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Jornal da Tarde, 18 de fevereiro de 2002
O choque das civilizações
Seremos menos "ocidentais" que um filipino ou um israelense que Huntington considera partes do Ocidente?

 
 

O episódio do terrorismo em Nova York e da luta contra o regime fundamentalista islâmico, no Afeganistão, chamou a atenção da opinião mundial para os problemas de violência que o fenômeno de globalização pode provocar. À primeira vista, a chamada "revolução de veludo", ao deitar por terra a URSS e o comunismo, deu a falsa impressão que nos encontrávamos no "fim da história" e, doravante, ao regime de democracia liberal e economia de mercado se abria uma estrada ensolarada, ladeada de rosas, na direção do ideal de "um mundo só". O fundamentalismo religioso e a reação ruidosa e incoerente do "socialismo tardio", em eventos como os de Seattle, Gênova e Porto Alegre, nos impõem agora uma impressão diversa - a de que o Planeta se aproxima de nova fase bélica, brutal e revolucionária como a que escarmentou a primeira metade do século 20. A História é imprevisível. Tolo é imaginar que cessará de ser aquilo que, em 1788, Edward Gibbon descreveu como "pouco mais do que o registro dos crimes, loucuras e misérias da Humanidade".
Entretanto, entre as dores do parto, creio que entramos na idade do mundo global, com contraponto na idade do crime. Não aceito a hipótese de Samuel Huntington, que prevê um "choque de civilizações", com a consolidação de vários blocos, circundando pólos econômicos e culturais como o Ocidental Atlântico, China, Rússia e Islã. Esses blocos são, a meu ver, vulneráveis ao fenômeno irreversível da própria globalização das comunicações. Desgosta-me, sobretudo, sua colocação da América Latina como uma espécie de "subcivilização" autônoma, associada embora ao Ocidente. O eminente filósofo político de Harvard talvez tenha ficado impressionado com os sinais da permanência de uma cultura indígena pré-colombiana no México e Peru. Um chileno, um argentino e mesmo um brasileiro de São Paulo ao Rio Grande do Sul aceitará, porventura, não ser considerado europeu? Seremos menos "ocidentais" que um filipino ou um israelense que ele considera partes do Ocidente, quiçá por uma idiossincrasia de fundo religioso ou lingüístico?
Não é catolicismo latino ocidental? Huntington é farisaico... O fulcro do debate é sua insistência em dar prioridade à institucionalização política.
Os resquícios do caudilhismo militar é o que deve explicar essa grave falácia em sua teoria. No final da obra A Ordem Política nas Sociedades em Mudança (Edusp e Forense, 1975), Huntington é taxativo: "No mundo em modernização, quem controla o futuro é quem organiza sua política." Como ainda somos mal organizados politicamente para uma eventual integração no universo liberal democrático, ele subestima nosso subcontinente, em que pesem as contribuições que no terreno artístico, literário e econômico já oferecemos à "civilização atlântica".

Apoiando as presunções de Huntington, acredito que a China e o Islã são as áreas em que um "choque de civilizações" sangrento poderia ocorrer. Mesmo a China porém, não obstante as áreas de fricção perigosas na Ásia sul-oriental em que enfrenta as culturas nipônica, maometana e cristã, dando margem a uma eventual intervenção armada norte-americana, tendente a evitar vôos hegemônicos de Beidjing, não me parece representar a ameaça vislumbrada.

Afinal de contas, os "dois sistemas" da fórmula que a China moderna adota, o capitalista nas cidades litorâneas, que rapidamente se enriquecem, e o comunista oficialmente vigorante na capital, possuem raízes ideológicas legitimamente ocidentais. Não há uma tradição de imperialismo agressivo na China. Sua é mais defensiva e introvertida do que expansionista. Sou, por conseguinte, otimista quanto a uma eventual integração do "Império Central" ao mundo articulado em torno dos dois eixos de globalização do Pacífico e Atlântico-Norte.

Quanto ao Islã, a história é outra. Religião, política e cultura se misturam confusamente na vasta área que o profetismo maometano cobriu e seu fundamentalismo é anticristão, é reacionário, machista e pouco adaptável aos aspectos liberais, individualistas e feministas inerentes ao paradigma moderno. Nessas condições, contrariando a tese de Huntington, insisto em outra perspectiva antecipatória. O problema não é de um choque "geopolítico", é o de um choque "histórico". Não é espacial, é cronológico.

Quanto mais fortemente as sociedades orientais se recusarem a aceitar a necessidade de, rapidamente, se desenvolverem no sentido de adaptação ao modelo universal, de colorido euro-americano, tanto mais o conservadorismo reacionário poderá se exacerbar, contaminando-se de matizes destrutivos violentos. O terrorismo islâmico, simpaticamente acolhido pelos trogloditas da esquerda clássica marxista, provocou a primeira escaramuça no movimento desesperado de resistência à sociedade aberta global. Infelizmente, não podemos esperar que seja o último.