos mentem, felizmente, numa prodigiosa farsa do duplo-pensar de Orwell, usando a novi-língua (newspeak) em que as palavras explicitadas têm um sentido exatamente o oposto ao da realidade. Não é de admirar que meu e-mail seja inundado de mensagem de tom apocalíptico. O diabinho que se anuncia nessa apocalipse de fancaria não é perigoso. Como diria Octávio Thyrso, é um “palhaço mentiroso” que todas as noites vemos e ouvimos na TV...