|
Em sua obra
sobre o fundamentalismo religioso, The Fight for
God, a conhecida historiadora Karen Armstrong
menciona o egípcio Sayyid Qutb, nascido
em 1906 e executado por Nasser em 1966, como o
cérebro detrás da atual vaga mortífera
de terrorismo islâmico. Líder de
uma facção extremista, esse intelectual
muçulmano ocupou um alto cargo no governo
militar egípcio que foi responsável
por duas guerras perdidas contra Israel, 1956
e 1967. O curioso é que ele viveu três
anos nos EUA, entre 1948 e 1951, estudando em
Washington, na Califórnia e no Colorado.
O contato com a vida americana o tornou, porém,
um inimigo implacável de tudo que a modernidade
representa no paradigma da American Way of Life.
Em artigo recente na revista de The Weeky Standard
(29/4), o sociólogo indiano de origem portuguesa
Dinesh DSouza o descreve como o "pai intelectual"
da Jihad antiocidental. Embora nunca tivesse pregado
abertamente o uso da violência, Qutb seria
o inspirador eminente dessa espécie de
frenético impulso suicida/homicida que,
nos últimos anos, tem atormentado o mundo
civilizado.
Matar os infiéis.
Matar sobretudo americanos e judeus. Matar todos
aqueles que se recusem a adotar as normas estritas
do Corão. Eliminar no sangue o liberalismo,
a idolatria, o "relativismo" moral,
o pluralismo de crenças e opiniões,
a tolerância com qualquer seita ou partido
não consentâneos com os ensinamentos
de Mohammed, combatendo sobretudo os vários
aspectos da revolução sexual, a
igualdade de homens e mulheres e a permissividade,
a estas concedidas, em matéria de relacionamentos
que não impliquem estrita submissão
ao machista patriarca - tal seria o Programa da
Irmandade Muçulmana que Qutb liderou e
que Osama bin Laden pretende (ou pretendia) espalhar
pelo mundo. Se o Ocidente moderno se define pelo
termo liberdade, o Islã é antes
de tudo "submissão", "obediência".
É isto o que se deduz da obra principal
de Qutb, À Sombra do Corão, escrito
na prisão e curiosamente semelhante, em
seus métodos e propósitos, aos Cadernos
de Gramsci.
A receita é totalitária
e tem muito mais em comum com uma forma oriental
de fascismo do que o comunismo. Os muçulmanos
ortodoxos sempre pregaram e impuseram a união
da religião e da política. A noção
de separação entre Igreja e Estado
lhes é abominável. Seria esta a
razão pela qual, no correr da História,
nunca foram os árabes capazes não
só de admitir formas democráticas
de convivência, mas qualquer outro sistema
político diverso do que Marx e Wittfogel
definiram como o "despotismo oriental".
Três únicas dinastias conseguiram
perdurar no mundo islâmico, os turcos seldjukidas
e otomanos e os grão-mogóis da Índia
- os únicos que foram militarmente capazes
de enfrentar os europeus, se excetuarmos os primeiros
conquistadores mouros da Península Ibérica,
e os curdos que combateram os cruzados sob a liderança
de Sahah-ud-din Yusuf, o grande Saladino. Por
este motivo, sem dúvida, um embaixador
inglês que conheci em Israel me disse um
dia, sarcasticamente: "Esta gente, maus soldados,
esplêndidos assassinos..."
Já tive em outro
artigo a oportunidade de explicar a etimologia
do termo "assassino", haxixim, comedores
de haxixe, uma seita iraniana do século
12.
Inferiorizados militar e
economicamente desde a conquista de Bagdá
pelos mongóis; submetidos aos turcos durante
700 anos e, logo em seguida, vitimados pela colonização
européia cujo "modernismo" detestavam,
os primitivos beduínos do deserto da Arábia
que promoveram a Jihad não tiveram outro
remédio senão recorrer ao homicídio
suicida contra qualquer autoridade dominante.
Assim foram mortos Ali, genro do profeta, e Hussein,
fundador do xiismo. O sacrifício de jovens
e mulheres na execução dos altos
desígnios de Allah seria então justificado.
O Irã usou milhares de "crianças
heróicas" para "limpar"
os campos minados na guerra de 1980/88 contra
o Iraque. No setembro negro de 1970, os palestinos
colocaram mulheres e crianças na sua frente,
para se protegerem do exército do rei Hussein
da Jordânia, que os forçou a refugiar-se
no Líbano onde provocaram a sangrenta guerra
civil com os maronitas que quase destruiu o país.
O que estamos assistindo em Israel ocorreu há
anos até mesmo na cidade sagrada de Meca,
durante a peregrinação anual. Não
nos espantemos, portanto, com o horrendo espetáculo
de sangue e destruição a que estamos
assistindo desde setembro de 2001...
|