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Na região do Oriente Médio,
os ânimos estão a tal ponto exaltados
que existe enorme dificuldade em analisar qualquer
situação militar, geopolítica
ou econômica, em termos frios e objetivos.
Frieza, objetividade e imparcialidade é,
exatamente, o que está faltando tanto do
lado dos imediatamente interessados, judeus e
palestinos, ou, em termos mais largos, americanos
e árabes, quanto daqueles a quem cabe exercer
o árduo e inconfortável papel do
tradicional "deixa disso!". Interferir
numa briga de bêbados não é
cômodo. Pior ainda, numa querela em torno
de questões religiosas. A paixão
irascível é contagiosa. Fui embaixador
em Israel de 1967 a 1970 e tenho uma posição
tomada. Mas é com enorme dificuldade que
a procuro manter equilibrada ante o espetáculo
do desencadeamento de intratáveis paixões
homicidas, terrorismo, fanatismo suicida, vendeta,
ambições territoriais, etc.
A situação é agravada pela
guinada que a diplomacia brasileira deu, há
30 anos, sob influência de vários
chefes da Casa a que pertenci, alguns que muito
admiro, mas um dos quais sempre cordialmente me
desagradou. Este cavalheiro já influenciava
os lances de nossa política externa como
embaixador em Genebra, antes mesmo de eu embarcar
para Tel-Aviv, tornando-se francamente o líder
do "terceiro-mundismo" antiamericano
como chanceler de Geisel e, através de
seu sonolento sucessor, ao tempo de Figueiredo.
A grande cartada consistia em pretender desviar
para o Brasil os petrodólares que se acumularam
de forma gigantesca nas décadas 1970/80.
Mas, em vez de nos locupletarmos com o tesouro
de Ali Babá, foi o Brasil que investiu
pesadamente na região, particularmente
no Iraque. Como não era Bagdá um
posto de tout repos, foi esnobado pelo diplomatas
de carreira e, por longos anos, entregue a um
general reformado que criou fortes laços
de amizade com o tirano local - o mesmo que ainda
hoje governa a nação infeliz.
O coleguismo da farda valia mais do que a experiência
da carrière.
Petrobrás, Engesa, Mendes Júnior,
Avibrás, Embraer e não sei mais
que empresa brasileira se dedicaram, com o maior
afinco, a cavar poços, construir ferrovias,
abrir estradas, fornecer tecnologia de míssil
e, ao fim, desenvolver por algumas centenas de
milhões de dólares um tanque pesado.
O famoso Osório foi especialmente concebido
- não para combater nas coxilhas gaúchas,
então ameaçadas, segundo alguns
pessimistas, pela crise de megalomania paranóica
dos generais e almirantes argentinos, mas a enfrentar
tanques israelenses e/ou ianques nas areias do
deserto. De tudo isso resultou numa verdadeira
estória das "1001 Noites". Para
encurtar: bilhões de dólares brasileiríssimos
engolidos à fonds perdus nas ditas areias
movediças. A Petrobrás perdeu sua
"província pioneira mais rica do mundo"
e os sauditas preferiram, com razões de
sobra, investir no mais moderno tanque americano
Abrams. De tudo sobrou, porém, de modo
algo misterioso, uma sombra tenaz de simpatia
por Saddam Hussein: há um quê de
masoquismo no caráter brasileiro...
Ora, segundo fontes israelenses e a opinião
de alguns colegas mais sutis que serviram na área,
é Saddam o mais pérfido, mais astuto
e mais inexorável de todos os mafiosos
que governam o Oriente Médio. O velho Bush
não o quis derrubar, na Guerra do Golfo,
para mantê-lo como reserva árabe
"sunita", frente a qualquer agravamento
da histeria fundamentalista iraniana "xiita".
O "Eixo do Mal" do jovem Bush abarca
hoje, conjuntamente, Iraque e Irã.
Aparentemente, os EUA possuem provas de que Saddam
não só renasceu das cinzas de 1991,
como verdadeiro Fênix, mas está determinado
a encabeçar uma coalizão antiisraelense
com armas químicas e biológicas,
do tipo que já utilizou contra os curdos
e os xiitas da baixa Mesopotânia na guerra
contra o Irã de 1980/82 - conflito este
que teria causado mais de meio milhão de
mortos.
O recente incidente envolvendo o diretor-geral
brasileiro da Organização para a
Proscrição de Armas Químicas
revela o ranço terceiro-mundista ainda
reinante na carreira. O Departamento de Estado
deseja expulsar de seu posto o aludido funcionário,
suspeitando, presumo com razões ponderáveis,
de suas simpatias ideológicas e étnicas.
O aludido funcionário internacional pretende
dar entrada ao Iraque em sua organização,
que depende da ONU, enquanto Bush e Colin Powell
se propõem exatamente o oposto, varrer
Saddam Hussein da região, juntamente com
seu estoque de armas ilícitas, armazenadas
em local inacessível aos inspetores onusianos.
Como disse: talvez não seja eu a pessoa
adequada para julgar imparcialmente entre a sorte
de Israel e a do Iraque, ou entre Sharon e Saddam
Hussein... Que o Allahu Akbar me venha em socorro
e me proporcione uma lâmpada de Aladim na
tenebrosa escuridão que cobre todas as
intrigas diplomáticas naquela área.
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