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Jornal da Tarde, 29 de abril de 2002
O guru e os assassinos

 
 

Em sua obra sobre o fundamentalismo religioso, The Fight for God, a conhecida historiadora Karen Armstrong menciona o egípcio Sayyid Qutb, nascido em 1906 e executado por Nasser em 1966, como o cérebro detrás da atual vaga mortífera de terrorismo islâmico. Líder de uma facção extremista, esse intelectual muçulmano ocupou um alto cargo no governo militar egípcio que foi responsável por duas guerras perdidas contra Israel, 1956 e 1967. O curioso é que ele viveu três anos nos EUA, entre 1948 e 1951, estudando em Washington, na Califórnia e no Colorado. O contato com a vida americana o tornou, porém, um inimigo implacável de tudo que a modernidade representa no paradigma da American Way of Life. Em artigo recente na revista de The Weeky Standard (29/4), o sociólogo indiano de origem portuguesa Dinesh DSouza o descreve como o "pai intelectual" da Jihad antiocidental. Embora nunca tivesse pregado abertamente o uso da violência, Qutb seria o inspirador eminente dessa espécie de frenético impulso suicida/homicida que, nos últimos anos, tem atormentado o mundo civilizado.

Matar os infiéis. Matar sobretudo americanos e judeus. Matar todos aqueles que se recusem a adotar as normas estritas do Corão. Eliminar no sangue o liberalismo, a idolatria, o "relativismo" moral, o pluralismo de crenças e opiniões, a tolerância com qualquer seita ou partido não consentâneos com os ensinamentos de Mohammed, combatendo sobretudo os vários aspectos da revolução sexual, a igualdade de homens e mulheres e a permissividade, a estas concedidas, em matéria de relacionamentos que não impliquem estrita submissão ao machista patriarca - tal seria o Programa da Irmandade Muçulmana que Qutb liderou e que Osama bin Laden pretende (ou pretendia) espalhar pelo mundo. Se o Ocidente moderno se define pelo termo liberdade, o Islã é antes de tudo "submissão", "obediência". É isto o que se deduz da obra principal de Qutb, À Sombra do Corão, escrito na prisão e curiosamente semelhante, em seus métodos e propósitos, aos Cadernos de Gramsci.

A receita é totalitária e tem muito mais em comum com uma forma oriental de fascismo do que o comunismo. Os muçulmanos ortodoxos sempre pregaram e impuseram a união da religião e da política. A noção de separação entre Igreja e Estado lhes é abominável. Seria esta a razão pela qual, no correr da História, nunca foram os árabes capazes não só de admitir formas democráticas de convivência, mas qualquer outro sistema político diverso do que Marx e Wittfogel definiram como o "despotismo oriental". Três únicas dinastias conseguiram perdurar no mundo islâmico, os turcos seldjukidas e otomanos e os grão-mogóis da Índia - os únicos que foram militarmente capazes de enfrentar os europeus, se excetuarmos os primeiros conquistadores mouros da Península Ibérica, e os curdos que combateram os cruzados sob a liderança de Sahah-ud-din Yusuf, o grande Saladino. Por este motivo, sem dúvida, um embaixador inglês que conheci em Israel me disse um dia, sarcasticamente: "Esta gente, maus soldados, esplêndidos assassinos..."

Já tive em outro artigo a oportunidade de explicar a etimologia do termo "assassino", haxixim, comedores de haxixe, uma seita iraniana do século 12.

Inferiorizados militar e economicamente desde a conquista de Bagdá pelos mongóis; submetidos aos turcos durante 700 anos e, logo em seguida, vitimados pela colonização européia cujo "modernismo" detestavam, os primitivos beduínos do deserto da Arábia que promoveram a Jihad não tiveram outro remédio senão recorrer ao homicídio suicida contra qualquer autoridade dominante. Assim foram mortos Ali, genro do profeta, e Hussein, fundador do xiismo. O sacrifício de jovens e mulheres na execução dos altos desígnios de Allah seria então justificado. O Irã usou milhares de "crianças heróicas" para "limpar" os campos minados na guerra de 1980/88 contra o Iraque. No setembro negro de 1970, os palestinos colocaram mulheres e crianças na sua frente, para se protegerem do exército do rei Hussein da Jordânia, que os forçou a refugiar-se no Líbano onde provocaram a sangrenta guerra civil com os maronitas que quase destruiu o país. O que estamos assistindo em Israel ocorreu há anos até mesmo na cidade sagrada de Meca, durante a peregrinação anual. Não nos espantemos, portanto, com o horrendo espetáculo de sangue e destruição a que estamos assistindo desde setembro de 2001...