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Jornal da Tarde, 15 de abril de 2002
O Iraque e a diplomacia brasileira

 
 

Na região do Oriente Médio, os ânimos estão a tal ponto exaltados que existe enorme dificuldade em analisar qualquer situação militar, geopolítica ou econômica, em termos frios e objetivos. Frieza, objetividade e imparcialidade é, exatamente, o que está faltando tanto do lado dos imediatamente interessados, judeus e palestinos, ou, em termos mais largos, americanos e árabes, quanto daqueles a quem cabe exercer o árduo e inconfortável papel do tradicional "deixa disso!". Interferir numa briga de bêbados não é cômodo. Pior ainda, numa querela em torno de questões religiosas. A paixão irascível é contagiosa. Fui embaixador em Israel de 1967 a 1970 e tenho uma posição tomada. Mas é com enorme dificuldade que a procuro manter equilibrada ante o espetáculo do desencadeamento de intratáveis paixões homicidas, terrorismo, fanatismo suicida, vendeta, ambições territoriais, etc.

A situação é agravada pela guinada que a diplomacia brasileira deu, há 30 anos, sob influência de vários chefes da Casa a que pertenci, alguns que muito admiro, mas um dos quais sempre cordialmente me desagradou. Este cavalheiro já influenciava os lances de nossa política externa como embaixador em Genebra, antes mesmo de eu embarcar para Tel-Aviv, tornando-se francamente o líder do "terceiro-mundismo" antiamericano como chanceler de Geisel e, através de seu sonolento sucessor, ao tempo de Figueiredo. A grande cartada consistia em pretender desviar para o Brasil os petrodólares que se acumularam de forma gigantesca nas décadas 1970/80. Mas, em vez de nos locupletarmos com o tesouro de Ali Babá, foi o Brasil que investiu pesadamente na região, particularmente no Iraque. Como não era Bagdá um posto de tout repos, foi esnobado pelo diplomatas de carreira e, por longos anos, entregue a um general reformado que criou fortes laços de amizade com o tirano local - o mesmo que ainda hoje governa a nação infeliz.

O coleguismo da farda valia mais do que a experiência da carrière.

Petrobrás, Engesa, Mendes Júnior, Avibrás, Embraer e não sei mais que empresa brasileira se dedicaram, com o maior afinco, a cavar poços, construir ferrovias, abrir estradas, fornecer tecnologia de míssil e, ao fim, desenvolver por algumas centenas de milhões de dólares um tanque pesado. O famoso Osório foi especialmente concebido - não para combater nas coxilhas gaúchas, então ameaçadas, segundo alguns pessimistas, pela crise de megalomania paranóica dos generais e almirantes argentinos, mas a enfrentar tanques israelenses e/ou ianques nas areias do deserto. De tudo isso resultou numa verdadeira estória das "1001 Noites". Para encurtar: bilhões de dólares brasileiríssimos engolidos à fonds perdus nas ditas areias movediças. A Petrobrás perdeu sua "província pioneira mais rica do mundo" e os sauditas preferiram, com razões de sobra, investir no mais moderno tanque americano Abrams. De tudo sobrou, porém, de modo algo misterioso, uma sombra tenaz de simpatia por Saddam Hussein: há um quê de masoquismo no caráter brasileiro...

Ora, segundo fontes israelenses e a opinião de alguns colegas mais sutis que serviram na área, é Saddam o mais pérfido, mais astuto e mais inexorável de todos os mafiosos que governam o Oriente Médio. O velho Bush não o quis derrubar, na Guerra do Golfo, para mantê-lo como reserva árabe "sunita", frente a qualquer agravamento da histeria fundamentalista iraniana "xiita".

O "Eixo do Mal" do jovem Bush abarca hoje, conjuntamente, Iraque e Irã.

Aparentemente, os EUA possuem provas de que Saddam não só renasceu das cinzas de 1991, como verdadeiro Fênix, mas está determinado a encabeçar uma coalizão antiisraelense com armas químicas e biológicas, do tipo que já utilizou contra os curdos e os xiitas da baixa Mesopotânia na guerra contra o Irã de 1980/82 - conflito este que teria causado mais de meio milhão de mortos.

O recente incidente envolvendo o diretor-geral brasileiro da Organização para a Proscrição de Armas Químicas revela o ranço terceiro-mundista ainda reinante na carreira. O Departamento de Estado deseja expulsar de seu posto o aludido funcionário, suspeitando, presumo com razões ponderáveis, de suas simpatias ideológicas e étnicas. O aludido funcionário internacional pretende dar entrada ao Iraque em sua organização, que depende da ONU, enquanto Bush e Colin Powell se propõem exatamente o oposto, varrer Saddam Hussein da região, juntamente com seu estoque de armas ilícitas, armazenadas em local inacessível aos inspetores onusianos. Como disse: talvez não seja eu a pessoa adequada para julgar imparcialmente entre a sorte de Israel e a do Iraque, ou entre Sharon e Saddam Hussein... Que o Allahu Akbar me venha em socorro e me proporcione uma lâmpada de Aladim na tenebrosa escuridão que cobre todas as intrigas diplomáticas naquela área.