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O episódio
do terrorismo em Nova York e da luta contra o
regime fundamentalista islâmico, no Afeganistão,
chamou a atenção da opinião
mundial para os problemas de violência que
o fenômeno de globalização
pode provocar. À primeira vista, a chamada
"revolução de veludo",
ao deitar por terra a URSS e o comunismo, deu
a falsa impressão que nos encontrávamos
no "fim da história" e, doravante,
ao regime de democracia liberal e economia de
mercado se abria uma estrada ensolarada, ladeada
de rosas, na direção do ideal de
"um mundo só". O fundamentalismo
religioso e a reação ruidosa e incoerente
do "socialismo tardio", em eventos como
os de Seattle, Gênova e Porto Alegre, nos
impõem agora uma impressão diversa
- a de que o Planeta se aproxima de nova fase
bélica, brutal e revolucionária
como a que escarmentou a primeira metade do século
20. A História é imprevisível.
Tolo é imaginar que cessará de ser
aquilo que, em 1788, Edward Gibbon descreveu como
"pouco mais do que o registro dos crimes,
loucuras e misérias da Humanidade".
Entretanto, entre as dores do parto, creio que
entramos na idade do mundo global, com contraponto
na idade do crime. Não aceito a hipótese
de Samuel Huntington, que prevê um "choque
de civilizações", com a consolidação
de vários blocos, circundando pólos
econômicos e culturais como o Ocidental
Atlântico, China, Rússia e Islã.
Esses blocos são, a meu ver, vulneráveis
ao fenômeno irreversível da própria
globalização das comunicações.
Desgosta-me, sobretudo, sua colocação
da América Latina como uma espécie
de "subcivilização" autônoma,
associada embora ao Ocidente. O eminente filósofo
político de Harvard talvez tenha ficado
impressionado com os sinais da permanência
de uma cultura indígena pré-colombiana
no México e Peru. Um chileno, um argentino
e mesmo um brasileiro de São Paulo ao Rio
Grande do Sul aceitará, porventura, não
ser considerado europeu? Seremos menos "ocidentais"
que um filipino ou um israelense que ele considera
partes do Ocidente, quiçá por uma
idiossincrasia de fundo religioso ou lingüístico?
Não é catolicismo latino ocidental?
Huntington é farisaico... O fulcro do debate
é sua insistência em dar prioridade
à institucionalização política.
Os resquícios do caudilhismo militar é
o que deve explicar essa grave falácia
em sua teoria. No final da obra A Ordem Política
nas Sociedades em Mudança (Edusp e Forense,
1975), Huntington é taxativo: "No
mundo em modernização, quem controla
o futuro é quem organiza sua política."
Como ainda somos mal organizados politicamente
para uma eventual integração no
universo liberal democrático, ele subestima
nosso subcontinente, em que pesem as contribuições
que no terreno artístico, literário
e econômico já oferecemos à
"civilização atlântica".
Apoiando as
presunções de Huntington, acredito
que a China e o Islã são as áreas
em que um "choque de civilizações"
sangrento poderia ocorrer. Mesmo a China porém,
não obstante as áreas de fricção
perigosas na Ásia sul-oriental em que enfrenta
as culturas nipônica, maometana e cristã,
dando margem a uma eventual intervenção
armada norte-americana, tendente a evitar vôos
hegemônicos de Beidjing, não me parece
representar a ameaça vislumbrada.
Afinal de contas,
os "dois sistemas" da fórmula
que a China moderna adota, o capitalista nas cidades
litorâneas, que rapidamente se enriquecem,
e o comunista oficialmente vigorante na capital,
possuem raízes ideológicas legitimamente
ocidentais. Não há uma tradição
de imperialismo agressivo na China. Sua é
mais defensiva e introvertida do que expansionista.
Sou, por conseguinte, otimista quanto a uma eventual
integração do "Império
Central" ao mundo articulado em torno dos
dois eixos de globalização do Pacífico
e Atlântico-Norte.
Quanto ao Islã,
a história é outra. Religião,
política e cultura se misturam confusamente
na vasta área que o profetismo maometano
cobriu e seu fundamentalismo é anticristão,
é reacionário, machista e pouco
adaptável aos aspectos liberais, individualistas
e feministas inerentes ao paradigma moderno. Nessas
condições, contrariando a tese de
Huntington, insisto em outra perspectiva antecipatória.
O problema não é de um choque "geopolítico",
é o de um choque "histórico".
Não é espacial, é cronológico.
Quanto mais
fortemente as sociedades orientais se recusarem
a aceitar a necessidade de, rapidamente, se desenvolverem
no sentido de adaptação ao modelo
universal, de colorido euro-americano, tanto mais
o conservadorismo reacionário poderá
se exacerbar, contaminando-se de matizes destrutivos
violentos. O terrorismo islâmico, simpaticamente
acolhido pelos trogloditas da esquerda clássica
marxista, provocou a primeira escaramuça
no movimento desesperado de resistência
à sociedade aberta global. Infelizmente,
não podemos esperar que seja o último.
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